O relatório “Álcool e Saúde dos Brasileiros 2025”, do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), mostra que o padrão de adoecimento mudou. As internações em que o álcool aparece explicitamente como causa principal diminuíram, mas cresceram de forma acentuada os casos em que a bebida é um fator determinante, embora não esteja registrada como diagnóstico principal. Entre 2010 e 2024, as internações totalmente atribuíveis ao álcool (TAA) recuaram 48,4%, enquanto as parcialmente atribuíveis (PAA) aumentaram 50,3%, o que resultou em uma elevação global de 24,2% nas hospitalizações relacionadas ao consumo de bebidas alcoólicas.

No campo das mortes, a tendência também é preocupante. O país atingiu em 2020 o maior número de óbitos atribuíveis ao álcool de toda a série, mantendo níveis elevados até 2022. Em 2023, as taxas voltaram a se aproximar do cenário pré-pandemia, mas ainda permanecem 10,2% acima do observado em 2010, com uma taxa nacional de 34,5 óbitos por 100 mil habitantes ligados ao uso de álcool.

Um país que interna e morre mais por álcool: Brasil envelhece bebendo

O mapa brasileiro evidencia que o impacto da bebida é muito desigual entre os estados. Em 2024, o Paraná registrou a maior taxa de internações atribuíveis ao álcool, com 282,1 casos por 100 mil habitantes, seguido por Espírito Santo (267,3) e Mato Grosso do Sul (256,3). No recorte da mortalidade em 2023, Espírito Santo aparece no topo, com 47,0 mortes atribuíveis ao álcool por 100 mil habitantes, seguido do Tocantins (41,9), Piauí (41,7), Paraná (40,7) e Bahia (39,3). Ainda considerando as internações em 2024, aparecem na sequência Tocantins (232,2), Piauí (222,3), Mato Grosso (221,1) e Santa Catarina (221,0), além de Rio Grande do Sul (213,3), Minas Gerais (206,9), Goiás (200,1), Rio Grande do Norte (193,4) e Bahia (179,4).

Na outra ponta, Amazonas apresenta a menor taxa de internações atribuíveis ao álcool, com 69,0 por 100 mil habitantes, seguido por Sergipe (120,4), Amapá (141,0) e Rio de Janeiro (143,9). Mesmo nessas unidades da federação, especialistas chamam atenção para a subnotificação e para o fato de que muitas complicações renais, hepáticas e cardiovasculares relacionadas ao álcool acabam registradas sob diagnósticos como hipertensão, insuficiência cardíaca, traumas, infecções e acidentes.

Brasil envelhece bebendo e os rins pagam a conta

Um dos sinais mais fortes do Panorama 2025 é o envelhecimento do perfil de quem adoece e falece por álcool. Entre pessoas com 55 anos ou mais, as internações atribuíveis à bebida cresceram aproximadamente 105% entre 2010 e 2024, sendo 127,5% entre homens e 99% entre mulheres. Na mortalidade, nesta faixa etária, foi a única que registrou aumento consistente de mortes atribuíveis ao álcool no período, com alta de 51% entre 2010 e 2023.

Neste grupo mais velho, aparecem como principais causas de mortes parcialmente relacionadas à bebida doenças como cirrose hepática, acidentes de trânsito, doença cardíaca isquêmica, doença cardíaca hipertensiva e câncer colorretal. Todas essas condições, seja pela sobrecarga pressórica, pela inflamação crônica ou por episódios de choque circulatório, repercutem sobre os rins e levam milhares de pessoas para quadros de insuficiência renal aguda ou crônica.

Do ponto de vista da Nefrologia, o recado é direto: o álcool deixou de ser visto apenas como agressor do fígado e se confirma como um tóxico sistêmico, que compromete progressivamente o rim em um país que, ao mesmo tempo em que reduziu leitos psiquiátricos de forma expressiva entre 2010 e 2024, assiste a um aumento na demanda por terapia renal substitutiva.

Padrão de consumo

A pesquisa domiciliar realizada pela Ipsos Brasil a pedido do CISA sugere uma mudança significativa de comportamento, sobretudo entre os mais jovens. Entre 2023 e 2025, a proporção de brasileiros que se declaram abstêmios passou de 55% para 64%; entre os jovens e no grupo com maior escolaridade, a abstenção também apresentou crescimento relevante.

 O consumo abusivo, beber pesado episódico, caiu de 17% para 15%, mas segue concentrado em homens, que respondem por cerca de dois terços dos consumidores de risco.

Apesar disso, o Brasil permanece acima da média mundial em episódios de beber pesado episódico. Em 2019, 20,9% dos brasileiros com 15 anos ou mais praticaram binge drinking, contra 17% da média global. Considerando apenas quem bebe, 35,3% dos bebedores brasileiros tiveram pelo menos um episódio de consumo pesado, padrão diretamente associado a lesão renal aguda, rabdomiólise, quedas e acidentes de trânsito.

