A agonia da urticária: o que fazer quando a coceira e o inchaço não vão embora

Editora do Portal ViDA & Ação, que sofre de Urticária Crônica Espontânea (UCE), ouve especialistas da Asbai sobre doença ainda pouco conhecida

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Em agosto de 2015, um forte episódio de estresse no trabalho desencadeou uma crise que durou longos seis meses. Somente durante as férias, mais relaxada, é que o problema deu uma trégua. Foram muitos medicamentos, dias e noites agonizantes. Placas vermelhas, quentes e em alto relevo pelo corpo, que coçavam compulsivamente, era o principal incômodo. Mas quando vinha o angioedema, especialmente na boca, olhos e mãos, era desesperador. E só desaparecia às custas de doses cavalares de corticoides.

Assim como veio, ela foi embora, misteriosamente. E a causa, até hoje, permanece indefinida. Os testes não identificaram o que causava aquela alergia tão agressiva. E meu caso entrou para o grupo dos pacientes de urticária crônica que têm causa indefinida – ou o que poderia se chamar “urticária nervosa”. Mas será mesmo que este é o nome correto?! E o que causa essa doença tão incômoda e tão pouco conhecida das pessoas em geral?

Só quem enfrenta o problema sabe o quanto incomoda. E não são poucos. Entre 15% e 20% da população apresentam um episódio de urticária em algum momento da vida. A doença atinge uma em cada cinco pessoas no mundo, sendo que dessas entre 1% e 2% apresentam a urticária crônica, que leva mais de seis semanas para desaparecer. Estima-se que mais de 1,8% da população mundial sofra de urticária crônica.

Semana Mundial da Alergia destaca urticária

Não à toa a urticária foi escolhida como tema da Semana Mundial de Alergia este ano ( 2 a 8 de abril). Com a campanha “A Agonia da Urticária: O Que Fazer Quando a Coceira e os Inchaços Não Vão Embora”, a Organização Mundial de Alergia (WAO)  pretende conscientizar sobre a doença e buscar informações que visam a qualidade de vida do paciente.

O foco é concentrado no que fazer quando esse incômodo não vai embora, e reverter a ideia de que não há esperança de cura quando os sintomas da urticária crônica não cessam. Segundo a entidade, muita gente com urticária crônica acaba perdendo a esperança na cura devido à falta de informações sobre as causas da doença.

Por meio de suas regionais localizadas em várias cidades do Brasil, a Asbai realizará atividades que abordarão o tema, com ações que envolverão médicos e a população. “Temos como objetivo levar informação para o maior número de pessoas, para que elas busquem tratamento adequado e de qualidade”, afirma Norma Rubini, presidente da Asbai.

Doença pode ser confundida com alergias comuns

Infecções causadas por vírus, medicamentos (em especial, antibióticos e os anti-inflamatórios) e os alimentos estão entre os principais desencadeadores da doença. Os sintomas são manchas avermelhadas, algumas com relevo, e que podem se juntar formando placas, que têm duração fugaz e localização variável. Em alguns casos, pode se associar com o angioedema, ou seja, inchaços em locais do corpo como: pálpebras, face, lábios, genitália, entre outros.

As lesões avermelhadas, que coçam muito e incomodam bastante, podem ter tamanhos diferentes e se juntar formando placas, que duram até 24 horas.  Da mesma maneira que se espalham pelo corpo, elas podem desaparecer com ou sem medicamento. O desconforto maior sempre é a coceira, que deixa os pacientes debilitados e incomodados por vários dias. E muitas vezes com vergonha de sair de casa.

Normalmente indolor (exceto na forma autoimune da doença), a urticária pode ser confundida com alergias cutâneas frequentes, como a dermatite de contato e a dermatite atópica, que em geral coçam bastante, mas que, pela história e exame físico, podem ser diferenciadas da urticária na grande maioria dos casos.

Os  quadros de crise que são gerados a partir da liberação de histamina, substância que age dilatando os vasos sanguíneos na pele, causando o inchaço e vermelhidão. “Essas lesões, por vezes, são acompanhadas de inchaço em algumas regiões do corpo, o angioedema”, explica Leonardo Medeiros, especialista em Alergia e Imunologia pela Asbai e médico do Hospital São Vicente de Paulo (RJ). 

Em algumas pessoas, a urticária pode vir acompanhada de angioedema (‘inchaço’), que pode aparecer em qualquer parte do corpo, sendo mais comum nas pálpebras e lábios. Na maior parte das vezes, não coça. Às vezes, pode ser acompanhado de dor ou queimação. Além disso, desaparece mais lentamente”, comenta Solange Valle, membro do Departamento Científico de Urticária da Asbai.

Urticária crônica pode ser induzida ou espontânea

Existem dois tipos de urticária. A aguda dura menor tempo, no máximo seis semanas, é a mais frequente e ocorre principalmente nas crianças e adultos jovens, ocorre mais em mulheres entre 25 a 45 anos de idade.

Já a crônica, com duração acima de seis semanas, pode ser dividida em dois subtipos: a espontânea, que é a mais frequente e as lesões surgem sem que se encontre qualquer fator externo responsável, e a induzida, em que as lesões são desencadeadas por fatores externos específicos (frio, calor), identificados pela história clínica e testes de provocação.

