O Congresso Jornada do Autismo, realizado neste final de semana, no Rio de Janeiro, jogou luz sobre a realidade ainda pouco debatida nas principais conferências sobre o tema: a dificuldade de acesso ao diagnóstico e às terapias para crianças autistas inseridas em famílias de baixa renda. Ao VIDA E AÇÃO, Thiago Lopes, doutor em Psicologia pela Universidade do Quebec e sócio-fundador do Instituto Farol, reforçou uma questão urgente: o acesso ao tratamento do autismo não pode ser privilégio de quem consegue pagar.
É preciso defender ações integradas entre profissionais, famílias, rede pública e sistema de justiça. Ampliar o cuidado às crianças autistas de baixa renda é não apenas uma necessidade clínica, mas também uma questão de responsabilidade social e de garantia de direitos”.
O tema de sua palestra no evento foi alterado de última hora após receber o relato de uma major do Corpo de Bombeiros do Rio de Janeiro, envolvida em ações sociais com pessoas autistas. A partir dessa provocação, Lopes decidiu redirecionar sua apresentação para abordar a intervenção precoce voltada às famílias em situação de vulnerabilidade econômica, especialmente aquelas sem plano de saúde e sem condições de custear tratamentos particulares.
Especialista defende atendimento pro bono em apoio a diagnóstico
Segundo ele, a primeira grande barreira enfrentada por essas famílias é o diagnóstico. Existe uma escassez de especialistas, como neuropediatras, e a dificuldade de acesso ao atendimento pelo SUS, além da falta de formação específica de muitos profissionais da pediatria para identificar sinais de autismo com precisão.
Essa limitação compromete todo o restante da jornada de cuidado, já que sem diagnóstico a família não consegue acessar serviços, benefícios e encaminhamentos adequados”, disse.
Como proposta prática, o psicólogo defendeu que profissionais que atuam com autismo, como psicólogos, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicopedagogos e outros, assumam também um papel social no processo de identificação de sinais de risco.
A ideia é produzir relatórios mais robustos, capazes de ajudar médicos a fechar diagnósticos mesmo quando não possuem especialização aprofundada em autismo. Muitos tiveram acesso à formação por meio de estruturas públicas e, por isso, precisam devolver parte desse conhecimento à sociedade. Nesse contexto, proponho que uma porcentagem dos atendimentos seja destinada a famílias sem recursos financeiros, incluindo o apoio para o diagnóstico”.
Treinar pais e cuidadores é fundamental
Outro eixo central da conversa foi a defesa do treino parental como estratégia de maior impacto para famílias que só conseguem acesso a atendimentos de baixa intensidade. Lopes alertou que oferecer apenas uma hora semanal de terapia direta à criança, sem orientar a família, tende a produzir poucos resultados.
O mais eficaz é utilizar esse tempo para ensinar pais e cuidadores a estimular a criança na rotina diária, durante atividades como banho, alimentação, escovação dos dentes e momentos de brincadeira”, afirma.
Segundo Lopes, quando a família aprende a aplicar essas estratégias no cotidiano, a criança pode receber muito mais horas de estimulação ao longo da semana do que teria em um atendimento isolado.
Mesmo com as dificuldades da rotina, pequenas práticas diárias podem ampliar significativamente a intensidade da intervenção precoce. Ele acrescentou que essa lógica também deve ser adotada por instituições públicas e filantrópicas que oferecem atendimentos com baixa frequência.
Em vez de manter pais e mães apenas esperando na recepção, esses espaços poderiam transformar esse tempo em orientação prática, capacitando cuidadores para continuar a estimulação em casa. Essa é uma das alternativas com melhor respaldo em evidências quando o serviço disponível é de baixa intensidade”.
Como buscar apoio na Justiça
Além das orientações clínicas e educativas, o palestrante apresentou caminhos para que famílias e profissionais possam buscar apoio por meio da Defensoria Pública e do Ministério Público, com o objetivo de garantir reembolso ou custeio de tratamentos quando o poder público não oferece atendimento adequado e baseado em evidências. Thiago Lopes relatou acompanhar casos em que o trabalho profissional não se limitou ao atendimento terapêutico, mas incluiu articulação jurídica para assegurar o direito à saúde.
NOTA DA REDAÇÃO: A jornalista participou do Congresso Jornada do Autismo a convite da organização.






