Com a virada do calendário, muita gente resolve “mudar de vida” e faz metas para começar a meditar, treinar, dormir mais, organizar o tempo. Milhões de brasileiros iniciam o ano com promessas de mudança que, poucas semanas depois, já começam a ruir. Dados globais da plataforma Strava, analisados desde 2017, mostram que a maioria das pessoas abandona seus objetivos anuais por volta de 19 de janeiro, data conhecida como Quitter’s Day.

Um levantamento da Forbes Health, baseado em pesquisa com adultos nos Estados Unidos, mostrou que menos de 10% das pessoas conseguem manter suas metas por mais de três meses, e que a maioria abandona os objetivos ainda no início do ano.

O gap entre desejo e realidade pode ser maior do que se imagina. O relatório Global Emotions 2023, da Gallup, aponta que cerca de um terço da população mundial relata níveis elevados de estresse, especialmente no retorno às rotinas após períodos de pausa.  Esse ambiente emocional se intensifica em janeiro, quando metas ambiciosas e expectativas sociais ampliam a sensação de pressão interna.

Para o psicólogo Jair Soares dos Santos, fundador do IBFT e doutorando em Psicologia pela Universidade de Flores (UFLO), na Argentina, o início do ano costuma acionar gatilhos emocionais relacionados a desempenho e comparação.

A virada cria a ilusão de que tudo precisa recomeçar perfeito. O problema é que muitas metas são formuladas a partir de autocrítica, não de planejamento. Quando a pessoa percebe que não consegue sustentar o ritmo, ativa memórias antigas de inadequação”, afirma Jair Soares.

Expectativa alta e produtividade baixa

Embora o imaginário cultural trate janeiro como um ponto de partida, pesquisas mostram que o bem-estar emocional tende a cair justamente nesse período. Estudos da American Psychiatric Association (APA) revelam que grande parte dos entrevistados relata aumento de tensão no início do ano devido a obrigações financeiras, retorno ao trabalho e necessidade de reorganização de rotina.

A sobrecarga se amplifica quando metas são rígidas ou pouco realistas, como mudanças corporais rápidas, aumento brusco de produtividade ou reorganização completa da vida profissional em poucas semanas. “Quando a meta nasce da exigência e não do desejo real, ela se torna um gatilho emocional. O indivíduo tenta compensar sensações antigas de insuficiência, e não realizar um objetivo de fato”, avalia o psicólogo.

O peso emocional da comparação

Especialistas em comportamento apontam que a exposição constante a padrões idealizados, sobretudo nas redes sociais, intensifica a sensação de fracasso. Pesquisas da Harvard Business School mostram que a comparação excessiva reduz a motivação e amplia sentimentos de inadequação.

Soares destaca que a frustração não surge apenas pela quebra da meta, mas pela narrativa interna criada quando isso acontece. “Fracassar em janeiro costuma ser interpretado como falha pessoal. Mas, na maior parte das vezes, o erro está no modelo de metas, não na pessoa. É importante compreender essa diferença para evitar ciclos de desistência e culpa”, observa.

Como construir metas sustentáveis

A literatura acadêmica e a prática clínica apontam caminhos eficazes para reduzir a frustração e promover metas mais realistas. Entre eles:

  1. Reduzir o número de objetivos
    Pesquisas da Dominican University of California mostram que metas específicas e poucas têm maior taxa de cumprimento do que listas extensas.
  2. Considerar a disponibilidade emocional
    “Muitas metas ignoram o estado emocional atual da pessoa. Se a mente opera em alerta, qualquer plano vira mais uma fonte de pressão”, diz Soares.
  3. Reavaliar a meta ao longo do mês
    Ajustes periódicos evitam a sensação de falha definitiva e permitem calibrar expectativas.
  4. Entender o motivo real da meta
    Segundo o especialista, objetivos alinhados ao desejo genuíno têm maior chance de continuidade. “Quando a meta conversa com o que a pessoa realmente quer, e não com o que acha que deveria querer, o processo se torna mais leve.”