“Nos casos de urticária crônica predominam as induzidas, ou seja, desencadeadas por estímulos físicos, comprometendo a qualidade de vida, a relação com o meio social, acarretando falta às aulas e prejuízo no aprendizado”, explica Maria de Fátima Epaminondas Emerson, coordenadora da Comissão Especial de Assuntos Comunitários da Asbai.

Estresse e até suor podem causar urticária induzida

A alergista e imunologista Izilda Bacil, do Hospital Balbino (RJ), explica que as urticárias também podem estar ligadas ao estresse e sudorese, ou ocasionadas pelo frio ou calor. A cura e o tratamento vão depender da causa.

“Para tratar, o que se faz é tentar eliminar a causa, mas para melhorar a qualidade de vida do paciente enquanto isso são prescritos antialérgicos”, completa a médica, que é pós-graduada em Alergia pela UFRJ e membro da Sociedade Brasileira de Alergia e Imunopatologia.

As crianças também podem ser vítimas da urticária, que atinge entre 15% e 20% da população infantil.  O alergista Eduardo Magalhães de Souza Lima, da Asbai, explica que na população infantil, a urticária pode estar associada a um vírus.

Já nas alergias alimentares também são importantes desencadeadoras da doença, tanto em crianças como em adultos, sendo que nestes últimos temos também outro vilão que são os medicamentos. Embora possam desenvolver a urticária crônica (com duração acima de seis semanas), é a forma aguda, que dura menos de seis semanas, a que mais atinge crianças pequenas e adolescentes.

Ferramenta mede o tamanho do incômodo

Leonardo Medeiros afirma que a doença, do tipo aguda ou crônica, pode ser identificada a partir da queixa do paciente e do exame físico completo realizado por médico especialista em Alergia e Imunologia, que solicitará os exames laboratoriais necessários e realizará os testes cutâneos adequados a cada caso.

O diagnóstico é clínico, ou seja, baseia-se na avaliação feita pelo médico, que leva em conta histórico familiar, exame físico e, se necessário, exames complementares. “Não há um teste definitivo para fazer o diagnóstico da urticária. O tratamento da doença se baseia em identificar a causa.  Mas nem sempre é fácil já que a urticária aguda pode ser desencadeada por vários motivos”, afirma.

Para avaliar a qualidade de vida, é utilizado um questionário, composto por perguntas simples, que pode ser rapidamente respondido pelo próprio paciente. “Esta avaliação é fundamental para verificar a resposta ao tratamento. É comprovado que o controle da doença melhora a autoestima e também a qualidade de vida do paciente”, comenta a médica Solange Valle.

A avaliação diária da intensidade da urticária é útil tanto para o paciente quanto para o médico, e com esta finalidade foi criada uma tabela chamada UAS 7 (Urticaria Activity Score – Escore de Atividade de Urticária), que avalia o número de lesões e a intensidade da coceira. O UAS7 é uma ferramenta útil para monitorar a atividade das urticárias crônicas espontâneas. A finalidade é avaliar a eficácia do tratamento e definir melhor a conduta mais adequada.

A UAS7 deve ser preenchida pelo paciente, uma vez por dia, no mesmo horário, na semana anterior à consulta. No sétimo dia, os pontos serão somados e levados ao médico. Na consulta, o médico analisará a pontuação final e assim terá um parâmetro objetivo para avaliar a melhora da urticária”, explica Maria de Fátima.

Como é feito o tratamento para urticária?

Geralmente o tratamento da urticária é realizado com o uso de antialérgicos, que devem ser prescritos por um médico alergista após o diagnóstico correto para a eliminação da causa, quando identificada. Dr Leonardo Medeiros conta que hoje existem várias alternativas para o tratamento da urticária, tanto para as mais simples como para aquelas mais complexas, que são resistentes ao uso de antialérgicos.

O tratamento da urticária envolve a identificação e o controle da causa, cuidados cutâneos e o uso de medicamentos, sendo os anti-histamínicos orais (antialérgicos) os de primeira linha para tratar a doença, urticária, uma vez que a histamina atua na redução da coceira e das lesões cutâneas.

É recomendado o uso de anti-histamínicos de nova geração, que possuem menos efeitos colaterais, não causam sonolência e não interferem no aprendizado escolar. Em alguns casos, recomenda-se o uso destes medicamentos com doses aumentadas, por tempo prolongado, com bons resultados. Manter a pele sempre hidratada é uma medida que contribui para evitar as crises da doença, mas a visita a um especialista é imprescindível”, completa Izilda Bacil.

E quando a urticária é uma doença autoimune?

Coordenador do Departamento Científico de Urticária da Asbai, Luís Felipe Ensina explica que as urticárias crônicas têm um mecanismo relacionado à autoimunidade, ou seja, não é nenhum fator externo que está causando a doença. “Por isso a importância de consultar um especialista que esteja apto a investigar a questão de forma adequada e que poderá explicar o que está envolvido nessa reação”, destaca.

“A maior novidade no tratamento da urticária crônica é o omalizumabe, um anticorpo monoclonal anti-IgE, que diminui a ativação do mastócito, célula responsável pela liberação de histamina, a principal substância relacionada aos sintomas da urticária. Ele é indicado para todos os pacientes que não respondem a doses altas de anti-histamínicos, e tem uma eficácia maior que 70%, com poucos efeitos colaterais significativos”, explica Dr. Ensina.

Fonte: Assessoria da Asbai, com especialistas

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