Passado o Carnaval, muitas pessoas começam a se dedicar à Quaresma, que começa na Quarta-Feira de Cinzas. O período de 40 dias é um momento em que o consumo de pescados ganha um significado cultural. Muitos católicos fazem a troca da carne pelo peixe, seja por motivos religiosos ou de saúde. A tradição é histórica na cultura brasileira, mas em 2026 a preferência pelo peixe também reflete uma mudança estrutural nos hábitos de consumo.
No entanto, em 2026, essa transição de hábito não é apenas uma questão de tradição, mas o reflexo de uma mudança estrutural no comportamento do consumidor brasileiro. observada ao longo do último ano. Dados recentes da Scanntech, empresa de inteligência de dados para o varejo e indústria de bens de consumo, revelam que o volume de peixes consumidos cresceu 8,2% entre janeiro e setembro de 2025, consolidando o pescado como uma alternativa nutricional na mesa do brasileiro.
O consumo de peixes, muito além da tradição da Quaresma, do sabor e da versatilidade na cozinha, é uma poderosa estratégia para promover saúde e bem-estar. Ricos em proteínas de alta qualidade, ômega-3, vitaminas e minerais essenciais, os peixes se destacam como um dos alimentos mais completos e recomendados por nutricionistas ao redor do mundo.
O peixe é o novo superalimento? Descubra os benefícios que você não sabia
Segundo Cintya Bassi, coordenadora de Nutrição e Dietética do São Cristóvão Saúde, incluir peixes no cardápio pelo menos duas vezes por semana pode trazer benefícios significativos, especialmente para o coração e o cérebro.
Comer peixe é investir em saúde de forma saborosa e acessível. Variar o tipo e o preparo garante uma dieta equilibrada, rica em nutrientes essenciais para o corpo e a mente” afirma a especialista.
Peixes como salmão, sardinha, cavala e atum são fontes excepcionais de gorduras boas que reduzem inflamações, melhoram a memória e ajudam a prevenir doenças cardiovasculares. “Além disso, peixes são mais fáceis de digerir do que outras carnes, sendo uma excelente escolha para todas as idades”, explica Bassi.
O que muitos não sabem é que essa mudança na dieta pode trazer benefícios para quem busca controlar o diabetes, especialmente por conta dos ácidos graxos ômega-3 e outros nutrientes presentes no peixe, que ajudam a melhorar a saúde metabólica.
Quanto comer e com que frequência?
A recomendação nutricional é clara: consumir entre 100g e 150g de peixe por refeição, duas vezes por semana, já é o suficiente para garantir os benefícios associados ao seu consumo. “A dica é priorizar espécies com alto teor de ômega-3, como o salmão, sardinha, cavala, atum e arenque”, explica Cintya Bassi.
Já a nutricionista Fernanda Nascimento Hermes, e coordenadora de nutrição da Afya São João Del Rei, explica que o consumo ideal de peixe por semana seria em torno de três vezes. Contudo, para quem não tem o hábito de incluir esse alimento nas refeições, consumi-lo ao menos uma vez por semana já garante benefícios à saúde.
Sempre indicamos formas de preparo como assado ou grelhado, utilizando pouco óleo. Preparações fritas podem levar à perda de parte dos nutrientes, além do acréscimo de gordura proveniente da fritura, o que pode trazer prejuízos à saúde”.
| Calorias | Proteína (g) | Ômega 3 (mg) | Mercúrio (ug) | |
| Salmão | 200 | 22 | 2000-4000 | 20 |
| Pescada | 90 | 21 | 200-400 | 30 |
| Cavala | 180 | 20 | 2500-5000 | 70-150 |
| Atum (enlatado ou fresco) | 130 | 23 | 300-500 | 150-300 |
| Sardinha | 180 | 24 | 1200-2200 | 15 |
| Tilápia | 110 | 21 | 150-250 | 10 |
Qual a melhor opção para a mesa do brasileiro?
A nutróloga da Afya Educação Médica Montes Claros (MG), Juliana Couto Guimarães, explica que existem diferenças nutricionais relevantes entre as espécies de peixes, especialmente em relação ao teor de ácidos graxos ômega-3, fundamentais para a saúde cardiovascular e cerebral.
Os chamados peixes gordos ou de água fria são mais ricos em EPA e DHA, que são as formas biologicamente ativas do ômega-3”, destaca. Entre eles estão salmão, sardinha, atum, cavalinha e arenque. Por outro lado, espécies como tilápia, pescada e linguado apresentam menor teor de ômega-3, embora continuem sendo boas fontes de proteína de alto valor biológico, além de vitaminas e minerais importantes”.
