A tragédia climática na Zona da Mata Mineira, que mobiliza forças de segurança e voluntários, expõe a vulnerabilidade humana diante de eventos climáticos extremos. Até a manhã deste sábado (28), a Defesa Civil já havia confirmado 70 mortes – sendo 64 em Juiz de Fora e 6 em Ubá. Mais de 5 mil pessoas estão desabrigadas ou desalojadas nestes e em outros municípios.
O cenário nesses municípios é de reconstrução em meio ao luto. Após o volume de chuvas em fevereiro superar em mais de 240% a média histórica na região, centenas de famílias mineiras tentam reorganizar o que restou de suas vidas em abrigos improvisados.
Na Escola Municipal Murilo Mendes, em Juiz de Fora, histórias como a de Daniele Saldanha se repetem. Auxiliar de cozinha e desempregada, ela cuida de seis crianças e um pai idoso em um colchonete sobre o chão de uma sala de aula, após sua casa ser condenada pela Defesa Civil. “Perdemos nossa casa e agora é esperar para ver o que vai acontecer”, desabafou à Agência Brasil.
Como ajudar as vítimas dos temporais
O recebimento das doações está sendo coordenado por órgãos oficiais e instituições civis para garantir que os mantimentos cheguem com agilidade às cidades de Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa.
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Ubá: A Secretaria de Desenvolvimento Social está centralizando as doações no Fórum Cultural de Ubá (Praça São Januário, 28). Estão sendo solicitados, prioritariamente, rodos, vassouras, água sanitária e desinfetantes para a limpeza das casas atingidas pelo barro.
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Barbacena: Devido à proximidade com a Zona da Mata, o 9º Batalhão de Polícia Militar (Rua Floriano Peixoto, 53) também abriu um posto de coleta para auxiliar as cidades vizinhas.
O que doar:
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Alimentos não perecíveis e água potável;
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Itens de higiene pessoal e material de limpeza (água sanitária, vassouras, rodos);
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Roupas e calçados em bom estado (especialmente para crianças e idosos);
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Material escolar para as crianças acolhidas nos abrigos.
Onde e como doar em outras regiões
A rede de solidariedade já ultrapassa as fronteiras de Minas Gerais. Instituições de ensino, sindicatos e entidades empresariais estão mobilizados para arrecadar mantimentos, itens de higiene e vestuário.
Pontos de coleta em Belo Horizonte e Região Metropolitana
Para quem está na capital mineira, as principais frentes de recebimento são:
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Batalhões do Corpo de Bombeiros e PMMG: Todas as unidades operacionais de Belo Horizonte e Contagem estão recebendo doações de água mineral, alimentos não perecíveis e kits de higiene.
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Servas (Serviço Social Autônomo): O órgão centraliza doações para o interior do estado.
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Endereço: Avenida Cristóvão Colombo, 683 – Savassi, Belo Horizonte.
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Horário: Das 8h às 18h.
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Cruz Vermelha Brasileira – Filial Minas Gerais: Focada na arrecadação de colchões, cobertores e roupas de cama para os desabrigados.
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Endereço: Alameda Ezequiel Dias, 427 – Centro, Belo Horizonte.
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Doações via PIX oficial
O Governo de Minas Gerais, por meio da Defesa Civil, reforça que a doação em dinheiro é uma das formas mais rápidas de viabilizar a compra de itens específicos de saúde e logística. Além dos pontos físicos, a Prefeitura de Juiz de Fora e a Defesa Civil costumam centralizar doações via PIX oficial em situações de calamidade. Recomenda-se verificar os canais oficiais do Governo de Minas para dados bancários atualizados e evitar fraudes.
Atenção: Verifique sempre o destinatário antes de confirmar a transação para evitar golpes. O canal oficial é o SOS Minas, gerenciado pelo fundo estadual de assistência social. Os dados atualizados podem ser conferidos no portal oficial: www.mg.gov.br.
