O cenário em Juiz de Fora e Ubá é de reconstrução em meio ao luto. Após o volume de chuvas em fevereiro superar em mais de 240% a média histórica na região da Zona da Mata Mineira, centenas de famílias mineiras tentam reorganizar o que restou de suas vidas em abrigos improvisados.

A tragédia, que mobiliza forças de segurança e voluntários, expõe a vulnerabilidade humana diante de eventos climáticos extremos. Até a noite desta quarta-feira (25), a Defesa Civil já havia confirmado 48 mortes – sendo 42 em Juiz de Fora e 6 em Ubá. Centenas de pessoas estão desabrigadas ou desalojadas.

De acordo com o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), apenas entre os dias 22 e 24 de fevereiro, Juiz de Fora registrou quase 230 mm de chuva, um volume atípico que satura o solo e causa deslizamentos. O instituto mantém o alerta de grande perigo para a Zona da Mata até o final desta semana.

A previsão é de chuvas superiores a 100 mm por dia, com alto risco de novos deslizamentos e transbordamentos de rios, como o Paraibuna. O Corpo de Bombeiros reforça o apelo para que famílias em áreas de risco não retornem às suas casas até que a situação seja totalmente estabilizada pelos técnicos.

Como ajudar as vítimas dos temporais

Na Escola Municipal Murilo Mendes, em Juiz de Fora, histórias como a de Daniele Saldanha se repetem. Auxiliar de cozinha e desempregada, ela cuida de seis crianças e um pai idoso em um colchonete sobre o chão de uma sala de aula, após sua casa ser condenada pela Defesa Civil. “Perdemos nossa casa e agora é esperar para ver o que vai acontecer”, desabafa.

A rede de solidariedade já ultrapassa as fronteiras de Minas Gerais. Instituições de ensino e sindicatos estão mobilizados para arrecadar mantimentos, itens de higiene e vestuário para os milhares de desabrigados e desalojados. O recebimento das doações está sendo coordenado por órgãos oficiais e instituições civis para garantir que os mantimentos cheguem com agilidade às cidades de Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa.

  • Ubá: A Secretaria de Desenvolvimento Social está centralizando as doações no Fórum Cultural de Ubá (Praça São Januário, 28). Estão sendo solicitados, prioritariamente, rodos, vassouras, água sanitária e desinfetantes para a limpeza das casas atingidas pelo barro.

  • Barbacena: Devido à proximidade com a Zona da Mata, o 9º Batalhão de Polícia Militar (Rua Floriano Peixoto, 53) também abriu um posto de coleta para auxiliar as cidades vizinhas.

O que doar:

  • Alimentos não perecíveis e água potável;

  • Itens de higiene pessoal e material de limpeza (água sanitária, vassouras, rodos);

  • Roupas e calçados em bom estado (especialmente para crianças e idosos);

  • Material escolar para as crianças acolhidas nos abrigos.

Onde e como doar em outras regiões

Pontos de coleta em Belo Horizonte e Região Metropolitana

Para quem está na capital mineira, as principais frentes de recebimento são:

  • Batalhões do Corpo de Bombeiros e PMMG: Todas as unidades operacionais de Belo Horizonte e Contagem estão recebendo doações de água mineral, alimentos não perecíveis e kits de higiene.

  • Servas (Serviço Social Autônomo): O órgão centraliza doações para o interior do estado.

    • Endereço: Avenida Cristóvão Colombo, 683 – Savassi, Belo Horizonte.

    • Horário: Das 8h às 18h.

  • Cruz Vermelha Brasileira – Filial Minas Gerais: Focada na arrecadação de colchões, cobertores e roupas de cama para os desabrigados.

    • Endereço: Alameda Ezequiel Dias, 427 – Centro, Belo Horizonte.

Doações via PIX oficial

O Governo de Minas Gerais, por meio da Defesa Civil, reforça que a doação em dinheiro é uma das formas mais rápidas de viabilizar a compra de itens específicos de saúde e logística. Além dos pontos físicos, a Prefeitura de Juiz de Fora e a Defesa Civil costumam centralizar doações via PIX oficial em situações de calamidade. Recomenda-se verificar os canais oficiais do Governo de Minas para dados bancários atualizados e evitar fraudes.

Atenção: Verifique sempre o destinatário antes de confirmar a transação para evitar golpes. O canal oficial é o SOS Minas, gerenciado pelo fundo estadual de assistência social. Os dados atualizados podem ser conferidos no portal oficial: www.mg.gov.br.

Onde entregar as doações:

Local Endereço Horário
Colégio Stella Matutina (JF) Av. Presidente Itamar Franco, 905 – Centro, Juiz de Fora/MG 8h às 18h
Colégio Espírito Santo (SP) Rua Tuiuti, 1442 – Tatuapé, São Paulo/SP (Portarias 2 e 5) Até 27/02 às 12h
Colégio Imaculado Coração de Maria (RJ) Rua Aristides Caire, 141 – Méier, Rio de Janeiro/RJ 8h às 19h
Sindicato das Indústrias de Alimentação Ponto de apoio no Bairro Industrial, Juiz de Fora/MG Consultar no local

Guia de segurança e saúde para voluntários em áreas de inundação

Atuar na linha de frente de um desastre ambiental exige cuidados redobrados. A lama e a água das enchentes em Juiz de Fora e Ubá carregam sedimentos, esgoto e urina de animais, o que representa um alto risco biológico.

Proteção individual e prevenção de zoonoses

Seguindo os preceitos de Saúde Única, a proteção do voluntário é a primeira barreira contra surtos de doenças como a leptospirose. Ao manipular entulhos ou realizar limpeza, o uso de botas de borracha e luvas impermeáveis é indispensável. Caso não tenha acesso a luvas, utilize sacos plásticos duplos amarrados nas mãos. Evite qualquer contato direto da pele com a lama, especialmente se houver cortes ou arranhões.

Cuidados com a água e alimentos nos abrigos

A segurança sanitária nos pontos de apoio é vital para evitar surtos de doenças gastrointestinais. Consuma apenas água engarrafada ou fervida e oriente as famílias a fazerem o mesmo. Alimentos que tiveram contato com a água da chuva devem ser descartados imediatamente, mesmo que estejam em embalagens fechadas, devido ao risco de contaminação química e biológica.

Atenção aos animais peçonhentos

Com o desalojamento causado pelas águas, animais como escorpiões, aranhas e cobras buscam refúgio em locais secos, incluindo frestas de móveis e pilhas de roupas doadas. Ao organizar donativos ou limpar residências, nunca coloque as mãos em locais onde não possa ver o fundo. Utilize cabos de vassoura ou ferramentas para remexer materiais acumulados.

Eventos como este não são isolados e reforçam o alerta sobre a crise climática. O aquecimento global intensifica o ciclo hidrológico, transformando chuvas que seriam graduais em tempestades devastadoras.

A crise climática e a urgência da Saúde Única

Neste contexto, é fundamental destacar a importância do conceito de Saúde Única. Essa abordagem reconhece que a saúde humana, a saúde animal e a saúde do ambiente estão intrinsecamente ligadas. Desastres ambientais provocados pelo clima desequilibram esse ecossistema.

O excesso de água e lama facilita a propagação de doenças zoonóticas e infectocontagiosas (como leptospirose e arboviroses), contamina fontes de água potável e destrói habitats, afetando a fauna local e, consequentemente, a segurança sanitária das populações humanas. Olhar para a tragédia em Minas Gerais sob a ótica da Saúde Única é entender que a prevenção de futuras catástrofes exige o cuidado integrado com o planeta e todos os seus seres vivos.

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