No Brasil, quase um quarto dos adolescentes está acima do peso, segundo dados do IBGE (Foto: Ministério da Saúde)
No Brasil, quase um quarto dos adolescentes está acima do peso, segundo dados do IBGE (Foto: Ministério da Saúde)

“Comer, comer, é o melhor para poder crescer”. Qual pai ou mãe nunca cantou essa música para estimular o filho a comer? Mas é justamente por conta da ansiedade de vê-los fortes e bem nutridos que acabamos cometendo erros que podem refletir no peso da criança. Entre as armadilhas estão liberar guloseimas, não criar regras de alimentação e não ofertar uma boa variedade de alimentos. Associado a isso, há ainda dispositivos, como TVs, videogames, celulares e computadores que distraem e afastam os pequenos das atividades que queimariam calorias.

Por conta de tudo isso, as crianças crescem com sobrepeso e até mesmo obesidade, podendo prejudicar sua saúde física e mental para o resto da vida. Segundo o IBGE, cerca de 15% das crianças brasileiras estão acima do peso, e, na Região Sudeste o número é ainda mais preocupante: o índice chega a 38% entre os pequenos de 5 a 9 anos.

Neste sábado (3 de junho), Dia de Consciência Contra a Obesidade Infantil, um time de especialistas da Rede D’Or São Luiz – a pediatra Carla Dall Olio, a nutricionista Deise Barcellos, a endocrinologista pediátrica Fernanda Pereira André e a psicóloga Fernanda Starling – respondem dez perguntas com orientações aos pais, indicando estratégias e dicas para ajudar na alimentação infantil. Confira!

1 – Como incentivar uma dieta equilibrada em substituição aos produtos industrializados?

– Pediatra: Sim. A família precisa avaliar o que consome, pois, os hábitos das crianças refletem geralmente os hábitos dos seus cuidadores, especialmente daqueles que fazem as refeições juntos. Ofertar os alimentos saudáveis de forma natural e rotineira ajuda a introduzir novos costumes. A alimentação saudável é mais facilmente implementada se a família desejar de fato e focar neste estilo de vida. Se a criança não entende aquela mudança como boa para todos, ela vai sentir-se punida ou mesmo excluída da rotina dos pais e cuidadores, e não haverá adesão aos novos hábitos.

2 – Quais as dicas para os pais que não têm tempo para preparar refeições adequadas para os filhos?

– Pediatra: Quando se tem filhos, os pais precisam se organizar já de imediato com diversos horários e regras: para bom sono, bom crescimento e desenvolvimento, e tudo que envolve uma vida saudável.  Na alimentação, há formas de preparo antecipado que facilitam o dia a dia.

O ideal é ir às compras pensando no cardápio da semana, que deve abranger, inclusive, os adultos. Por exemplo, as porções de legumes podem ser fracionadas e separadas em potes (após higienização), e irem sendo consumidas em saladas, purês ou sopas. As folhas também podem ser lavadas e guardadas, já limpas, na geladeira e serem consumidas ao longo dos dias. Uma outra indicação é evitar comprar sucos industrializados e preparar sucos de fruta na hora do consumo. Se a correria não permitir, congele as frutas como morango ou manga. Desta forma é possível oferecer mais nutrientes e menos açucares do que os que agregam os sucos prontos; entre outras medidas simples.

3 – O que não deve faltar na alimentação de uma criança?

– Nutricionista: Diversidade. Precisamos ofertar tudo para as crianças quebrarem os preconceitos do sabor, dentro do que seja adequado. O ideal é que seja realizada uma avaliação individual, com a análise dos hábitos alimentares e das condições do organismo. O cardápio das crianças deve conter porções adequadas e balanceadas nutricionalmente, de acordo com a faixa etária. De forma geral, a dieta deve ser rica em frutas, legumes, verduras, fontes de proteínas magras e cereais integrais.

4 – Obesidade sempre está ligada a ingestão gorduras e açúcares? Fale sobre isso.

– Pediatra: A obesidade é fruto da má alimentação associada ao sedentarismo. Com relação aos grupos alimentares, os carboidratos e lipídios são os de maior teor calórico e vilões nas dietas de emagrecimentos. Contudo, quando se pensa em alimentação infantil não devemos esquecer que este indivíduo está em fase de extremo desenvolvimento físico e mental. Portanto, dietas restritivas de qualquer grupo para crianças são perigosas e só podem ser prescritas por nutrólogos, nutricionista, endocrinologistas ou pediatras, de acordo com o diagnóstico do paciente.

5 – Criança com peso “normal” significa que seja saudável?

– Pediatra: Além do peso, avaliamos dados como a altura e o IMC (índice de massa corporal) de acordo com a faixa etária e sexo. O conjunto destas informações antropométricas é um sinalizador se a saúde está ou não presente neste paciente de modo geral. Mas existem pacientes que têm estes índices normais, porém obtidos de uma alimentação desequilibrada, que vão repetir em alterações do colesterol, triglicerídeos, glicemia (levando ao diabetes) e até mesmo anemias por baixa ingestão de ferro ou vitamina B. Para tal avaliação, a consulta pediátrica de rotina para seguimento do paciente é importante, pois de acordo com as informações sobre os hábitos alimentares e o exame físico (observando além do peso, o indivíduo e em especial a pele, cabelo, unhas e pressão arterial).

