Estudo explica por que algumas pessoas “ouvem vozes”

Pesquisadores da Universidade de Nova Gales do Sul (UNSW, da sigla em inglês), em Sydney, na Austrália, identificaram que as alucinações verbais em pessoas com esquizofrenia, popularmente conhecidas como “ouvir vozes”, podem ocorrer devido a uma falha do cérebro em reconhecer sua própria fala interna.

O estudo, publicado na revista científica Schizophrenia Bulletin, analisou cerca de 140 participantes e mostrou que, em pessoas saudáveis, o cérebro atenua a atividade auditiva quando a fala interna corresponde ao que se ouve. Já em pacientes com histórico recente de alucinações, essa supressão não ocorre, ou seja, o cérebro reage como se a voz interna viesse de outra pessoa.

A descoberta reforça uma teoria de 50 anos e abre caminho para novos marcadores biológicos que auxiliem no diagnóstico precoce da esquizofrenia. Embora o estudo se refira à esquizofrenia, Marília Dan foi diagnosticada com transtorno bipolar com sintomas psicóticos e chegou a ouvir vozes — experiência que hoje compartilha abertamente no livro “As Vozes na Minha Cabeça: minha história com o transtorno bipolar”.

A autora usa sua trajetória de superação para desmistificar os transtornos mentais, promover empatia e ampliar o diálogo sobre saúde mental. Ela relata como é viver a experiência de “ouvir vozes” e comenta o impacto de pesquisas como essa na redução do estigma, além de destacar a importância do acolhimento e do tratamento adequado na reconstrução da autonomia do paciente.

Escritora transforma bipolaridade em livros e palestras

Marília Dan conecta sua história pessoal a reflexões sobre cuidado emocional e resiliência, ampliando o debate em escolas, empresas e espaços culturais

A trajetória da escritora mineira Marília Dan mostra como uma experiência pessoal pode se transformar em ações de impacto social. Depois de anos convivendo com alucinações auditivas, ouvindo vozes dentro da própria cabeça, Marília recebeu o diagnóstico de transtorno afetivo bipolar com sintomas psicóticos. Transformou essa vivência em livro e também em palestras que ampliam o debate sobre saúde mental.

Em 2020, Marília lançou o livro “As Vozes na Minha Cabeça: minha história com o transtorno bipolar”, no qual relata desde os primeiros episódios em que acreditava ouvir vozes de um vizinho, até a longa trajetória que passou por diferentes diagnósticos e internação. Na obra, que já impactou centenas de leitores, e ganhará nova edição em outubro de 2025, narra os dilemas enfrentados ao longo dos anos sem tratamento adequado e estigmas.

Além da literatura, Marília compartilha sua experiência em palestras realizadas em escolas, empresas e espaços culturais. Na apresentação “Marília Dan e a Saúde Mental no Cinema”, utiliza representações artísticas para discutir resiliência e qualidade de vida. “O diagnóstico não define quem somos. Minha escrita e minhas palestras são formas de mostrar que é possível encontrar caminhos de bem-estar e sentido, mesmo diante de uma condição psiquiátrica”, afirma.

Marília começou a ouvir vozes ainda na adolescência, aos 14 anos, quando estava na escola, fase em que muitas meninas enfrentam dilemas emocionais sem o devido acolhimento. Sua história conecta-se a um quadro preocupante: a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) de 2019 mostrou que, entre adolescentes de 13 a 17 anos, 27% das meninas avaliaram negativamente sua saúde mental, contra 8,6% dos meninos.

Além disso, 48% delas relataram sentir-se frequentemente tristes e 29,6% afirmaram já ter sentido que a vida não valia a pena ser vivida.

