No Abril Azul, o debate sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) ganha ainda mais relevância e destaca a importância do diagnóstico adequado, do acompanhamento especializado e da inclusão social das pessoas com autismo. O crescimento expressivo na quantidade de indivíduos diagnosticados com autismo no mundo, que hoje já representa cerca de 2% da população do planeta, traz à tona uma discussão importante: os casos de autismo estão aumentando ou os números atuais são reflexo de uma evolução no diagnóstico do transtorno, tanto em crianças quanto em adultos?

Estudos recentes da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que uma em cada 100 pessoas está dentro do espectro, mas muitos adultos só chegam ao diagnóstico após décadas de sofrimento emocional, dificuldades sociais e sensação constante de inadequação. Especialistas alertam que reconhecer sinais menos óbvios pode ser decisivo para antecipar os cuidados e aumentar a qualidade de vida.

Por falta de um diagnóstico preciso, muitas pessoas só descobriram recentemente, na fase adulta, que têm TEA. Antes disso, percorreram diversos médicos em busca de tratamento para suas dificuldades. Algumas vezes, o diagnóstico só ocorreu quando o paciente decidiu buscar ajuda porque pretendia casar ou ter filhos. Outras vezes, a descoberta veio por meio de um filho com TEA, quando o pai ou a mãe percebeu que tinha características e comportamentos parecidos, ainda que leves.

‘Fui diagnosticado autista somente aos 29 anos’, diz autor de livro

O filósofo e escritor Henrique Vitorino, autor do livro “Manual do Infinito – Relatos de um autista adulto”, é um dos muitos brasileiros que tiveram o diagnóstico tardio de autismo. “Sou um homem cisgênero, branco, de 32 anos. Fui diagnosticado autista somente aos 29 anos. O diagnóstico pode vir tarde, no entanto, o autismo nos acompanha desde sempre. Eu, particularmente, tenho muita dificuldade com imprevisto, mudança. Então, mesmo antes do meu diagnóstico formal, eu já percebia e falava dessas dificuldades”.

A advogada Barbara Moura Teles, que atua na área de direitos dos autistas, é mãe de uma criança com TEA e ela mesma, autista. “Eu só descobri que era autista após ter recebido o diagnóstico de autismo de meu filho. É importante destacar que o TEA é definido pela ciência como uma condição neurológica genética. Isso significa que boa parte ou quase todos os autistas herdaram isso em seus genes, da carga genética de seus pais.

Pesquisas científicas confirmam que o autismo tem uma forte base genética, que pode chegar a mais de 90% de herdabilidade. Nos últimos 20 anos, houve grande evolução no diagnóstico devido aos avanços das técnicas de sequenciamento.

Diversos estudos apontam que a carga genética masculina é predominante, mas eu estou aqui para discordar disso. Eu, mãe do Antônio, fui recém-diagnosticada autista, aos 40 anos, nível 1 de suporte com altas habilidades. Então a carga genética do Antônio também é minha”, pontua Barbara.

Autismo tem uma forte base genética

De acordo com a terapeuta transpessoal sistêmica Marcela Santana, coautora do livro Além do Diagnóstico, lançado em janeiro de 2026, o autismo na vida adulta ainda é invisibilizado e frequentemente confundido com traços de personalidade ou questões emocionais isoladas.

O diagnóstico tardio não apaga uma vida inteira de tentativas de se encaixar em um mundo que pouco compreende as diferenças”, afirma a especialista que também atende crianças e adolescentes mas percebe a necessidade de estender o olhar para adultos que cresceram sem o diagnóstico.

A boa notícia é que atualmente e, cada vez mais, os casos de autismo estão sendo diagnosticados precocemente e com mais facilidade. Com o avanço dos sites e redes sociais, o acesso à informação é bem maior e muitas pessoas que sempre se sentiram “deslocadas”, “sem ambiente”, “diferentes”, começaram a escutar e a ler sobre autismo e se identificaram. Hoje em dia, também, os profissionais têm um olhar mais aguçado para diagnosticar o TEA.

O diagnóstico não é simples. Não existe um biomarcador que aponte que alguém tem ou não tem autismo. Assim, é fundamental que neurologistas, pediatras e psiquiatras estejam cada vez mais preparados e atualizados para dar o diagnóstico com maior precisão e o mais cedo possível, a fim de garantir melhor qualidade de vida à essa parcela da população.