Na comparação internacional, o Brasil também chama atenção pela quantidade de álcool consumida. Enquanto a média mundial foi de 5,5 litros de álcool puro por adulto ao ano, o país registrou 7,7 litros, número semelhante ao da região das Américas (7,5 litros) e bem acima do índice global. Em 2019, estimativas indicavam que o álcool esteve relacionado a cerca de 91.927 mortes, o que representava algo entre 6% e 7% de todos os óbitos, com impacto desproporcional entre os homens em relação às mulheres.

“A hipertensão ao longo dos anos literalmente cozinha os rins”

Na prática diária, o nefrologista Winglerson Cordeiro, responsável técnico pela unidade da Fundação Pró‑Rim em Gurupi (TO), observa que o rim é raramente lembrado quando o assunto é bebida alcoólica. Para ele, “o rim é a vítima silenciosa dos excessos alcoólicos”.

Quando se fala em álcool, o senso comum quase sempre lembra do fígado e da cirrose. Mas na prática clínica, os rins sofrem tanto quanto e muitas vezes de forma mais silenciosa”, afirma o especialista.

Ele explica que os rins precisam de um fluxo sanguíneo contínuo e de um equilíbrio fino de hormônios para filtrar o sangue de forma adequada, e o álcool interfere diretamente nesses mecanismos. Ao ser ingerido, a bebida inibe o hormônio antidiurético (ADH), aumentando a eliminação de água pela urina, sendo por isso que a pessoa urina mais enquanto bebe e, no dia seguinte, enfrenta uma ressaca marcada por sede intensa e mal‑estar.

Em regiões de clima quente, onde a perda de líquido pelo suor já é significativa, a soma de altas temperaturas, binge drinking e pouca ingestão de água cria um cenário especialmente perigoso para o rim. “A desidratação reduz o volume circulante, diminui a perfusão renal e pode precipitar uma lesão renal aguda, especialmente em quem já tem algum fator de risco, ainda que não saiba disso”, alerta Cordeiro.

Cordeiro ressalta que o binge drinking, que são grandes quantidades de álcool em pouco tempo, pode desencadear lesão renal aguda inclusive em pessoas jovens que nunca receberam diagnóstico de doença. Isso acontece pela combinação de desidratação intensa, queda da pressão arterial, possível toxicidade direta e episódios de rabdomiólise, situação em que ocorre destruição da musculatura e liberação de mioglobina na circulação, substância que agride os túbulos renais. “Não é raro vermos pacientes jovens, sem doença prévia, evoluírem com necessidade de hemodiálise após o consumo extremo de bebida alcoólica”, relata.

Agressão crônica: álcool, pressão alta e nefroesclerose

Se a lesão renal aguda geralmente está ligada a um gatilho evidente como um porre, um acidente, um trauma, o risco mais duradouro para o sistema renal brasileiro é a agressão crônica e silenciosa. “Outro ponto crítico é a relação do álcool com a hipertensão arterial. O consumo crônico eleva a pressão e desregula o sistema renina‑angiotensina‑aldosterona. A hipertensão ao longo dos anos literalmente cozinha os rins”, resume Cordeiro.

A pressão elevada dentro dos pequenos vasos glomerulares gera cicatrização progressiva, perda de néfrons e queda lenta e irreversível da taxa de filtração glomerular. Trata-se de um processo silencioso, muitas vezes descoberto apenas quando a função já está bastante comprometida. O quadro, conhecido como nefroesclerose, costuma ser diagnosticado tardiamente, quando medidas de proteção mais agressivas ou a entrada em programa de diálise já se tornam inevitáveis.

“Tempestade perfeita”: álcool, anti-inflamatório e desidratação

Na rotina de pronto-atendimentos e consultórios, uma cena é frequente: consumo pesado de álcool em uma noite, ressaca forte no dia seguinte e automedicação com anti-inflamatórios não esteroides para aliviar dor de cabeça, mal-estar e dores musculares.

Há uma combinação extremamente comum e perigosa: a associação de álcool na noite anterior e anti‑inflamatório no dia seguinte para tratar a ressaca”, explica o nefrologista. Ele lembra que esse tipo de medicamento reduz a produção de prostaglandinas, substâncias fundamentais para manter dilatada a arteríola aferente, o vaso que leva sangue ao glomérulo, especialmente em situações de desidratação.

Na prática, essa combinação reduz de forma brusca a quantidade de sangue que chega ao glomérulo e pode derrubar a taxa de filtração em poucas horas. “Em termos práticos, é a tempestade perfeita para uma lesão renal aguda, ou seja, diminui‑se a quantidade de sangue que está chegando dentro do glomérulo para ser filtrado”, resume Cordeiro.

Trauma, rabdomiólise e a morte dos túbulos renais

O impacto do álcool sobre os rins também se manifesta de forma indireta e brutal nos cenários de trauma, acidentes de trânsito e violência. No Brasil, acidentes e outras lesões não intencionais figuram entre as principais causas de internações parcialmente atribuíveis ao álcool na população com 55 anos ou mais. “No contexto de acidente de trânsito, infelizmente ainda frequente quando há associação com álcool, a rabdomiólise merece destaque”, afirma o especialista.

