O ingresso na universidade é uma fase marcada por inúmeras mudanças e exigências, acadêmicas, sociais e comportamentais. Para estudantes autistas, no entanto, esse processo pode ser ainda mais desafiador, exigindo adaptações específicas e maior sensibilidade por parte das instituições de ensino. Essa é a reflexão central do artigoDesafios de universitários autistas: da inclusão e adaptação ao adoecimento no ensino superior uma revisão de literatura”, publicado recentemente pela psicóloga e pesquisadora Marina Zotesso.

O estudo analisa, a partir de uma revisão de literatura, os principais obstáculos enfrentados por jovens autistas em universidades brasileiras e os fatores que contribuem para o adoecimento psicológico nesse contexto. A pesquisa identificou um aumento expressivo no número de estudantes autistas no ensino superior, impulsionado por políticas públicas de inclusão, avanços na detecção precoce e maior acesso à educação básica.

Apesar disso, ainda há baixa representatividade desses alunos nas universidades e grandes desafios para sua permanência e sucesso acadêmico”, aponta a doutora e Mestre em Psicologia pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) e pós-doutoranda pela Universidade de São Paulo (USP).

A Lei 12.764/2012, conhecida como Lei Berenice Piana, propôs diretrizes para a maior participação social da pessoa com TEA, garantindo o acesso ao trabalho, à proteção social e à educação. Naquele ano, o ensino superior do país registrava apenas 244 matrículas de estudantes com TEA. Em 2024, o número já alcançava 15.941, contabilizando os inscritos em cursos presenciais e a distância.

Na graduação da Unesp há 403 alunos autodeclarados com TEA, o que representa 1,15% de todos os matriculados. Na Pós-Graduação há 20 pesquisadores, que representam 0,16% do total de inscritos.

Desde 2007, por decisão da Assembleia Geral da ONU, celebra-se em 2 de abril o Dia Mundial de Conscientização do Autismo. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), a população global que se insere no Transtorno do Espectro Autista (TEA) alcança cerca de 70 milhões de pessoas. No Brasil, o total de pessoas com diagnóstico de TEA é de 2,4 milhões, ou 1,2% da população, segundo dados coletados pelo IBGE no Censo Demográfico de 2022.

Em 2008, entrou em vigor no Brasil a Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência, com status de emenda constitucional. A nova legislação inseriu, no texto da Constituição, a condenação à discriminação contra indivíduos PCDs e o reconhecimento à sua diversidade. A Convenção, porém, não incluía os indivíduos com TEA, que só passaram a ser reconhecidos como pessoas com deficiência no Brasil em 2012.

 

Só 5 dentre 1.603 estudos abordam experiência de universitários autistas

Revisão de literatura destaca a urgência de adaptações institucionais

Esse cenário também fica evidente no próprio processo metodológico da revisão realizada pela pesquisadora: dos 1.603 estudos encontrados inicialmente, apenas cinco atendiam aos critérios e abordavam diretamente a experiência de universitários autistas.

O número reduzido de publicações revela como essa população permanece pouco investigada, reforçando a invisibilidade e a carência de dados sobre suas vivências no ensino superior. Isso indica que, além das barreiras no cotidiano universitário, há também um apagão de informações que dificulta avanços na formulação de políticas e práticas inclusivas.

Professora no Instituto Lahmiei da UFSCa, Marina atua há mais de uma década como terapeuta clínica sob o viés comportamental, além de ser consultora e supervisora em ABA, Sua pesquisa e atuação concentram-se em Psicologia Comportamental, com ênfase em autismo e adolescência no espectro.

Segundo a autora, os achados apontam para a necessidade urgente de ações efetivas de inclusão, desde ajustes curriculares e acessibilidade comunicacional até a formação de docentes e equipes técnicas capazes de compreender as especificidades do espectro autista.

Não basta garantir o ingresso; é preciso criar ambientes que favoreçam a permanência e o bem-estar desses estudantes”, destaca Marina Zotesso. Para ela, reconhecer e atender essas necessidades não é um diferencial, mas um compromisso alinhado ao direito à educação de qualidade para todos.

Pesquisadora só foi diagnosticada aos 22 anos

A física Anne Kétri Pasquinelli da Fonseca, de 25 anos, está entre os pós-graduandos com TEA na Unesp. Doutoranda em física pelo Instituto de Geociências e Ciências Exatas (IGCE), em Rio Claro, ela ingressou na graduação em física na Unesp em 2018 e desde então vem construindo sua trajetória científica dentro da Universidade.

Suas pesquisas na área de Caos e Sistemas Dinâmicos analisam as mudanças de fase em sistemas bilhares, campo de estudo na física de partículas, e buscam compreender de que forma os sistemas podem transitar de um comportamento mais estável para um regime caótico. A título de comparação, é como se as partículas fossem bolinhas coloridas de bilhar, e Fonseca investiga o comportamento destes objetos ao colidirem com as “bordas da mesa de sinuca”.

Em 2026, a pesquisa da cientista foi selecionada pelo edital Doctoral Dissertation Research Award, do Programa Fulbright, e Anne Kétri irá para a Universidade da Dakota do Norte, nos Estados Unidos, aprofundar os estudos.

Embora recebesse acompanhamento psiquiátrico e psicológico desde os 14 anos, a pesquisadora unespiana só obteve o laudo de TEA aos 22 anos, quando já estava no final da graduação. A pesquisadora foi enquadrada como pessoa com TEA nível 1, com menor necessidade de suporte. O entendimento sobre a condição, no entanto, é de extrema importância para que haja a compreensão de alguns eventos individuais.

O universo acadêmico, assim como os demais ambientes, presume que, com o avanço da idade, você já saiba como agir e falar em certas situações”, diz Anne Kétri. “Mas enfrento muitas dificuldades com coisas que, às vezes, parecem que são parte do senso comum. Consigo fazer tudo que me pedem. Mas as instruções e a comunicação precisam ser claras”, explica a pesquisadora.

Necessidade de instruções claras é taxada de “frescura”

Para explicar a importância destas instruções, a física teórica usa como exemplo uma hipotética tarefa de organizar uma estante. Na ausência de orientações claras, são muitas as possibilidades de arrumação: por cores, pelos tamanhos ou pelas datas de publicação. Pessoalmente, ela pensa que o mais lógico seria uma organização baseada no sobrenome dos autores.

Mas basta a possibilidade de que ocorra algum erro no processo de organização para gerar tensão e ansiedade nas pessoas com TEA. Daí a importância de prover instruções claras para assegurar o bem-estar destes indivíduos. Esta necessidade, porém, muitas vezes é taxada de “frescura”, e simplesmente ignorada.

Ao comparar o quadro que viveu durante seu período na graduação com o momento atual de estudante na pós-graduação, Anne Kétri relata melhorias. “Com o surgimento das diretorias de acessibilidade e inclusão vão aparecendo oportunidades para solicitar uma monitoria, ou outras adaptações”, relata.

Antes, parecia não haver essa possibilidade. Era você que tinha que se adaptar, e não a universidade. Mas isso não faz sentido. Pense no caso de uma pessoa que usa cadeira de rodas: a universidade se responsabilizaria por inserir alguma adaptação. No caso do autismo, acho que isso está acontecendo aos poucos.”

Leia a reportagem completa no Jornal da Unesp.

 

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