O Dia Internacional da Mulher (8 de março) não chega acompanhado apenas de flores, mas de um luto profundo e uma indignação necessária. Em apenas uma semana, o estado de São Paulo registrou quatro feminicídios brutais, evidenciando uma epidemia de violência que não escolhe hora nem lugar – em casa, nas ruas e até dentro de um shopping de luxo. Todos envolvem companheiros que não aceitavam o fim do relacionamento ou agiam por controle abusivo.

Entre as vítimas, o destino cruel traçou um paralelo doloroso: Priscila Versão (foto acima), de 22 anos, foi espancada até a morte pelo companheiro após uma festa na Zona Norte. O agressor a levou ao hospital já sem vida, com roupas cheirando a gasolina, e foi preso em flagrante. Um vídeo que circulou na internet mostrava a vítima tentando pular um muro para fugir do agressor, mas foi alcançada, espancada e colocada dentro do carro.

Priscila era amiga e vizinha de Tainara Souza Santos, 31, arrastada por um quilômetro na movimentada Marginal Tietê pelo carro do ex-companheiro. Após ter as pernas amputadas, ela não resistiu às lesões e morreu na véspera do Natal de 2025. A dor se transformou em mobilização. Tainara se tornou símbolo da luta contra o feminicídio e motivou um grande movimento nas ruas em dezembro.

O luto que se transforma em luta nas ruas

Diante de números que assustam — o Brasil atingiu o recorde de 1.518 feminicídios em 2025, uma média de quatro mulheres mortas a cada dia —, a resposta do Estado precisa ser estrutural e não apenas simbólica. Por isso, no mês dedicado às causas femininas, uma série de iniciativas governamentais e mobilizações sociais buscam não apenas acolher vítimas, mas também transformar o cenário de impunidade e desinformação que ainda permeia o país.

Para marcar o início das mobilizações do Dia Internacional da Mulher, o Ministério das Mulheres organiza para este domingo (1º) um ato em memória de Tainara na Marginal Tietê, local onde ocorreu o crime. O evento contará com intervenções artísticas e mensagens contra o feminicídio, servindo como um grito por justiça e um chamado para que toda a sociedade — incluindo o sistema de segurança e o Judiciário — se engaje no Pacto Nacional Brasil contra o Feminicídio. A iniciativa, que já conta com a adesão de 19 estados, unifica dados e agilizar medidas protetivas, tentando reduzir o tempo de resposta da justiça, que em alguns estados ainda chega a levar 10 dias para ser concedida.

Expansão da rede de acolhimento e justiça

Uma das principais frentes de ação concreta neste mês das mulheres é a ampliação das unidades da Casa da Mulher Brasileira. A ministra das Mulheres, Márcia Lopes (foto acima), confirmou a inauguração de duas novas unidades em março: uma em Macapá, no dia 6, e outra em Aracaju, no dia 27.

Estes centros são vitais porque oferecem o que especialistas chamam de “acolhimento integral”: em um só prédio, a mulher encontra desde alojamento e apoio psicológico até Defensoria Pública e delegacias especializadas. É a tentativa de romper o ciclo de violência sem que a vítima precise percorrer uma “via-crúcis” burocrática para ser ouvida.

Além das Casas, o governo planeja a implementação de “cuidotecas” e lavanderias coletivas para reduzir a sobrecarga do trabalho doméstico, permitindo que mulheres em situação de vulnerabilidade tenham suporte para estudar e trabalhar e assim, se livrar da dependência financeira de seus agressores e romper o ciclo da violência.

Informação como ferramenta de denúncia

 Ligue 180 funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana (Foto: Vitor Vasconcelos/Secom/PR)

No campo legislativo, a Câmara dos Deputados deu um passo importante esta semana ao aprovar o Projeto de Lei 6140/25. A proposta torna obrigatória a divulgação do Ligue 180 em todas as notícias relacionadas à violência contra a mulher, seja em rádio, TV, jornais ou portais digitais.

A medida é inspirada em protocolos de prevenção ao suicídio e visa garantir que, ao ler ou ouvir sobre um crime, a mulher saiba exatamente onde buscar ajuda imediata. Em 2024, o Brasil registrou números alarmantes, com uma média de quase 200 estupros por dia, reforçando a urgência de ferramentas de denúncia acessíveis.

O Vida e Ação reforça seu compromisso social com a segurança e a dignidade feminina.  Por isso, seguimos a boa prática — agora em vias de se tornar lei — de divulgar o Ligue 180 em todas as nossas matérias sobre o tema na seção especial Mulher. Entendemos que informar é um ato de proteção. O acesso à informação pode ser o divisor de águas entre a tragédia e a sobrevivência.

Justiça sob vigilância: o combate à impunidade

A indignação desta semana também se voltou para os tribunais. O rigor na aplicação da lei também tem sido pauta central do Ministério das Mulheres Recentemente, a ministra Márcia Lopes repudiou publicamente a decisão esdrúxula de desembargadores em Minas Gerais que absolveram um homem de 35 anos acusado de estupro de uma menina de 12 sob a alegação de “vínculo afetivo consensual”.

A repercussão negativa e a pressão governamental e social surtiu efeito: o desembargador Magid Nauef Láuar, do TJMG, recuou em decisão monocrática e mandou prender o acusado e também a mãe da menina por conivência com o crime.

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou nesta sexta-feira (27) o afastamento cautelar do desembargador,  alvo de investigações por suspeita de abuso sexual contra pelo menos cinco vítimas. A medida do CNJ visa garantir que a apuração transcorra sem interferências, após o próprio primo do desembargador, Saulo Láuar, vir a público denunciar abusos sofridos na adolescência.