Ao considerar qualidade nutricional, custo e acessibilidade no contexto brasileiro, a especialista aponta a sardinha como uma das melhores escolhas. “Além de ser rica em ômega-3, a sardinha também fornece cálcio, especialmente quando consumida com a espinha, e vitamina D. Outro ponto positivo é o menor risco de contaminação por metais pesados, quando comparada a peixes de grande porte”, explica a nutróloga da Afya.
Apesar de todos os benefícios, Bassi faz o alerta: “é essencial ficar atento à exposição ao mercúrio, um metal pesado presente em alguns peixes de águas profundas ou espécies predadoras”. O consumo frequente e em grandes quantidades pode causar danos ao sistema nervoso, rins e fígado, especialmente em crianças e gestantes. Por isso, deve-se variar os tipos de peixe consumidos e dar preferência às espécies com menor teor de mercúrio.
Diferenciais das principais espécies consumidas no Brasil
| Peixe | Benefícios nutricionais | Melhores formas de preparo |
| Sardinha | Rica em ômega-3, cálcio (com espinha), vitamina D e B12, baixo teor de mercúrio | Patês, grelhada, assada, no vapor |
| Atum (enlatado ou fresco) | Fonte de proteína magra, selênio e ômega-3, prático e saciante | Em saladas, patês, grelhado (evitar consumo excessivo por causa do mercúrio) |
| Tilápia | Baixo teor de gordura, boa fonte de proteína e fósforo | Grelhada, assada, cozida |
| Salmão | Altamente nutritivo: rico em ômega-3, vitamina D, B12 e antioxidantes como a astaxantina | Grelhado, assado, defumado |
| Pescada | Leve, de sabor suave, rica em proteína magra, selênio e vitamina B12 | Grelhada, assada, cozida ou em caldeirada |
| Cavala | Rico em ômega-3, selênio, vitaminas D e B12; escolher espécies com menor teor de mercúrio | Assada, grelhada, em conserva |
Aumenta o consumo de peixes no Brasil
Região Norte é a maior consumidora de carnes e pescados no país; alimento costuma ficar em alta no período da quaresma
De acordo com a Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) o pescado já representa mais da metade (51%) do consumo global de proteínas de origem animal e que a produção mundial ultrapassou 185 milhões de toneladas, com a aquicultura respondendo por mais da metade desta oferta.
Desde os anos 1960, o consumo per capita passou de cerca de 9,1 quilos para 20,7 quilos por habitante ao ano em 2022, e a expectativa é de que até 2030 o mundo precise de mais 24 milhões de toneladas de pescado por ano para atender à demanda crescente, segundo estimativas do IFC Brasil 2025.
Segundo a Pesquisa de Orçamentos Familiares de 2018 (POF), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a região Norte é a maior consumidora de carnes e pescados, com taxa equivalente a 27,1%, valor que ultrapassa a porcentagem nacional, de 20,2%.
Benefícios dos peixes típicos da Região Norte
A nutricionista Fernanda Bezerra, que atua no Hospital Bom Pastor, em Guajará-Mirim (RO), destaca os benefícios para a saúde do consumo de peixes característicos da região, e orienta para sua conservação e preparo. Segundo ela, a inclusão de peixes na dieta previne doenças cardíacas, faz bem para o cérebro e fortalece o sistema imunológico”.
Dentre os peixes mais abundantes estão o pirarucu, tambaqui e tucumaré. Além de ser rico em proteínas, vitaminas, e fósforo, o pirarucu também é fonte de ômega 3, e possui propriedade antioxidante.
O ômega 3 reduz o colesterol ruim e aumenta o colesterol bom, impedindo o acúmulo de gordura nas artérias. Ao mesmo tempo, seu antioxidante natural protege as veias do envelhecimento e reduz as células cancerígenas. Estudos indicam, ainda, que a pele do peixe é rica em colágeno”, ressalta Fernanda.
Já o tambaqui, peixe com alta demanda no local, é rico em proteína e pode auxiliar no processo de emagrecimento, pois o consumo resulta na melhoria do transporte de nutrientes para a célula, movimento importante para o desenvolvimento e manutenção da saúde.
Diferente dos outros peixes, o tucumaré é uma fonte de potássio que favorece diversas funções internas do corpo. “O potássio beneficia o equilíbrio e manutenção de funções corporais básicas, como o processo metabólico, impulsos nervosos e contração dos músculos”, destaca a nutricionista.
