O impacto das desigualdades socioeconômicas no Brasil começa muito antes do que se imagina. Um estudo brasileiro inédito, conduzido por pesquisadores da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e publicado na revista científica Acta Psychologica, traz um alerta preocupante: bebês que vivem em condições de pobreza apresentam atrasos no desenvolvimento motor logo aos seis meses de vida.

O trabalho, apoiado pela Fapesp, acompanhou 88 bebês dos três aos oito meses de idade no interior de São Paulo. De acordo com a pesquisadora Carolina Fioroni Ribeiro da Silva, o estudo constatou que crianças em situação de vulnerabilidade não apenas demoram mais para atingir os chamados marcos motores do desenvolvimento, que são movimentos básicos como agarrar objetos, virar o corpo e sentar, em comparação com aquelas que vivem em melhores condições financeiras.

Esses bebês apresentam um “repertório menor de movimento. Eles repetem sempre a mesma estratégia para pegar um brinquedo, por exemplo”, explica Carolina.

O ciclo da desigualdade e os reflexos no aprendizado escolar

A investigação acende um sinal amarelo para as políticas de inclusão. A falta de recursos e de estímulos adequados na primeiríssima infância pode gerar consequências a longo prazo, como dificuldades na vida escolar, transtorno do déficit de atenção (TDAH) e transtornos de coordenação.

Para a professora da UFSCar, Eloisa Tudella, orientadora da pesquisa, esses atrasos sutis podem ter efeitos em cascata. “Evidências indicam que atrasos motores leves no primeiro ano de vida podem influenciar o desenvolvimento global e se associar a problemas comportamentais na idade escolar, incluindo TDAH e transtornos da coordenação”, afirma.

Meninos são mais prejudicados, diz pesquisa

O cenário reflete a profunda desigualdade social no Brasil, onde fatores como o “caos doméstico” — residências com muitos adultos e pouco espaço físico seguro — impedem que a criança explore o ambiente.  O estudo identificou que, em lares mais pobres, os bebês passam mais tempo confinados em carrinhos, o que limita o fortalecimento muscular.

Um dado surpreendente da pesquisa foi que o sexo masculino apresentou um risco 2,57 vezes maior de desenvolvimento motor atípico em contextos de pobreza. Segundo as pesquisadoras, bebês do sexo masculino podem ser biologicamente mais suscetíveis a processos inflamatórios que, somados a ambientes pouco estimulantes, ampliam o risco de atraso

A importância do suporte profissional na inclusão social

A pesquisa destacou que muitas mães em situação de pobreza são adolescentes e carecem de informação sobre como estimular seus filhos. A sobrecarga de mães solo e a baixa escolaridade materna aparecem como fatores que dificultam o tempo de qualidade dedicado ao brincar.

O estudo utilizou o Infant Motor Profile (IMP), uma metodologia inovadora que analisa a fluidez e a variação dos movimentos, permitindo identificar riscos precocemente sem a necessidade de exames caros, como ressonâncias magnéticas.

Ciência e políticas públicas de inclusão

Para os especialistas, a solução passa por fortalecer a rede de apoio. Nestes casos, a presença de agentes de saúde e fisioterapeutas por meio de visitas domiciliares é determinante para romper o ciclo da exclusão.

Como não é possível eliminar de imediato fatores estruturais como a pobreza, programas de acompanhamento domiciliar com agentes de saúde e fisioterapeutas seriam ótimos paliativos“, defende Carolina Silva.

Garantir que a informação chegue às famílias vulneráveis é o primeiro passo para que a primeira infância brasileira seja vivida com dignidade e equidade. No Brasil, políticas de apoio à primeira infância mostram-se essenciais para garantir que a origem socioeconômica não dite o potencial de desenvolvimento de um cidadão.

Globalmente, o desafio é hercúleo. Segundo o relatório “Situação Mundial das Crianças 2025” do Unicef, cerca de 400 milhões de crianças vivem na pobreza no mundo, enfrentando privações que comprometem diretamente sua saúde e bem-estar futuro.

Práticas simples e gratuitas podem reverter o atraso

A boa notícia é que o atraso não é uma sentença definitiva e pode ser corrigido rapidamente sem custos financeiros. Aos oito meses, os bebês avaliados que receberam estímulos adequados já não apresentavam problemas significativos.

Aos oito meses, os bebês avaliados que receberam estímulos adequados já mostravam recuperação. A reversão foi atribuída diretamente ao engajamento das mães (em sua maioria adolescentes), que aplicaram orientações simples transmitidas pelas pesquisadoras.

Não são necessários brinquedos caros, apenas orientação”, reforça Caroline Fioroni, autora do estudo da UFSCar.

Entre as práticas recomendadas pais e cuidadores para promover a inclusão e o desenvolvimento pleno dos bebês estão:

  • Tummy Time: Colocar o bebê de barriga para baixo (com supervisão) para fortalecer pescoço, ombros e costas.

  • Brinquedos improvisados: O uso de objetos do cotidiano, como papel presente amassado (pelo som e textura)  ou chocalhos de garrafa PET com grãos, estimula a motricidade fina.

  • Chão é vida: O chão, quando seguro, é o melhor espaço para o bebê rolar, engatinhar e se descobrir.

  • Interação constante: Cantar, ler livros e conversar com o bebê são ferramentas poderosas de de estímulo cognitivo e motor, neuroplasticidade.

  • Presença familiar: O estudo apontou que a coabitação dos pais e a maior escolaridade materna são fatores de proteção essenciais.

Com informações da Agência Fapesp e Agência Brasil

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