O aumento das temperaturas globais e a intensificação das ondas de calor no Brasil trazem um alerta crítico para a saúde pública: o crescimento dos riscos de câncer de pele. Em entrevista à Agência Fiocruz de Notícias, a médica dermatologista e pesquisadora Ana Luiza Villarinho, do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/Ensp/Fiocruz), detalhou como as mudanças climáticas e a poluição ambiental estão diretamente ligadas ao aumento da incidência da doença.
Segundo dados do Ministério da Saúde, o câncer de pele é provocado principalmente pela exposição excessiva ao sol. A doença é dividida entre os tipos melanoma (mais grave e com maior risco de metástase) e não melanoma (mais frequente e com altos índices de cura se detectado precocemente). Estimativas do Instituto Nacional do Câncer (Inca) para o triênio 2026-2028 reforçam que a radiação ultravioleta (UV) permanece como o principal fator de risco.
Grupos vulneráveis e trabalhadores
A exposição não atinge a todos da mesma forma. Trabalhadores de setores como agricultura e construção civil estão na linha de frente. Cerca de 23,5% dos trabalhadores brasileiros estão constantemente expostos ao sol, sendo a maioria homens, pessoas pardas e com baixo nível de escolaridade.
Embora pessoas de pele clara (fototipo baixo) tenham maior risco genético devido à menor quantidade de melanina, a pesquisadora ressalta que o melanoma em pessoas negras costuma surgir em áreas claras, como palmas das mãos e plantas dos pés, exigindo atenção redobrada no diagnóstico.
O impacto ambiental e o conceito de Saúde Única
A relação entre o equilíbrio ambiental e a saúde humana é evidente nos dados apresentados pela pesquisadora. Villarinho explica que a destruição da camada de ozônio permite que mais radiação UV atinja a superfície terrestre. “Estima-se que uma redução de 1% na camada de ozônio possa levar a um aumento de 1% a 2% na incidência de melanoma e de até 4% nos casos de não melanoma”, afirma.
Este cenário reforça a importância do conceito de Saúde Única (One Health). A abordagem integra a saúde humana, animal e ambiental, reconhecendo que a degradação do ecossistema — como o aquecimento global e a emissão de gases poluentes — afeta diretamente o bem-estar da população. No caso do câncer de pele, o carbono negro (poluente de combustíveis fósseis) potencializa os danos da radiação UV, causando inflamação crônica na pele.
Medidas de prevenção no calor extremo
Para enfrentar os dias de sol intenso, as recomendações fundamentais incluem:
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Hidratação: Aumentar a ingestão de água e sucos naturais.
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Horários críticos: Evitar exposição solar entre 10h e 16h.
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Barreiras físicas: Uso de chapéus de abas largas, óculos escuros e roupas com proteção UV.
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Filtro solar: Utilizar FPS 30 ou superior, reaplicando a cada duas horas ou após suor intenso e banhos de mar/piscina.
A detecção precoce continua sendo a melhor estratégia. O SUS oferece rastreamento na Atenção Primária, e o Cesteh/Fiocruz atua especificamente na saúde do trabalhador, avaliando o nexo causal entre a ocupação e o surgimento de lesões cutâneas.