Tanto o tambaqui, quanto o tucumaré, são peixes que podem ser servidos assados com farinha como acompanhamento. Já o pirarucu possui a carne rosada com sabor suave, por isso, pode ser servido cru, marinado em suco de limão ou, até mesmo, como uma moqueca ou caldeirada.
Dicas de conservação e preparo
O principal ponto de atenção em relação ao consumo de peixe é a conservação correta do alimento, essencial para a saúde e também para a produção de uma boa receita. Neste período do ano, os pescados costumam ganhar protagonismo nas refeições, principalmente entre os católicos, por conta da quaresma.
O congelamento é a principal forma para manter a validade, preservando suas propriedades. “Entretanto, nem todas as pessoas possuem refrigeradores. Neste caso, uma opção é utilizar a desidratação. A técnica consiste em remover a umidade da carne a partir da inserção do sal”, explica Fernanda.
Para garantir o consumo seguro, é importante ficar atento às características do alimento. Confira algumas orientações do que observar:
– odor próprio e agradável;
– brânquias avermelhadas;
– escamas brilhantes e bem aderentes à pele;
– olhos claros, vivos e transparentes;
– superfície do corpo limpa, sem pigmentações estranhas, escurecidas ou esverdeadas.
Curiosidade
Por que não comer carne vermelha na Sexta-Feira Santa?
Todos os anos, depois do carnaval, aqueles que seguem a religião católica passam 40 dias em reflexão e jejum, relembrando os 40 dias que Jesus Cristo passou no deserto antes de sua morte e ressurreição. A Quaresma, como o período é chamado, também é uma forma de lembrar dos 40 anos durante os quais Moisés guiou seu povo rumo à Terra Prometida. Esse período acaba na Páscoa, com a grande festa que comemora a vitória da vida sobre a morte. Mas, se é uma festa, então por que, na Sexta-Feira Santa, os católicos evitam comer carne vermelha?
De acordo com a doutrina católica, a prática do jejum tem uma série de objetivos para a vida de quem a adota. Na Quarta-Feira de Cinzas, quando a Quaresma começa oficialmente, uma das palavras lidas na missa é justamente “ordenai um jejum” (cf. Jl 1,14). Essa é, por exemplo, uma forma de se solidarizar com a prisão, tortura e crucificação de Cristo. Por isso, muitos católicos costumam fazer algum tipo de jejum até mesmo fora do período da Quaresma, normalmente abdicando de um ou mais tipos de alimento ou passando determinados períodos do dia sem se alimentar.
Nesse sentido, não comer carne vermelha seria uma forma de demonstrar solidariedade e respeito a Jesus. A coordenadora pedagógica para escolas confessionais conveniadas ao Sistema Positivo de Ensino, Lúzia Martins, explica que “a renúncia da carne nos lembra de que é o Espírito que vivifica a carne, não o contrário. A carne, nesse caso, deve estar ou ser submetida ao Espírito, para ser carne de verdade. Caso contrário, se corrompe. Deixar de comer carne é um exercício material, concreto na quaresma para lembrar o homem dessa realidade transcendente na sua relação com o Sagrado”.
Mas, na religião católica, o jejum na Quarta-Feira de Cinzas e na Sexta-Feira Santa é mais que apenas uma sugestão. Segundo o Código de Direito Canônico, nesses dias é obrigatório abdicar da carne ou de outro alimento que traga prazer ao fiel. “Cân. 1251: Observe-se a abstinência de carne ou de outro alimento, segundo as prescrições da Conferência dos Bispos, em todas as sextas-feiras do ano, a não ser que coincidam com algum dia enumerado entre as solenidades; observem-se a abstinência e o jejum na Quarta-feira de Cinzas e na Sexta-feira da Paixão e Morte de Nosso Senhor Jesus Cristo.”
No entanto, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) permite que se substitua a abstinência de carne por um ato de piedade, uma obra de caridade ou a substituição da carne por outro alimento. “Em relação à abstenção de alimentos ou troca de algum deles, tudo depende daquilo que a pessoa mais gosta. Se, por exemplo, sou fascinada por chocolate e não consigo ficar sem comer um dia sequer, posso fazer jejum disso, em vez da carne. O mesmo vale para outros doces, café, cigarro, álcool e daí por diante”, afirma Lúzia.
Com Assessorias