Onde entregar as doações:
Setor produtivo e indústria farmacêutica reforçam rede de apoio em MG
Mobilização do Sistema Fecomércio e da EMS garante envio de toneladas de donativos e medicamentos para a Zona da Mata
A corrente de solidariedade para as vítimas das chuvas em Juiz de Fora e Ubá ganhou reforços de peso nesta semana. O Sistema Fecomércio MG, por meio do Sesc Mesa Brasil e sindicatos locais, iniciou o envio de mais de 1.160 itens de dormitório (colchões, cobertores e lençóis) e 1.500 cestas básicas para a Defesa Civil de Juiz de Fora. A força-tarefa também contempla Ubá com 500 cestas e mil kits de limpeza, essenciais para a desinfecção de moradias.
Para quem deseja contribuir financeiramente de forma segura, o Sesc Minas disponibilizou uma chave PIX específica para a campanha “Tempo de Ajudar”. Os recursos são revertidos na compra de itens de primeira necessidade conforme a demanda das prefeituras. Chave PIX (Sesc MG): tempodeajudar@sescmg.com.br
Além dos mantimentos, a saúde da população recebeu atenção estratégica da indústria farmacêutica. A EMS anunciou a doação direta de medicamentos, água e alimentos. Em uma medida inédita de apoio econômico e sanitário, a companhia confirmou o perdão de dívidas de farmácias parceiras atingidas e a reposição integral de estoques de remédios perdidos nas enchentes. A ação visa garantir que a população não sofra com o desabastecimento de tratamentos essenciais durante a fase de reconstrução.
A reposição de medicamentos e o envio de kits de higiene pessoal são fundamentais para conter o avanço de doenças após o recuo das águas. A disponibilidade de fármacos e itens de limpeza impede que infecções oportunistas se espalhem tanto entre humanos quanto entre os animais domésticos resgatados, que frequentemente compartilham os mesmos espaços de abrigo. Garantir que as farmácias locais voltem a operar é, portanto, uma medida de biossegurança para toda a região.
Moradores relatam desespero após mortes em Juiz de Fora

Morador do Parque Jardim Burnier, bairro da Zona Sudeste de Juiz de Fora, o eletricista Jorge Rocha acordou na noite desta segunda-feira (23) com gritos e batidas na porta.
Ele mora há 20 metros do local mais impactado pelo deslizamento de terra: um conjunto de casas que desmoronou quando todo o barranco veio abaixo. Jorge viu o momento em que um dos vizinhos saiu dos escombros com vida. “Ele saiu sujo de barro, assustado. E passou a noite em busca da família. De manhã, os bombeiros encontraram os corpos da mulher e do filho”, diz o eletricista.
A enfermeira Débora Pena subiu o morro correndo para ajudar a avó a sair de casa, que fica em frente ao local do deslizamento. Ela conta que viu o momento em que começou a descer terra e pedra.
Eu moro aqui desde que era criança. Nunca tinha visto nada como isso. Na hora, começou a descer muita terra e pedra. E eu saí correndo e fui chamar socorro. Tá difícil de processar, a ficha ainda não caiu. Não consigo dormir desde ontem à noite. Eu conhecia todo mundo aqui. A gente quer tirar pelo menos os corpos para dar um enterro digno”, diz Débora.
Soterrado, homem sobrevive com ajuda de amigo em Juiz de Fora

O barulho foi seco e repentino. Em segundos, Deivid Carlos da Silva estava soterrado nas ruínas de sua casa no Jardim Parque Burnier, na zona sudeste de Juiz de Fora. Preso nos escombros, ele tinha certeza de que não sairia vivo.
Sem conseguir se mover durante uma hora e meia, já sem esperanças, o desespero de Deivid só foi interrompido quando percebeu que alguém tentava alcançá-lo. “Meu amigo cavou com a mão, tirou uma pedra. Eu consegui ver um buraco, luz e respirar”, diz.
O amigo é Luiz Otávio Souza, também morador da região, que passou a madrugada ajudando no resgate dos vizinhos. Isso, mesmo com chuva forte e o risco de novos deslizamentos. “Estava tudo escuro. Só conseguia enxergar com lanterna. Chuva em cima, mas mantendo o trabalho, porque com vidas não se brinca”, diz.