6 – De um lado crianças com sobrepeso/obesidade e do outro uma geração focada no “fitness”, mesmo tão novos. Qual seria o perfil para uma criança saudável?

– Nutricionista: Tudo é um equilíbrio, e o mais importante é respeitar o biotipo da criança. Além disso, é indicado orientá-las quanto ao respeito as diferenças estéticas de cada indivíduo, e evitar a exposição as mídias que estimulam o culto ao corpo. Contudo, é imprescindível manter o diálogo saudável entre a família e a criança sobre o assunto.

7 – Pais obesos terão filhos obesos?

– Endocrinologista: Existem genes envolvidos com a obesidade. No entanto, a principal causa de obesidade é excesso de calorias por aumento de consumo e pouca perda. Quando se faz o inquérito alimentar de uma família onde todos estão obesos, observa-se, em quase sua totalidade, maus hábitos alimentares nos pais e filhos. O sedentarismo também é muitas vezes observado. Se esses pais corrigirem seus maus hábitos alimentares e estimularem a atividade física das crianças, seus filhos não serão necessariamente obesos.

8 – Criança pode tomar remédio para emagrecer? Quais os riscos?

– Endocrinologista: Para crianças o ideal é reeducação alimentar, atividade física e suporte psicológico. Terapia medicamentosa só está liberada para adolescentes, sob prescrição médica, e há poucas opções. As medicações podem levar à perda de vitaminas lipossolúveis e podem agir no sistema nervoso central e ainda aumentar a pressão arterial – potencializando o risco infarto.

9 – Como os pais podem conversar com os filhos que estejam sofrendo devido sua aparência física?

– Psicóloga: É fundamental uma escuta atenta para entender melhor o que está acontecendo. Não minimizar o sofrimento da criança, de forma que ela se sinta acolhida, ajudando-a a encontrar um caminho para melhorar o sentimento que a criança tem de si mesma. Além disso, é importante procurar a coordenação pedagógica do colégio para que possa ser feito um trabalho com o grupo em que a criança está inserida. Muitas vezes, o amiguinho que produz esses ataques é o que mais está precisando de ajuda. Em caso de muito sofrimento psíquico os pais devem procurar um profissional.

10 – Pais devem oferecer algum tipo de compensação para que a criança se dedique a uma dieta?

– Psicóloga: Tendo em vista que mudanças apenas serão efetivas se baseadas em motivações internas, em vez de propor recompensas, se torna mais importante ajudar na percepção de que a perda de peso e o bem-estar que advém já serão a realização desejada.

O bom exemplo vem dos pais

Ao Blog Vida & Ação, a nutricionista do Prezunic, Leusimar Nunes, explica que as decisões de compra dos alimentos a serem consumidos são muito importantes para ajudar a prevenir a obesidade infantil, assim como a forma de preparo. O bom exemplo dos pais também conta pontos. “O hábito familiar é fundamental para que as crianças aceitem comer alimentos mais saudáveis que, por algum motivo, ela possa rejeitar num primeiro momento. Ver os pais se alimentando de uma couve-flor, por exemplo, faz com que ela tenha interesse em experimentar”, observa a nutricionista, que ainda dá dicas importantes para evitar esse problema. Confira:

– O bom e velho arroz com feijão – Para as refeições do dia a dia, o bom e velho arroz com feijão é uma mistura que se completa em níveis nutricionais, aliada a uma proteína, que pode ser de origem vegetal ou animal. “No caso da proteína, é bom variar entre frango, carne bovina e peixe. Vegetais de cores diferentes também são essenciais para o fornecimento mais completo de nutrientes”, explica Leusimar.

– Atenção às cores do prato – Observar as cores tem razão de ser. Frutas e verduras avermelhadas são ricas em licopeno, substância que protege de doenças como câncer. As amarelas contém vitamina A e betacaroteno, bons para evitar doenças de pele, cabelo e unhas, além de fortalecerem a visão. Já as verdes escuras são ricas em ferro, que evita a anemia. As mais claras têm fibras importantes para o intestino.

– Produtos sem glúten e lactose – Uma tendência que tem sido observada entre alguns pais, a de evitar oferecer produtos sem glúten e lactose às crianças, deve ser vista com cautela. Leusimar afirma que esse tipo de restrição só deve ser adotado em casos de intolerância ou alergia às substâncias. “Alimentos sem glúten e lactose não interferem na questão da obesidade. Portanto, não é aconselhável evitar esses tipos de produtos em casos de crianças que não apresentem alergia ou intolerância”, orienta.

– Como preparar os alimentos – Além da escolha de alimentos saudáveis e naturais, é fundamental ter atenção à forma de preparo. Em geral, as crianças tendem a gostar mais de frituras, o que não é recomendado. Alimentos assados, cozidos e grelhados são os ideais. Em relação às carnes, Leusimar recomenda que sejam desprezadas as partes gordurosas.

– Aula de educação alimentar – Por fim, uma dica importante: ao servir o alimento para a criança, vale explicar a ela a importância de cada um e o bem que eles fazem à saúde. “A criança entende o que nós dizemos, e absorve essas informações. Conversar a respeito de cada alimento enquanto ela come é uma grande estratégia”, finaliza a nutricionista.

Fonte: Rede D´Or São Luiz e Prezunic 

Shares:

Posts Relacionados

4 Comments

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *