O racismo ainda é uma realidade no Brasil e atinge também as crianças até os 6 anos de idade. É o que apontaram 63% dos responsáveis na pesquisa nacional “Panorama da Primeira Infância: o impacto do racismo”, realizada em 2025.

O levantamento do Datafolha aponta que creches e pré-escolas são os ambientes mais citados em que crianças já sofreram racismo, mencionados por 54% dos cuidadores, e 16% afirmam que suas crianças já sofreram discriminação.

Outra pesquisa realizada em 2023 pelo Ipec, Instituto de Referência Negra Peregum e Projeto Seta revelam que o ambiente escolar foi o local apontado por 64% dos brasileiros entre 16 e 24 anos como o lugar onde mais sofrem racismo.

Para a psicopedagoga e escritora infantil Paula Furtado, as pesquisas mostram o quanto é preciso estar atento desde cedo e dialogar com as crianças e jovens com cuidado e transparência sobre o tema.

O racismo não nasce com as crianças, ele é aprendido”, diz ela. Por isso, o ambiente escolar deve ser um espaço de acolhimento, representatividade e escuta. “O olhar do educador é fundamental para intervir, orientar e transformar atitudes. Cada palavra, cada personagem, cada desenho que aparece na sala de aula pode reforçar estereótipos ou abrir caminhos de pertencimento”, afirma.

Esses dados ganham mais força neste Dia Internacional de Luta pela Eliminação da Discriminação Racial (21 de março), uma oportunidade de discutirmos problemas que afetam a população negra e brasileira em decorrência do preconceito e como estamos educando as nossas crianças.

Compreender essa data vai além do combate ao racismo, envolve reconhecer a história, a cultura e o legado da população negra no Brasil. “É importante ensinar que o racismo acontece quando alguém é tratado com menos respeito por causa da cor da pele, e isso é errado. Todas as pessoas merecem ser valorizadas e respeitadas pelo que são”, enfatiza.

Segundo ela, a educação para a igualdade tem início no ambiente familiar e se fortalece na escola. “Quando caminham juntas, a criança percebe coerência entre o que escuta e o que vê. Em sintonia, essa responsabilidade compartilhada transforma valores em atitudes cotidianas, no brincar, no falar e no olhar para o outro”, explica.

Colégio no Rio é condenado por omissão no combate ao racismo

O racismo nas escolas vai além da primeira infância e se perpetuam até o Ensino Médio. Felizmente, cada vez mais esses casos ganham visibilidade e resultam em punições. No final de janeiro deste ano,  uma escola da zona sul carioca foi condenada a pagar indenização de R$ 80 mil por danos morais coletivos, após alunos praticarem insultos raciais contra uma colega de turma e promoverem manifestações discriminatórias contra a população negra em um aplicativo de mensagens.
De acordo com a ação civil pública, movida em 2020 pela pela 3ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva de Proteção à Educação da Capital, o  Colégio Liceu Franco-Brasileiro, em Laranjeiras, deixou de adotar providências imediatas e adequadas diante dos episódios. A decisão da 7ª Câmara de Direito Privado do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ-RJ) reformou sentença da 1ª Vara da Infância, da Juventude e do Idoso e reconheceu que houve falhas na prevenção e no enfrentamento de práticas racistas no ambiente escolar.

Não foi uma ‘brincadeira boba’

No voto que conduziu o julgamento, o desembargador relator Sergio Wajzenberg destacou que a prova produzida no processo, incluindo depoimentos da vítima, de seu pai e de representantes da escola, revelou não apenas os fatos ocorridos em 2020, mas também a repetição de condutas discriminatórias ao longo dos anos, sem resposta institucional eficaz. Para o magistrado, ficou caracterizada a responsabilidade da instituição de ensino.
Em um dos trechos do voto, o relator ressaltou o despreparo da escola no enfrentamento do caso. “É notável a minimização inicial da gravidade dos fatos pela diretora, que classificou o episódio como ‘brincadeira boba’, assim como o relato do pai da vítima sobre a tentativa da escola de persuadi-lo a ‘esquecer as coisas’. Tais circunstâncias evidenciam a falha no acolhimento e no dever de proteção integral”, afirmou, ao reconhecer a responsabilidade civil objetiva do colégio.
Além da indenização, o colégio foi obrigado a adotar medidas institucionais voltadas ao combate ao racismo, segundo a nota do  Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ). O Franco Brasileiro deverá apurar internamente denúncias de práticas discriminatórias, oferecer suporte pedagógico e psicossocial às vítimas, criar um comitê de diversidade e inclusão e inserir, em seu projeto pedagógico, diretrizes formais de promoção da igualdade racial e de combate à discriminação, entre outras medidas.