O caso reacendeu o debate sobre a “vulnerabilidade absoluta” de menores de 14 anos, princípio que não admite interpretações que relativizem a violência sexual contra crianças e adolescentes. O desfecho até o momento serve de alerta para a necessidade de um Judiciário com perspectiva de gênero e infância, que não relativize crimes hediondos sob justificativas arcaicas, como o estupro de vulnerável. 

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As vozes silenciadas e os autores do horror: o resumo dos casos que abalaram o Brasil esta semana

São Paulo vive dias de horror com quatro feminicídios, incluindo a morte de Priscila Versão, amiga próxima de Tainara Santos

Esta semana foi marcada por uma escalada de violência de gênero que choca pela brutalidade e pela proximidade entre as vítimas. Conheça os casos que chocaram o país nos últimos dias e reforçam a urgência do combate ao feminicídio. Dar nome às vítimas é respeitar sua memória; dar nome aos agressores é impedir que a impunidade os proteja!

  • Priscila Versão, 22 anos: A amiga de Tainara Santos foi espancada até a morte na Zona Norte de SP. O autor do crime, seu companheiro Felipe de Oliveira, a levou ao hospital já sem vida e com roupas cheirando a combustível. Priscila não tinha medida protetiva contra Felipe, mas já havia relatado episódios de ciúmes excessivos a amigas.

  • Mayara Barbosa, 29 anos: Executada com três tiros dentro da joalheria onde trabalhava em um shopping de luxo de Santo André, no ABC paulista. O assassino é seu ex-marido, Jefferson de Souza, que não aceitava o divórcio. Mayara tinha uma medida protetiva ativa, que se mostrou insuficiente para impedir a entrada do agressor no local de trabalho da vítima. O crime causou pânico entre clientes e funcionários.

  • Aline Silva, 34 anos: Morta por estrangulamento em Guarulhos. O principal suspeito é seu parceiro, Ricardo dos Santos, que fugiu após o crime. Aline nunca havia registrado boletim de ocorrência contra ele, apesar do histórico de violência psicológica relatado por vizinhos.

  • Beatriz Farias, 19 anos: Assassina a facadas em Itaquaquecetuba por seu namorado, Lucas Ferreira, que confessou o crime antes de tentar o suicídio. Beatriz também não possuía medida protetiva, o que reforça o desafio de identificar o risco antes do ato fatal em relacionamentos precoces.

Radiografia da violência: números recordes e o ciclo do silêncio

Os dados mais recentes da Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP), divulgados nesta sexta-feira (27), confirmam que o início de 2026 mantém a tendência trágica do ano anterior. Em janeiro, 27 mulheres foram vítimas de feminicídio em São Paulo — um aumento em relação às 22 mortes registradas no mesmo período de 2025. O interior paulista concentrou a maior parte da barbárie, com 20 assassinatos.

Esses números consolidam um cenário de alerta máximo: em 2025, o estado já havia batido o recorde desde o início da série histórica, em 2018: somente no ano passado, foram 270 vítimas, o que representa um aumento de 6,7% em relação a 2024, quando o número chegou a 253.

Enquanto, isso o Brasil atingiu a marca estarrecedora de 1.518 feminicídios, segundo Ministério da Justiça e Segurança Pública, o que representa quatro mortes por dia. No ano anterior, em 2024, o país já havia atingido recorde, com 1.458 vítimas.

O cenário de 2026 permanece crítico em todo o país. O Rio Grande do Sul registrou 12 feminicídios apenas nos primeiros 40 dias do ano. Um relatório recente da Assembleia Legislativa apontou que a maioria das vítimas não possuía medida protetiva ativa, evidenciando falhas na rede de proteção estatal.

Por que o feminicídio acontece?

Para a pesquisadora Daiane Bertasso, do Laboratório de Estudos de Feminicídios (Lesfem/UEL), o feminicídio não é um evento isolado ou inesperado. “É um crime que resulta de relações íntimas e ocorre após um ciclo de violências psicológica, emocional e patrimonial, como tipificado pela Lei Maria da Penha“, explica.

Segundo a especialista, três fatores fundamentais alimentam essa engrenagem:

  • A falha na rede: Casos recentes mostram que mesmo mulheres com medidas protetivas não receberam proteção efetiva do Estado.

  • O isolamento da vítima: O machismo e a misoginia fazem com que a mulher se sinta intimidada ou que a própria família minimize as agressões como “apenas uma fase”.

  • Masculinidade tóxica e a “machosfera”: Bertasso alerta para o fortalecimento de redes digitais que disseminam ideais misóginos, cooptando jovens e crianças. Como solução, ela defende a obrigatoriedade da educação voltada para relações de gênero nas escolas.

Saúde humana e bem-estar

No portal Vida e Ação, pautamos nossas matérias pelo conceito de One Health (Saúde Única). Compreendemos que a saúde humana é indissociável do equilíbrio social e ambiental. Uma sociedade onde a violência de gênero é endêmica é uma sociedade doente. Combater o feminicídio e proteger a saúde física e mental das mulheres é, portanto, um pilar essencial para o bem-estar coletivo e para a justiça social.

Como buscar ajuda?

Se você está em situação de perigo ou conhece alguém que esteja, utilize os canais oficiais:

  • Ligue 180 (Central de Atendimento à Mulher): Escuta, orientação e denúncia  24 horas por dia, todos os dias da semana, de forma gratuita e confidencial.

  • Disque 190 (Polícia Militar): Para casos de emergência e flagrante.

  • Delegacias da Mulher: Procure a unidade mais próxima para solicitar Medida Protetiva de Urgência.

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