O corpo como termômetro da sobrecarga

Sintomas como irritabilidade, cansaço persistente e dificuldade de concentração, observados em pesquisas da OMS, são frequentes quando há excesso de autocobrança. Para Soares, ouvir esses sinais é essencial. “O corpo avisa quando a meta está ultrapassando o limite emocional. Esse é o momento de ajustar o plano e não de intensificar a cobrança”, orienta.

Entre o planejamento e o cuidado emocional

Para o psicólogo, o início do ano não deveria ser encarado como um teste de eficiência. “Metas são ferramentas, não julgamentos. O que adoece não é o objetivo, mas a lógica emocional que sustenta sua construção. Quando a pessoa entende que não precisa provar nada, nem para os outros, nem para si, o planejamento perde o peso que oprime e ganha o sentido que impulsiona”, conclui.

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Tecnologia baseada em IA e neurociência ganha espaço como aliada na construção de hábitos

Uso de dados cognitivos e aprendizado de máquina propõe alternativas à lógica da força de vontade na mudança de comportamento

A difícil equação começa a mudar com uma nova convergência entre inteligência artificial e neurociência, cuja aplicação prática já permite transformar intenções em hábitos, por meio de dados. Ao contrário das abordagens tradicionais, baseadas em força de vontade ou disciplina genérica, a aplicação de IA ao comportamento humano parte de dados reais sobre atenção, carga cognitiva e padrões mentais.

Sensores, registros fisiológicos e modelos de aprendizado de máquina permitem identificar quando o cérebro está mais propenso ao foco, ao cansaço ou à dispersão, informações-chave para criar rotinas que respeitam limites individuais.

Para o engenheiro da computação e líder técnico da Autonomic, startup que integra IA e neurociência, Gabriel Rodrigues, na maioria das vezes a construção de hábitos falha, porque as pessoas tentam repetir modelos que não consideram o funcionamento real do cérebro. “A tecnologia permite sair da ideia do ‘tente mais’ e entrar na lógica do ‘ajuste melhor’, usando dados para orientar pequenas mudanças no momento certo”, afirma.

Ele explica que, na prática, soluções baseadas em IA conseguem personalizar estímulos cognitivos, sugerir pausas estratégicas, reorganizar tarefas e adaptar treinos mentais conforme o desempenho observado. “Em vez de cobrar constância irrestrita, os sistemas aprendem com o usuário e ajustam o ritmo, reduzindo a frustração que normalmente leva ao abandono das metas”, completa.

Esse movimento ganha força em um contexto em que a tecnologia vem se consolidando como aliada do cuidado em saúde mental. Pesquisas recentes publicadas em periódicos científicos indicam que soluções digitais voltadas ao bem-estar psicológico já conseguem promover melhorias significativas em sintomas de ansiedade e estresse. De acordo com projeções da consultoria Mordor Intelligence, o segmento global de IA cognitiva deve mais que triplicar de tamanho, passando de cerca de US$ 33,8 bilhões em 2025 para aproximadamente US$ 110,4 bilhões até 2030.

Mas o engenheiro alerta que a proposta de uso da inteligência artificial no cuidado com a saúde mental e na mudança de comportamento exige critério e orientação técnica. Ele destaca que não se trata de recorrer a ferramentas genéricas e pedir respostas prontas, pois a IA não substitui o conhecimento clínico e neurocientífico. “Ela é uma ferramenta de apoio aos especialistas, potencializando diagnósticos, acompanhamentos e ajustes finos. É justamente essa mediação qualificada que transforma a tecnologia em um suporte de melhoria contínua, e não em mais uma promessa rápida fadada ao abandono”, frisa.

Para Gabriel, o diferencial da união de IA e neurociência orientada por especialistas está no foco em intervenções pequenas e consistentes, orientadas por dados, e não em mudanças radicais. É essa combinação que aumenta a chance de uma meta definida em dezembro ainda fazer parte da rotina em março, julho ou no fim do ano seguinte.

“No mundo da tecnologia, já entendemos que sistemas precisam de monitoramento contínuo para performar bem. O que está mudando agora é a aplicação dessa mesma lógica ao desempenho humano. Quando a IA ajuda a identificar sinais precoces de sobrecarga ou queda de atenção, ela contribui diretamente para hábitos mais sustentáveis e decisões melhores ao longo do tempo”, destaca.

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