Entrar em um hospital para um procedimento simples, como o tratamento de uma fratura ou uma cirurgia programada, e nunca mais voltar para casa. Esse é o pesadelo que se repete diariamente em corredores de unidades de saúde por todo o Brasil. O que deveria ser um ambiente de cura, muitas vezes, torna-se o cenário de uma infecção hospitalar devastadora ou de um erro assistencial fatal.
A dimensão desse drama é traduzida em números que assustam: no Brasil, estima-se que as Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (IRAS) causem milhares de mortes todos os anos. Somente no primeiro semestre de 2025, uma pesquisa da Organização Nacional de Acreditação (ONA) aponta que 57,03% das mortes por eventos adversos em hospitais foram causadas por falhas na assistência médica, multidisciplinar ou por infecções.
De acordo com o levantamento da ONA, realizado em parceria com a Epimed Solutions no primeiro semestre de 2025, 25,21% dos eventos adversos fatais ocorreram por falha de assistência médica e 14,46% por infecções hospitalares. Somados, esses fatores mostram que a maioria das mortes evitáveis acontece onde o paciente deveria estar mais seguro: as UTIs (21,07%) e unidades de internação (7,85%).
Um sistema que falha onde deveria proteger
O dado mais alarmante é que a maioria dessas tragédias ocorre nas Unidades de Terapia Intensiva (UTIs), onde 21,07% dos incidentes fatais são registrados. Esses números não são apenas estatísticas; eles têm rosto e história. A editora do Vida e Ação, Rosayne Macedo, perdeu o pai precocemente, aos 51 anos, vítima de uma infecção hospitalar após um erro médico, uma dor que reforça o compromisso deste portal em cobrar transparência e segurança máxima nos hospitais.
A boa notícia que o setor esperava é que a segurança do paciente no Brasil acaba de ganhar um novo e robusto marco regulatório. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou o Programa Nacional de Prevenção e Controle de Infecções Relacionadas à Assistência à Saúde (PNPCIRAS 2026-2030).
O plano chega com a missão urgente de reduzir em 50% essas ocorrências até o final da década, focando na melhoria das práticas de vigilância e no controle de microrganismos multirresistentes. A meta da Anvisa está alinhada à Organização Mundial da Saúde (OMS) de controlar os danos evitáveis até 2030, transformando a gestão sanitária em uma rede de proteção real para o cidadão.
A nova diretriz da Anvisa incentiva a “Cultura Justa”, onde o erro é analisado sistematicamente para que não se repita, e reforça o uso de tecnologias que antecipam o risco de sepse e choque séptico, condições que hoje matam cerca de 240 mil brasileiros por ano.
O que muda com o novo programa da Anvisa (2026-2030)
O PNPCIRAS 2026-2030 não é apenas um documento de intenções, mas um plano operacional que integra estados e municípios. Os pilares principais incluem:
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Combate à Resistência Antimicrobiana (RAM): Prevenir o surgimento de “superbactérias” nos serviços de saúde.
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Vigilância Ativa: Fortalecer a notificação de surtos e incidentes em todos os níveis de assistência (hospitais, clínicas e home care).
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Cultura de Segurança: Implementar a Just Culture (Cultura Justa), que substitui a punição individual pela análise sistêmica do erro.
O plano da Anvisa também incentiva o uso de tecnologias preditivas. Sistemas de Inteligência Artificial já conseguem antecipar sinais de deterioração clínica e risco de sepse com horas de antecedência.
Comunicação: o remédio que falta nas equipes
Para o Dr. José Branco, diretor do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente (IBSP), o erro técnico é apenas a ponta do iceberg. Em artigo exclusivo para o portal, ele destaca que 70% dos danos aos pacientes nascem de falhas de comunicação.
“Martha Mills, uma jovem de 13 anos, morreu de sepse porque a equipe médica ignorou os alertas desesperados de sua mãe. No Brasil, 42% dos eventos graves envolvem essa desconexão entre quem cuida e quem é cuidado”, alerta o médico.
Guia Prático: Como o acompanhante pode ajudar na segurança
Não seja um espectador passivo. A sua voz pode ser o diferencial entre a vida e o erro:
Questione o “diferente”: Se um remédio mudou de cor ou horário, pergunte o motivo antes de permitirem a aplicação.
O direito às mãos limpas: Você pode e deve pedir que qualquer profissional — do médico ao técnico — higienize as mãos antes de tocar no paciente.
Relate o que os aparelhos não mostram: A família percebe antes de qualquer monitor se o paciente está mais prostrado, confuso ou com a pele fria. Exija que esses sinais sejam levados a sério pela equipe de plantão.
Método SBAR: Ao falar com o médico, seja direto: Diga a Situação (o problema agora), o Histórico (o que aconteceu antes), sua Avaliação (o que você acha que está piorando) e sua Solicitação (o que você quer que seja feito).
O peso da comunicação no erro médico
Para além dos protocolos técnicos, o fator humano aparece como o “elo frágil”. Em artigo no portal, José Branco, fundador do Instituto Brasileiro para Segurança do Paciente (IBSP), alerta que cerca de 70% dos eventos adversos em hospitais estão relacionados a falhas de comunicação.
A segurança do paciente é uma construção coletiva. Hierarquias rígidas e ausência de escuta ativa fazem com que alertas sejam negligenciados”, afirma o especialista.
Ele cita o trágico caso da adolescente britânica Martha Mills, que morreu por sepse em 2021 após os apelos de sua mãe serem ignorados pela equipe médica. Uma realidade que ressoa com a história pessoal da editora do Vida e Ação, Rosayne Macedo, que perdeu o pai precocemente devido a uma infecção hospitalar decorrente de erro médico.
No entanto, o Dr. José Branco reforça que a tecnologia não substitui a empatia: “Pacientes informados e ouvidos tornam-se aliados na própria segurança”.
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