  • Mais de 1 bilhão de pessoas vivem com transtornos de saúde mental em todo o mundo, segundo relatório divulgado pela Organização Mundial da Saúde (OMS). Os estudos World Mental Health Today e Mental Health Atlas 2024 mostram que condições como ansiedade e depressão estão entre as principais causas de incapacidade de longo prazo e representam custos globais de até US$ 1 trilhão por ano em perda de produtividade.
  • No Brasil, o impacto também é evidente: em 2024, mais de 51 mil afastamentos do trabalho foram associados ao transtorno bipolar, segundo dados do Ministério da Previdência Social. E esse cenário não se restringe à vida adulta. Segundo a Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS), metade das condições de saúde mental começa aos 14 anos de idade, mas a maioria dos casos não é detectada nem tratada.
  • Um estudo sobre o Programa Saúde na Escola (PSE), iniciativa do governo federal que integra ações de saúde e educação para promover a qualidade de vida dos estudantes, mostrou que instituições que aplicam suas ações registram redução de cerca de 1,6 ponto percentual no número de alunos em risco emocional.
  • De acordo com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a bipolaridade afeta cerca de 140 milhões de pessoas no mundo e em torno de 2,5% da população brasileira, o que reforça a relevância de levar o tema para a TV e, consequentemente, para o debate público.
  • Em 2024, mais de 51 mil afastamentos do trabalho no Brasil foram associados ao transtorno bipolar, segundo dados do Ministério da Previdência Social, que mostram o avanço dos casos de transtornos mentais.
  • De acordo com a OMS, aproximadamente 800 mil pessoas morrem por suicídio anualmente no mundo. No Brasil, dados da Secretaria de Vigilância em Saúde (SVS), do Ministério da Saúde, revelam um aumento de 43% nos casos de suicídio entre 2010 e 2019, passando de 9.454 para 13.523 registros.

Os números mostram a necessidade de iniciativas que ampliem o diálogo e promovam ambientes mais seguros, como o Projeto de Lei 329/2025, que tramita na Câmara dos Deputados e propõe a criação da Política Nacional de Promoção de Fatores de Proteção da Saúde Mental de Meninas.

Escritora expõe riscos do diagnóstico tardio e da interrupção do tratamento da bipolaridade

Jovem mineira transforma sua experiência em ativismo e reforça a importância do acolhimento e medicação

Marília Dan chama a atenção para um problema silencioso, mas recorrente: a demora em identificar corretamente transtornos mentais e a dificuldade de manter o cuidado de forma contínua. O atraso no diagnóstico retarda o início do acompanhamento adequado, enquanto a interrupção da terapia pode agravar crises e expor pacientes a situações de maior vulnerabilidade e risco.

A própria história de Marília ilustra a gravidade da questão. Antes de receber o diagnóstico definitivo de transtorno afetivo bipolar com sintomas psicóticos, passou por diferentes avaliações. Aos 14 anos, começou a ouvir vozes que acreditava serem de um vizinho e colega de escola — episódio que marcou o início de uma longa busca por explicações.

Enquanto enfrentava bullying e perdia o interesse pelos estudos, recebeu, em 2015, o diagnóstico de esquizofrenia, seguido da classificação de bipolaridade no ano seguinte. Em 2021, durante uma internação psiquiátrica, foi classificada com o transtorno esquizoafetivo, o que foi descartado posteriormente. Hoje, aos 29 anos, Marília canaliza sua energia em literatura e palestras sobre saúde mental.

Em uma das fases mais delicadas da sua vivência, quando interrompeu a medicação, Marília enfrentou uma crise grave: ouviu vozes que a mandavam pular da janela do apartamento. Temendo por sua segurança, pediu que amigos trancassem todas as portas e janelas. No dia seguinte, decidiu buscar ajuda e se internou voluntariamente no Hospital Espírita André Luiz (HEAL), em Belo Horizonte (MG), referência nacional em saúde mental e dependência química.

O episódio, hoje relatado com clareza pela escritora, reforça a importância da adesão ao tratamento e do apoio de uma rede de acolhimento para a prevenção de situações de risco. Esse foi o ponto de virada de Marília. Durante os 57 dias de internação no HEAL, contou com o apoio da família e o suporte especializado, decisivos para sua recuperação. Desde então, com disciplina no cuidado e uso correto da medicação, ela não voltou a apresentar crises, consolidando um novo capítulo em sua vida pessoal e profissional.