Por que o autismo na vida adulta tem ganhado mais visibilidade agora?
Terapeuta transpessoal sistêmica Marcela Santana (Foto: Divulgação)

Nos últimos anos, houve um avanço importante no acesso à informação e na ampliação do olhar sobre o espectro autista. Antes, o autismo era muito associado à infância e a casos mais evidentes. “Hoje, entendemos que ele se manifesta de diferentes formas, inclusive mais sutis, o que tem levado muitos adultos a se reconhecerem e buscarem avaliação”, diz a terapeuta transpessoal sistêmica Marcela Santana.

Por que tantas pessoas só descobrem o autismo depois de adultas?

Muitas pessoas cresceram em um contexto em que o tema era pouco discutido. Essas pessoas aprenderam a mascarar comportamentos, se adaptar socialmente e lidar com dificuldades sem entender a origem delas. O diagnóstico tardio surge quando há acesso à informação e, muitas vezes, após crises emocionais ou esgotamento”, diz a  coautora do livro Além do Diagnóstico.

Quais sinais costumam aparecer ao longo da vida nesses casos?

Dificuldades nas interações sociais, sensação de não pertencimento, hipersensibilidade sensorial, rigidez de pensamento, desafios na organização da rotina e episódios de ansiedade são alguns sinais recorrentes. Muitas vezes, esses aspectos foram interpretados como traços de personalidade, e não como parte do espectro.

O diagnóstico na vida adulta pode trazer algum tipo de alívio?

Sim, e muito. Para muitas pessoas, o diagnóstico funciona como uma chave de compreensão da própria história. Ele ajuda a ressignificar experiências passadas, reduzir a autocobrança e desenvolver um olhar mais compassivo sobre si.

Como o autismo pode impactar as relações pessoais e profissionais?

De muitas formas. Desafios na comunicação, na leitura de contextos sociais e na adaptação a ambientes mais imprevisíveis, como o trabalho, são alguns exemplos. Nas relações pessoais, isso pode gerar ruídos, mas, com compreensão e ajustes, é possível construir vínculos saudáveis e respeitosos.

Quais são os principais desafios após receber o diagnóstico?

O ponto principal é o processo de aceitação e adaptação. A pessoa precisa reconstruir a própria identidade a partir dessa nova compreensão. Também podem haver dificuldade em encontrar suporte adequado e ambientes que respeitem suas necessidades.

De que forma o acompanhamento terapêutico pode ajudar nesse processo?

A terapia é fundamental para apoiar o autoconhecimento, trabalhar questões emocionais e desenvolver estratégias práticas para o dia a dia. Além disso, ajuda na construção de autonomia e no fortalecimento da autoestima.

O que ainda falta na sociedade quando falamos de autismo na vida adulta?

Falta ampliar o debate e reduzir preconceitos. Ainda há muita desinformação, especialmente sobre adultos autistas que não se encaixam em estereótipos. É essencial promover inclusão, escuta e respeito às diferentes formas de existir.

Confira 5 sinais comuns que podem indicar um diagnóstico tardio de autismo

  1. Sensação persistente de não pertencimento

Mesmo em ambientes íntimos, como família, amigos ou relações afetivas, é comum que pessoas autistas relatem um distanciamento interno, como se estivessem sempre “fora do lugar”.

  1. Dificuldades recorrentes na comunicação

Interpretação literal da linguagem, desafios em entender nuances sociais e desconforto em interações podem ser sinais frequentemente negligenciados ao longo da vida.

  1. Cansaço social intenso

Situações sociais podem gerar esgotamento extremo, exigindo longos períodos de recuperação — algo que, muitas vezes, é confundido com timidez ou introversão.

  1. Comportamentos repetitivos ou necessidade de controle

Rotinas rígidas, padrões repetitivos e desconforto diante de mudanças podem funcionar como estratégias de regulação emocional.

  1. Hipersensibilidade sensorial

Sensibilidade acentuada a sons, luzes, cheiros ou texturas pode impactar diretamente o bem-estar e adaptação a diferentes ambientes. “Muitos adultos passam anos sendo vistos como difíceis, estranhos ou inadequados, quando, na verdade, estão apenas tentando sobreviver em um mundo que não os acolhe”, pontua a autora do livro Além do Diagnóstico.

Com experiência que une a psicopedagogia e a clínica terapêutica, Marcela Santana defende que o diagnóstico tardio é um convite à reflexão sobre a exclusão social. “Cuidar da saúde mental deve ser uma prioridade diária. Falar sobre autismo adulto é prevenir que problemas maiores encontrem espaço para crescer na vida de quem passou décadas sem respostas”, conclui.

Com Assessorias

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