Escola cria Guia de Enfrentamento ao Racismo

Escola Gracinha conta com o Guia de Enfrentamento ao Racismo, documento que orienta educadores, funcionários, estudantes e famílias sobre o tema. De acordo com o Grupo Guardião, coletivo que impulsiona a pauta antirracista na escola, a iniciativa reforça valores essenciais da comunidade e orienta sobre como agir diante de casos de injúria racial ou racismo, independentemente de envolverem crianças, adolescentes ou adultos.

Nosso objetivo vai além de reagir aos episódios de racismo. Entendemos que esse documento não resolverá todos os nossos problemas, mas, com ele, queremos prevenir, educar e desnaturalizar atitudes racistas dentro e fora da escola, promovendo o respeito e o reconhecimento da diversidade em nosso convívio cotidiano”, explica o grupo organizador.

O guia apresenta uma abordagem ampla sobre o enfrentamento ao racismo no ambiente escolar. Para isso, conceitua o tema e seu contexto histórico, descreve a estrutura de acolhimento e encaminhamento disponível, orienta sobre como denunciar casos, detalha os processos de tratamento das ocorrências e estabelece formas de acompanhamento e aprimoramento contínuo das ações.

Ainda dentro do tema, a escola promoveu clubes de leitura, palestras, aulas, cursos, colóquios e eventos voltados à comunidade escolar.. “Temos revisado o currículo da escola, inserindo referências negras e indígenas em todas as áreas de conhecimento. Como parte desse processo, também ampliamos o acervo da biblioteca”, comenta o grupo.

Experiências escolares

O compartilhamento de experiências entre escolas também é considerado essencial nesse caminho de enfrentamento ao racismo. Um exemplo é o bate-papo Construções de Guias de Enfrentamento ao Racismo: Experiências Escolares”, liderado pela coordenadora de Equidade e Antirracismo Pedagógico do GracinhaAline Gama, que reúne colégios para reflexão e aprendizado coletivo.

No encontro, é apresentada a trajetória da própria escola, com destaque para práticas formativas voltadas à construção de uma educação comprometida com a justiça social e o combate às desigualdades.

Mantemos um compromisso contínuo com a educação antirracista. As ações buscam enfrentar de forma concreta as diversas manifestações de violência racial e garantir formação constante aos profissionais da instituição, fortalecendo uma cultura escolar baseada no respeito, na equidade e na convivência ética”, finaliza Aline.

Como as experiências lúdicas podem ajudar

Para que o combate ao racismo não seja pontual, mas faça parte do cotidiano escolar, a psicopedagoga e escritora infantil Paula Furtado (foto), que também é contadora de histórias, destaca o papel das experiências lúdicas no aprendizado dos pequenos.

Contos, livros, brincadeiras, cartazes, músicas e atividades que tragam personagens negros em diferentes papéis e profissões são excelentes portas de entrada. Quando contamos histórias com protagonistas diversos, principalmente os africanos, falamos sobre cabelos, tons de pele e tradições culturais, naturalizamos a diversidade”, ressalta.

Ela acrescenta que a arte, seja no desenho, na música, no teatro ou na leitura, cria espaços de reflexão e empatia. Além disso, promover rodas de conversa, projetos interdisciplinares e vivências com diferentes expressões culturais amplia o olhar da turma.

Ao utilizar livros com personagens que se sentem diferentes e conversar sobre sentimentos de exclusão e aceitação, a compreensão do preconceito começa a surgir pela via da emoção, e as crianças e adolescentes percebem como é importante tratar cada pessoa com cuidado e empatia”, analisa a psicopedagoga.

Abordar o racismo, não apenas neste dia, é importante porque as crianças e adolescentes passam a entender mais sobre a discriminação racial e suas consequências. Eles se mostram mais atentos a situações de injustiça, aprendem a valorizar as diferenças e a acolher o outro com respeito.

Para crianças negras, esse processo fortalece a autoestima, já que se sentem representadas e orgulhosas de sua história e beleza. Isso contribui para que elas se vejam como parte importante da sociedade”, reforça a especialista em educação.

Com Assessorias

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