É importante lembrar que quem enfrenta pensamentos suicidas ou crises emocionais não quer, de fato, morrer. O que existe é um sofrimento profundo, que pode se manifestar em quadros depressivos extremos ou até em alucinações, como aconteceu comigo. Mas tudo isso pode ser controlado e prevenido com diagnóstico correto, acompanhamento adequado e apoio. Buscar ajuda é fundamental e ninguém precisa enfrentar essa dor sozinho”, completa Marília.

Ativismo pela saúde mental

Além de compartilhar sua trajetória por meio da literatura, Marília Dan se dedica ao ativismo com a palestra “Marília Dan e a Saúde Mental no Cinema”, levando a discussão para escolas, empresas e espaços culturais. Em outubro, ela lança a segunda edição do livro “As Vozes na Minha Cabeça: minha história com o transtorno bipolar”, no qual relata em detalhes os episódios de alucinações auditivas e o impacto do transtorno em sua vida.

Com sua atuação, reforça a urgência de iniciativas que enfrentem o preconceito, ampliem o acesso à informação e incentivem o diálogo sobre saúde mental. Para Marília, o debate não pode se restringir a datas como o Setembro Amarelo ou o Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em outubro.

É uma pauta que precisa atravessar o cotidiano e inspirar mudanças permanentes na forma como lidamos com o tema. Mais do que falar sobre isso, quero mostrar que é possível ter uma vida plena e feliz após o diagnóstico, desde que se siga o tratamento adequado”, ressalta.

Novela reacende debate sobre bipolaridade e ajuda a reduzir estigmas

Tema abordado no horário nobre em Dona de Mim reforça a importância do diagnóstico e do tratamento

A novela Dona de Mim, exibida pela TV Globo, traz para o horário nobre um tema ainda marcado por preconceito: a personagem Filipa, interpretada por Cláudia Abreu, recebeu o diagnóstico de transtorno bipolar após uma crise. A abordagem em rede nacional tem o potencial de ampliar a conscientização, gerar identificação com o público e reduzir estigmas em torno da condição.

A novela abriu espaço para retratar na ficção uma mulher em crise diante do diagnóstico de transtorno bipolar. Fora das telas, a escritora e palestrante Marília Dan é, de certa forma, uma personagem da vida real dessa mesma história. Diagnosticada com transtorno afetivo bipolar com sintomas psicóticos aos 20 anos, ela transformou sua trajetória em livro e palestras.

O diagnóstico não define quem somos. O que faz diferença é o acolhimento e o tratamento contínuo. Quando conseguimos enxergar a condição de forma clara, abrimos espaço para que as pessoas se sintam menos sozinhas e mais encorajadas a buscar ajuda”, afirma.

Para Marília, trazer o tema para a televisão pode ter impacto direto na vida de quem convive com a condição. “A ficção pode ser um ponto de partida para conversas difíceis, mas necessárias. Ela ajuda a reduzir preconceitos e mostrar que existe tratamento e possibilidade de qualidade de vida após o diagnóstico”, destaca.

A escritora também recorre às telas como recurso narrativo para aproximar o público do tema na palestra Marília Dan e a Saúde Mental no Cinema. “Sempre vi no audiovisual uma forma de gerar identificação. Quando um adolescente se enxerga na tela, ele entende que não está sozinho. Todos os filmes têm uma lição a passar, e por isso escolhi o cinema como veículo para falar de saúde mental. É uma experiência que envolve, emociona e abre espaço para reflexões profundas”, completa.