A mulher e o filho de Deivid também foram retirados dos escombros com a ajuda dos moradores do bairro. Enquanto ajudava a salvar os vizinhos, Luiz Otávio enfrentava uma angústia pessoal. Ele acompanhava as buscas por dois familiares, desaparecidos desde o deslizamento.
“Meu sobrinho, de 21 anos, e a mãe dele, de 41. Ele chegou do serviço, deixou a mochila em casa e foi vê-la. Aí veio o desabamento”, conta. Mesmo sem dormir e sem comer direito, Luiz Otávio mantinha o ritmo de trabalho nos escombros.
Enquanto não achar todo mundo, não vou parar. Todo mundo aqui é família, amigo. Não tem como deixar ninguém para trás. É uma dor para todos”, acrescenta.
Saúde envia equipes do SUS para áreas atingidas pela chuva
O Ministério da Saúde mobilizou frentes de emergência para os municípios de Ubá e Matias Barbosa, na Zona da Mata mineira, em resposta aos danos causados pelas fortes chuvas.
Profissionais e suporte especializado
As equipes, que já atuavam em Juiz de Fora, são compostas por especialistas do Sistema Único de Saúde (SUS) e do Departamento de Emergências em Saúde Pública. O grupo inclui:
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Médicos e enfermeiros: Atuam no atendimento direto e na reorganização da rede assistencial local.
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Psicólogos: Focados em ações de acolhimento psicossocial e cuidados em saúde mental para as vítimas.
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Especialistas em logística: Responsáveis por coordenar o fluxo de insumos e profissionais na região.
Recursos e insumos enviados
Para garantir a continuidade dos serviços essenciais e a proteção da população, o governo federal está encaminhando:
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Saúde básica: Vacinas, medicamentos e insumos estratégicos de primeiros socorros.
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Água e saneamento: Envio de água potável e caminhões-pipa do programa Vigiágua para garantir o abastecimento onde o serviço está comprometido.
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Unidades móveis: Carretas do programa Agora Tem Especialistas prestarão auxílio enquanto as unidades de saúde afetadas são recuperadas ou reconstruídas.
Ações estratégicas e garantias do governo
O foco das autoridades é assegurar que nenhuma cidade da região fique desamparada durante a crise. As principais medidas destacadas são:
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Redirecionamento de serviços: Pacientes estão sendo encaminhados para unidades de saúde não afetadas pelas chuvas para garantir a continuidade dos atendimentos essenciais.
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Garantia de recursos: O ministro em exercício, Adriano Massuda, assegurou que não faltarão suporte financeiro, técnico ou assistência em saúde para as famílias atingidas.
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Monitoramento local: Representantes dos ministérios da Saúde e da Integração e do Desenvolvimento Regional viajaram ao estado para acompanhar as medidas emergenciais.
Alerta de grande perigo na região
De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), apenas entre os dias 22 e 24 de fevereiro, Juiz de Fora registrou quase 230 mm de chuva, um volume atípico que satura o solo e causa deslizamentos. O instituto mantém o alerta de grande perigo para a Zona da Mata até o final desta semana. A previsão é de chuvas superiores a 100 mm por dia, com alto risco de novos deslizamentos e transbordamentos de rios, como o Paraibuna.
A Defesa Civil estima 440 pessoas desabrigadas que já receberam acolhimento provisório. Bairros ficaram isolados e houve mais de 40 chamadas emergenciais por inundações e risco estrutural. Também houve transbordamento do Rio Paraibuna, inundações, soterramentos e áreas ilhadas. O governo federal reconheceu oficialmente o estado de calamidade em Juiz de Fora, o que permite o envio de recursos e assistência imediata às áreas afetadas.
O trabalho de resgate do Corpo de Bombeiros continua nos locais mais atingidos. O efetivo foi ampliado para dar conta das buscas pelos desaparecidos. A Defesa Civil reforça o apelo para que famílias em áreas de risco não retornem às suas casas até que a situação seja totalmente estabilizada pelos técnicos.
Com informações da Agência Brasil e Ministério da Saúde (atualizado em 27/02/26)