Em acidentes graves, como esmagamentos ou quando a pessoa fica muito tempo caída e sem se mexer, o músculo se destrói e libera substâncias que entopem e envenenam os “tubinhos” do rim, podendo levar à falência renal em pouco tempo. Em locais onde o acesso à hemodiálise demora, realidade ainda comum fora dos grandes centros, cada hora faz diferença no desfecho do paciente. “Nesse sentido, a letalidade relacionada ao álcool é multifatorial, envolve trauma, violência, doenças hepáticas e complicações renais. A ausência de reconhecimento precoce da lesão renal e a demora no suporte adequado agravam o cenário”, alerta o nefrologista.

Lesão renal aguda não tratada evolui com distúrbios eletrolíticos graves, acidose metabólica e risco de arritmias fatais. Na estatística, muitas vezes aparece como óbito por causa cardíaca, infecciosa ou hepática; no bastidor clínico, há um rim que foi silenciosamente levado ao colapso pelo álcool.

Quando a ressaca não é mais “só ressaca”

Para auxiliar no reconhecimento precoce de danos, o nefrologista destaca sinais que jamais devem ser ignorados após consumo excessivo de álcool:

  • Redução importante do volume urinário ou interrupção da urina.

  • Urina escura, cor de “chá” ou “refrigerante de cola”.

  • Inchaço em pernas, braços ou rosto.

  • Dor lombar e fraqueza intensa.

  • Náuseas persistentes e confusão mental.

“Muitas vezes o rim sofre em silêncio. E o único modo de detectar é por meio de exames laboratoriais”, explica Cordeiro. Ele lembra que o ser humano nasce com uma grande “sobra” de capacidade renal: temos algo próximo de cinco vezes mais glomérulos do que o necessário para a sobrevivência, o que permite uma perda importante de função até que o órgão deixe de suprir as necessidades do organismo.

Ao público jovem, o recado é direto: o rim tem grande capacidade de adaptação, mas não é indestrutível. Cada agressão repetida diminui a reserva funcional; quando os sintomas aparecem, frequentemente a perda já é significativa e irreversível. “O rim não perdoa excessos crônicos, ele acumula cicatrizes. Falar sobre álcool e saúde renal é ampliar o foco da prevenção. Não se trata apenas de evitar cirrose, trata-se de preservar a função de um órgão vital, silencioso e essencial para a vida”, resume.

Hidratação inteligente: um manual básico para proteger os rins

Embora o Panorama CISA não traga um capítulo específico de recomendações de hidratação, o médico nefrologista Dr. Winglerson Cordeiro aponta estratégias simples que ajudam a reduzir o risco de lesão renal em um país quente e com alta prevalência de beber pesado episódico.

Entre as principais orientações estão:

  • Ajustar a ingestão de água ao peso e ao clima: em regiões quentes e para pessoas ativas, a recomendação pode variar em torno de 30 ml a 40 ml por quilo de peso corporal; alguém com 70 kg, por exemplo, poderia ingerir aproximadamente de 2,1 a 2,8 litros de água por dia, salvo orientações específicas do seu médico.
  • Adotar a regra do “um para um” com o álcool: para cada copo de cerveja ou dose de destilado, ingerir um copo equivalente de água mineral, ajudando a compensar o efeito diurético do álcool e a manter o volume circulante.
  • Usar a escala de cores da urina como guia: urina transparente ou amarelo‑palha indica hidratação adequada; amarelo escuro acende sinal de alerta; urina cor de chá ou “coca-cola” é emergência médica, pois pode indicar presença de mioglobina ou falência renal aguda.
  • Repor eletrólitos em dias de calor intenso ou atividade física: água de coco e bebidas isotônicas ajudam a repor sódio e potássio, fundamentais para o funcionamento adequado dos rins.

Pró-Rim: desafio é chegar antes da emergência

Diante do cenário revelado pelo CISA e da realidade observada nos serviços de Nefrologia, a Fundação Pró-Rim tem reforçado sua atuação em educação e prevenção. A instituição disponibiliza conteúdos educativos e campanhas para ajudar a população a reconhecer precocemente doenças silenciosas do sistema urinário, entender a relação entre álcool e risco renal e adotar estratégias de proteção no dia a dia.

Para facilitar o entendimento sobre os cuidados com a saúde renal, a Pró-Rim oferece e-books gratuitos, como “O que a urina pode revelar sobre a nossa saúde?”, que explica de forma acessível como alterações na cor, volume, odor e frequência urinária podem ser sinais de alerta, e “Tudo o que você precisa saber sobre doenças renais”, que aborda fatores de risco, sinais precoces, exames de rotina e opções de tratamento.

O foco, reforça a equipe da fundação, é chegar antes da emergência. Em um país que interna e mata cada vez mais idosos por causas associadas ao álcool e vê crescer a demanda por diálise, preservar a função renal deixou de ser apenas um conselho de consultório e se tornou um desafio central de saúde pública.

Fonte: Pró-Rim

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