No Abril Azul, mês de conscientização sobre o autismo, o debate sobre o tema ganha novos contornos ao lançar luz sobre uma realidade ainda pouco discutida: o autismo na vida adulta e os diagnósticos tardios. Cada vez mais pessoas têm se reconhecido dentro do transtorno do espectro autista (TEA) após anos convivendo com desafios emocionais, sociais e profissionais sem uma explicação clara.
Um estudo internacional revela um crescimento expressivo da população idosa com TEA nas últimas décadas — e projeta um aumento ainda mais acelerado nos próximos anos. De acordo com a pesquisa, realizada pela Universidade Médica Harbin, na China, e publicada na revista Molecular Psychiatry, o número de pessoas com autismo com 70 anos ou mais passou de cerca de 894 mil em 1990 para aproximadamente 2,48 milhões em 2021, um salto de 177%.
A tendência deve continuar: a estimativa é que esse contingente ultrapasse cinco milhões até 2040. O estudo aponta ainda diferenças entre grupos populacionais. A prevalência é significativamente maior entre homens do que entre mulheres e tende a ser mais alta em países com maior nível socioeconômico, o que pode, em tese, refletir maior acesso a serviços de saúde e diagnóstico.
Os autores do estudo afirmam que, com previsão de crescimento da população idosa no futuro, espera-se que a carga de TEA entre os adultos mais velhos continue a aumentar, o que exige maior atenção e o desenvolvimento de intervenções eficazes.
Mas por que esses idosos não foram diagnosticados mais cedo na vida deles? Os autores ainda não encontraram os motivos, mas um deles pode estar relacionado a outras pesquisas que mostram que o comportamento de “camuflagem”, ou seja de disfarçar os sintomas de autismo, são relativamente comuns entre adultos.
Os pacientes relatam que fazem isso devido à falta de conhecimento e aceitação do autismo na sociedade, e a maioria avaliou a camuflagem como algo prejudicial à saúde mental, causando estresse, exaustão mental e ansiedade.
Os dados fazem parte do Global Burden of Disease Study 2021, que reúne informações sobre o impacto de doenças e condições de saúde em nível global. A análise mostra que o aumento observado não se deve apenas ao crescimento da população idosa, mas também a um aumento na prevalência do transtorno nessa faixa etária, embora os pesquisadores não identifiquem uma causa específica para esse aumento.
O levantamento analisou dados globais entre 1990 e 2021 e utilizou modelos estatísticos para projetar tendências até 2040, considerando fatores como crescimento populacional, envelhecimento e mudanças na prevalência do transtorno.
Não temos muitos dados sobre a TEA em idosos. O que sabemos é que, hoje, temos muito mais diagnósticos de autismo, ainda na infância, por conta da ampliação dos critérios. É realmente importante pensar nas intervenções para adultos. Tudo é voltado para a infância, que continua sendo a fase mais importante para atuarmos e ter melhores resultados, mas precisamos considerar adultos e idosos com TEA também. Não há muitos projetos nem programas para essa população, então é fundamental desenvolver pesquisas voltadas a esse grupo”, pontua a psiquiatra Danielle Admoni, colunista do VIDA E AÇÃO.
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Diante deste cenário, a terapeuta transpessoal sistêmica Marcela Santana propõe ampliar esse olhar, trazendo reflexões sobre autoconhecimento, saúde mental e os caminhos de acolhimento possíveis após o diagnóstico. A especialista é co-autora no livro Além do Diagnóstico, obra lançada em janeiro de 2026. Seu capítulo traz a proposta de abrir reflexão sobre vivências de pessoas atípicas.
Por que o autismo na vida adulta tem ganhado mais visibilidade agora?
Nos últimos anos, houve um avanço importante no acesso à informação e na ampliação do olhar sobre o espectro autista. Antes, o autismo era muito associado à infância e a casos mais evidentes. Hoje, entendemos que ele se manifesta de diferentes formas, inclusive mais sutis, o que tem levado muitos adultos a se reconhecerem e buscarem avaliação.
Por que tantas pessoas só descobrem o autismo depois de adultas?
Muitas pessoas cresceram em um contexto em que o tema era pouco discutido. Essas pessoas aprenderam a mascarar comportamentos, se adaptar socialmente e lidar com dificuldades sem entender a origem delas. O diagnóstico tardio surge quando há acesso à informação e, muitas vezes, após crises emocionais ou esgotamento.
Quais sinais costumam aparecer ao longo da vida nesses casos?
Dificuldades nas interações sociais, sensação de não pertencimento, hipersensibilidade sensorial, rigidez de pensamento, desafios na organização da rotina e episódios de ansiedade são alguns sinais recorrentes. Muitas vezes, esses aspectos foram interpretados como traços de personalidade, e não como parte do espectro.
O diagnóstico na vida adulta pode trazer algum tipo de alívio?
Sim, e muito. Para muitas pessoas, o diagnóstico funciona como uma chave de compreensão da própria história. Ele ajuda a ressignificar experiências passadas, reduzir a autocobrança e desenvolver um olhar mais compassivo sobre si.
Como o autismo pode impactar as relações pessoais e profissionais?
De muitas formas. Desafios na comunicação, na leitura de contextos sociais e na adaptação a ambientes mais imprevisíveis, como o trabalho, são alguns exemplos. Nas relações pessoais, isso pode gerar ruídos, mas, com compreensão e ajustes, é possível construir vínculos saudáveis e respeitosos.
Quais são os principais desafios após receber o diagnóstico?
O ponto principal é o processo de aceitação e adaptação. A pessoa precisa reconstruir a própria identidade a partir dessa nova compreensão. Também podem haver dificuldade em encontrar suporte adequado e ambientes que respeitem suas necessidades.
De que forma o acompanhamento terapêutico pode ajudar nesse processo?
A terapia é fundamental para apoiar o autoconhecimento, trabalhar questões emocionais e desenvolver estratégias práticas para o dia a dia. Além disso, ajuda na construção de autonomia e no fortalecimento da autoestima.
O que ainda falta na sociedade quando falamos de autismo na vida adulta?
Falta ampliar o debate e reduzir preconceitos. Ainda há muita desinformação, especialmente sobre adultos autistas que não se encaixam em estereótipos. É essencial promover inclusão, escuta e respeito às diferentes formas de existir.