 

 escritora Marília Dan alerta para a necessidade de abordar o tema nas escolas

Com o projeto “Marília Dan e a Saúde Mental no Cinema”, a autora mineira conecta sua trajetória pessoal ao debate sobre bem-estar psicológico e educação

É nesse contexto que a escritora e palestrante Marília Dan leva para instituições de ensino o projeto “Marília Dan e a Saúde Mental no Cinema”, em que compartilha sua trajetória pessoal para abrir espaço de diálogo sobre saúde mental com jovens, pais e educadores. Exibindo trechos de filmes, a autora cria conexões genuínas, incentiva a busca por ajuda e estimula uma visão mais consciente e empática.

Sempre gostei muito de estudar, mas na época em que comecei a lidar com os sintomas, aos 14 anos, meu desempenho caiu de forma brusca. Eu simplesmente perdi o interesse e a motivação. Isso mostra como a saúde mental pode afetar também o aprendizado e não pode ser ignorada”, relata Marília.

Casos como esse estão longe de ser isolados. A OMS aponta que condições como ansiedade e depressão estão entre as principais causas de incapacidade de longo prazo e impactam diretamente o desempenho escolar e profissional.

“Na adolescência, sofri bastante com o julgamento dos colegas porque ouvia vozes. Muitas vezes, crianças que apresentam sintomas como esse são vistas como estranhas e acabam sofrendo bullying. É fundamental que a escola e os familiares saibam identificar e acolher essas situações”, acrescenta.

O projeto Marília Dan e a Saúde Mental no Cinema busca percorrer diferentes instituições de ensino e mostrar como a abordagem cultural pode ser um recurso poderoso para quebrar tabus e incentivar diálogos sobre saúde mental desde cedo.

“Encontrei meu propósito nas palestras. Levo esse tema para todos os lugares, inclusive escolas, porque acredito que compartilhar minha história ajuda a abrir caminhos para que outras pessoas busquem apoio”, afirma a palestrante e autora do livro “As Vozes na Minha Cabeça: minha história com o transtorno bipolar”, publicado em 2020 e que ganha nova versão neste mês de outubro.

A data para a reedição da obra tem um motivo importante: o Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado em 10 de outubro. O objetivo é reforçar não apenas a importância de ampliar o acesso a cuidados de saúde, mas também de criar ambientes de acolhimento e conscientização desde cedo — especialmente nas escolas, onde podem ser plantadas as bases para um futuro mais saudável e empático.

Enquanto o debate público avança, Marília também vive uma nova fase. Ela não ouve mais vozes e não tem crises desde que saiu da clínica psiquiátrica. Atualmente, celebra conquistas na vida pessoal, que vão além da saúde. Sempre com bom humor, inspira quem acompanha sua história a acreditar que é possível construir uma vida plena e feliz mesmo diante de um diagnóstico psiquiátrico.

A maior mensagem que quero deixar é que a felicidade é possível. Sou noiva, mãe de um filho adotivo e levo comigo a certeza de que a vida pode ser bonita mesmo com os desafios de um transtorno. Com o livro, registrei minha história para que as pessoas se identifiquem; já com a palestra, quero levá-la para todo o Brasil e alcançar famílias que precisam de apoio para lidar com essas questões de forma mais leve”, finaliza.

Sobre Marília Dan

Marília Dan é escritora, palestrante e ativista em saúde mental. Natural de Belo Horizonte (MG), passou um longo período convivendo com sintomas não identificados e sem tratamento adequado, até receber, aos 20 anos, o diagnóstico de transtorno afetivo bipolar com sintomas psicóticos. Transformou essa vivência em literatura e palestras, que mostram ser possível alcançar qualidade de vida e bem-estar emocional.

Autora do livro “As Vozes na Minha Cabeça: minha história com o transtorno bipolar (2020)”, que ganhará nova edição em outubro de 2025, ela também iniciou a escrita de sua terceira obra, inspirada nos 57 dias de internação voluntária em um hospital psiquiátrico. Em sua palestra “Marília Dan e a Saúde Mental no Cinema”, conecta a própria trajetória a referências cinematográficas para promover reflexões sobre cuidado emocional, prevenção e enfrentamento de desafios.

 

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *