A “novela da saúde” de Jair Bolsonaro ganhou contornos de pressão institucional nesta quarta-feira (7) em meio à polêmica queda ocorrida na madrugada do dia anterior em sua cela na Superintendência da Polícia Federal em Brasília. Após inicialmente negar a remoção do ex-presidente, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes recuou e autorizou sua ida ao luxuoso Hospital DF Star para a realização de exames de imagem.

O ministro autorizou os novos procedimentos, mas com uma condição clara: retorno imediato à carceragem. Na decisão, Moraes determinou que a Polícia Federal (PF) faça o transporte de Bolsonaro “de maneira discreta”, e que realize o desembarque pela garagem do hospital.

Além disso, a PF ficará responsável pela vigilância do ex-presidente durante os exames. Em seguida, ele deverá voltar à Superintendência da PF para cumprir a sua pena em regime fechado. O ministro quer evitar que o hospital se torne um refúgio prolongado para o ex-presidente, como ocorreu no último réveillon.

O “fator CFM” e a memória da pandemia

A decisão de Moraes não ocorreu no vácuo: a mudança de postura ocorre em meio a uma ofensiva coordenada que envolve não apenas a família e advogados, mas também a entrada estratégica do Conselho Federal de Medicina (CFM) no imbróglio.

O papel do CFM neste novo episódio é o que mais desperta desconfiança. O conselho anunciou ter determinado ao Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF) a abertura de uma sindicância para apurar se a PF está negando assistência médica adequada ao ex-presidente (veja a nota completa no site do Conselho). 

O recebimento formal de denúncias protocoladas no CFM expressam inquietação quanto à garantia de assistência médica adequada ao paciente. Além disso, declarações públicas de relatos sobre intercorrências clínicas causam extrema preocupação à sociedade brasileira”, diz o Conselho, em nota oficial.

A rapidez da medida contrasta com o histórico recente do órgão e  levanta suspeitas sobre o uso político da medicina:

  • Conivência no passado: Durante a pandemia de Covid-19, o CFM foi duramente criticado por se omitir diante do negacionismo, defender a autonomia médica para prescrever o ineficaz “kit covid” (cloroquina e ivermectina) e ignorar evidências científicas para se alinhar ao governo Bolsonaro e silenciar diante do discurso antivacina.

  • Lobby atual: Agora, o mesmo conselho que “passou pano” para o antivacinismo mobiliza-se com celeridade para questionar o Estado brasileiro sobre a assistência prestada a um preso que, comprovadamente, possui monitoramento médico 24h e médicos particulares à disposição. A entrada do conselho no caso é vista por especialistas como um braço político da defesa para validar a tese de “extrema debilidade” e empurrar Bolsonaro para a prisão domiciliar humanitária.

A construção do “mártir debilitado” e a estratégia da “cela inóspita”

Na nota oficial, o CFM alega que “os relatos de crises agudas de características diversas, episódio de trauma decorrente de queda, o histórico clínico de alta complexidade, sucessivas intervenções cirúrgicas abdominais, soluços intratáveis, e outras comorbidades em paciente idoso, demandam um protocolo de monitoramento contínuo e imediato, em que deve ser assegurada assistência médica com múltiplas especialidades pelo estado brasileiro, inclusive em situações de urgência e emergência”.

A estratégia de defesa de Bolsonaro – agora corroborada pelo CFM – é clara: utilizar cada intercorrência clínica — por menor que seja — para construir a tese de que a carceragem da PF é um ambiente insalubre e perigoso para sua vida. O objetivo final é a prisão domiciliar humanitária, baseada no artigo 318 do Código de Processo Penal.

A pressão nas redes sociais, inflada por parlamentares aliados e agora também por uma parcela de médicos alinhados com o bolsonarismo, utiliza o diagnóstico de “traumatismo craniano leve” para pintar Bolsonaro como um idoso frágil e desamparado. No entanto, o laudo da própria Polícia Federal apontou que o paciente estava “consciente e orientado”, sem déficits neurológicos, apresentando apenas um leve desequilíbrio e lesões superficiais.

O recuo de Moraes e o “check-up” sob escolta

Por volta das 11h, de forma discreta, como recomendado por Moraes, Jair Bolsonaro deixou a carceragem da Polícia Federal em Brasília, onde cumpre pena de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado, para ser submetido a uma tomografia computadorizada, ressonância magnética do crânio e eletroencefalograma.

A autorização – ocorrida na véspera dos atos que deverão marcar os três anos do golpe de janeiro de 2023 – foi concedida após a defesa de Bolsonaro apresentar um laudo assinado pelo médico particular Brasil Ramos Caiado (foto), alegando risco de “agravamento neurológico” e sugerindo até uma possível crise convulsiva.

Segundo os advogados de defesa, o ex-presidente apresentou quadro clínico compatível com traumatismo craniano, síncope noturna associada à queda, crise convulsiva, oscilação de memória e um corte na têmpora. Esse quadro, argumentou a defesa, exigiria a realização de uma bateria de exames.

Sob forte pressão, Moraes reviu sua decisão anterior e autorizou que Jair Bolsonaro fosse levado ao hospital particular para realização dos exames solicitados pelo seu médico particular. Apesar da autorização, o ministro do STF manteve o tom de vigilância:

  • Retorno imediato: O ex-presidente deve retornar à PF logo após o término dos exames.

  • Vigilância total: A escolta policial deve acompanhar o custodiado durante todo o tempo dentro do hospital.

  • Sem privilégios penais: O ministro reforçou que a medida é puramente clínica e não altera o regime de cumprimento de pena.

‘Nada preocupante’, diz médico de Bolsonaro

Seguindo o determinado por Moraes, o ex-presidente deixou o hospital por volta das 16h30, escoltado por policiais federais. Em postagem nas redes sociais, a ex-primeira-dama afirmou que Bolsonaro realizou todos os exames e foi liberado para retornar à PF. “Aguardamos os resultados dos exames. Destacamos que fomos impedidos de acompanhá-lo no retorno ao quarto”, frisou Michelle.

Pouco depois, em entrevista à imprensa em Brasília, o médico Brasil Caiado, afirmou que o traumatismo craniano sofrido pelo ex-presidente não é preocupante. Segundo Caiado, o resultado foi considerado positivo para Bolsonaro e informou que a equipe médica seguirá avaliando os próximos passos do acompanhamento clínico.

Em relação aos exames que foram feitos hoje, nós observamos uma lesão em partes moles na região temporal direita e frontal direita, caracterizando um traumatismo leve. Não há lesão intracraniana, o que é bom para ele. Trata-se de uma lesão extra, que não é preocupante”, afirmou o médico em entrevista coletiva.

De acordo com Caiado, o quadro clínico de Bolsonaro não indica agravamento no momento e, por isso, foi orientado o retorno à Superintendência da Polícia Federal. Inicialmente, a equipe médica chegou a suspeitar de crises convulsivas, hipótese que não foi confirmada pelos exames. O relatório médico apontou apenas lesão em partes moles nas regiões temporal e frontal direita do crânio, sem comprometimento interno.

No entanto, o médico chamou atenção ainda para a frequência desses episódios, que podem estar relacionados à combinação de medicamentos utilizados no tratamento de crises de soluços, consideradas de difícil controle. Segundo ele, a equipe enfrenta um dilema clínico entre suspender os remédios ou mantê-los, assumindo possíveis riscos.

A partir dessa primeira avaliação, há uma suspeita inicial de que possa se tratar de interação medicamentosa. O presidente faz uso de vários medicamentos para o tratamento de soluços”, disse Caiado. “Estamos diante de um problema: se esses quadros forem recorrentes e o colocarem em uma zona de maior risco, temos que suspender a medicação ou mantê-la e correr o risco.”

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Entenda a queda de Bolsonaro na cadeia

A queda de Bolsonaro foi reportada, inicialmente, por sua esposa, Michelle, ainda na terça-feira (6). Nas redes sociais, ela afirmou que o marido não estava bem. “Durante a madrugada, enquanto dormia, teve uma crise, caiu e bateu a cabeça no móvel”, disse.

No mesmo dia, a defesa do ex-presidente tentou a remoção dele para o hospital, mas Moraes negou. O ministro baseou sua decisão em uma avaliação da equipe médica da Polícia Federal, que constatou ferimentos leves e não viu necessidade de exames no hospital.

Os advogados, então, apresentaram os pedidos específicos de exames indicados por um dos médicos particulares de Bolsonaro. Esses pedidos foram citados por Moraes na decisão proferida nesta quarta-feira (7).

A defesa agora tenta ligar a queda à suposta falta de sono causada pelo barulho do ar-condicionado. É uma tentativa de provar que a carceragem da PF é um ambiente de risco. Contudo, laudos da própria PF indicam que o ambiente é monitorado e que Bolsonaro estava “consciente e orientado” após o incidente.

Linha do tempo da pressão para tirar Bolsonaro da cadeia (Janeiro de 2026)

  • 01/01: Alta hospitalar pós-cirurgia de hérnia e soluços.

  • 02/01: Defesa reclama do barulho do ar-condicionado na cela.

  • 06/01: Michelle Bolsonaro relata queda; laudo da PF aponta quadro leve; Moraes nega hospitalização.

  • 07/01 (manhã): CFM entra no caso com sindicância; Moraes autoriza exames sob forte pressão política.

  • 07/01 (tarde): Bolsonaro realiza exames no DF Star e aguarda resultados para nova ofensiva jurídica.

No hospital, o ex-presidente passou por três exames:

  • Tomografia computadorizada – exame que produz imagens internas e detalhadas da cabeça por meio de raios X;
  • Ressonância magnética do crânio – técnica que utiliza campos magnéticos para avaliar estruturas do cérebro;
  • Eletroencefalograma – exame que registra a atividade elétrica cerebral e pode indicar alterações neurológicas.

O papel do CFM e a ética médica

A entrada do CFM na polêmica odisseia médica de Bolsonaro, abrindo sindicância contra a PF, levanta questionamentos éticos profundos. Se a autarquia federal se mobiliza por um trauma leve em Bolsonaro, que já recebe assistência de elite na rede privada de saúde, deveria ter a mesma celeridade para denunciar a falta de insumos básicos que causa quedas e mortes evitáveis em presídios comuns e hospitais públicos superlotados.

A pergunta que fica para os órgãos de fiscalização é: por que o mesmo conselho silencia diante da morte cotidiana de presos comuns por falta de dipirona? O direito à saúde do idoso é sagrado, mas não deve ser usado como salvo-conduto político. 

Continuaremos monitorando os resultados dos exames para atualizar esta matéria assim que os laudos do DF Star forem anexados ao processo. Acompanhe os próximos desdobramentos aqui no portal. A pressão do lobby médico conseguirá dobrar o STF ou prevalecerá o rigor da pena de 27 anos?

Com informações de agências (atualizado às 20h)

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