O atraso na fala em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma das maiores fontes de angústia para pais e responsáveis. Mais do que a ausência de palavras, a dificuldade de comunicação impacta diretamente a rotina emocional de toda a família. E o excesso de telas e a falta de estímulos biológicos podem retardar ainda mais este processo. Durante o Congresso Jornada do Autismo, no Rio de Janeiro, a psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato conversou com o VIDA EAÇÃO sobre estes temas.
Mestre em Análise do Comportamento Aplicada (ABA, do inglês Applied Behavior Analysis), a especialista diz que muitas famílias, movidas pela urgência e pela dor, tentam estimular apenas o resultado final: a fala. Mas esclarece que o atraso na fala não deve ser analisado de forma isolada, como se o problema estivesse apenas na ausência da linguagem verbal.
Quando falamos de atraso na fala no autismo, não estamos falando apenas de ensinar a criança a repetir palavras. Antes da fala, existem pré-requisitos fundamentais, como vínculo, atenção ao outro, contato visual, imitação e compreensão do ambiente”, destacou a psicóloga durante o evento, realizado neste final de semana, no Riocentro.
O ciclo começa associado as questões sensoriais, menor atenção a estímulos sociais, pouco contato visual e baixa imitação. São fatores que interferem no desenvolvimento da comunicação receptiva e, mais tarde, da comunicação expressiva.
O caminho mais eficaz passa por um conjunto de estratégias que fortaleçam vínculo, atenção compartilhada e compreensão do ambiente. As abordagens baseadas em ABA e em estratégias naturalistas ajudam a criança a interpretar melhor os sinais externos, associar significados e construir, gradualmente, a comunicação”. destacou.
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O impacto emocional da barreira na comunicação
A preocupação dos pais de crianças autistas não verbais ou com atraso importante de linguagem também foi um dos pontos centrais do bate-papo. A especialista que a ansiedade familiar é compreensível, especialmente diante da impossibilidade de saber com clareza o que a criança sente, se está com dor, se sofreu alguma violência, se está angustiada ou se consegue comunicar suas necessidades básicas.
Esse cenário, segundo Mayra Gaiato (foto acima), produz um nível de estresse profundo para mães, pais e cuidadores. Para a psicóloga, a resposta não está em pressionar a criança para falar a qualquer custo, mas em instrumentalizar os pais para que consigam se conectar com os filhos de maneira mais efetiva.
Essa comunicação pode acontecer de formas diferentes em cada fase. Por troca de figuras, por sinais, por comportamentos verbais emergentes ou por outras formas possíveis naquele momento do desenvolvimento”.
Por isso, o objetivo é instrumentalizar os pais para que a conexão com os filhos seja efetiva, independentemente da verbalização imediata. De acordo com a especialista, a estratégia mais eficaz passa pela utilização de abordagens naturalistas, que ajudam a criança a interpretar sinais externos e associar significados dentro de seu contexto cotidiano.
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O desafio das telas e o engajamento cerebral
Um dos pontos de maior atenção atualmente é o uso de dispositivos eletrônicos, especialmente entre crianças e adolescentes autistas. O cérebro autista tende a se engajar com facilidade em padrões repetitivos, o que torna tablets e celulares muito mais atrativos do que a interação humana, brincadeiras sociais e estímulos biológicos, como o olhar, a troca e o contato direto.
De acordo com a psicóloga Mayra Gaiato, nenhum brinquedo comum ou interação cotidiana consegue competir com o nível de recompensa imediata oferecido pelo estímulo digital.
Na prática, o excesso de telas pode gerar um afastamento progressivo dos cuidadores, menor tolerância à frustração, dificuldades de sono e perda de interesse por atividades sociais“, alerta a especialista.
O desafio se torna maior na adolescência, quando o senso de prazer, pertencimento e interesse pelo mundo passa a estar concentrado nas telas. O caminho é fortalecer a conexão e reduzir aquilo que afasta a criança do contato humano. “Nesses casos, a orientação é reduzir o tempo de exposição e ampliar, de forma intencional, outras experiências “reais” de vida”.
Entre as alternativas mais potentes para o desenvolvimento infantil, ela aponta livros, esportes, brincadeiras, passeios e momentos de convivência com os pais. Embora reconheça que essas atividades demandem tempo, energia e insistência dos pais, elas têm um papel decisivo na construção do vínculo, da linguagem e da participação social”, concluiu.


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