A morte cerebral do estudante Rodrigo Helbingen Fleury Castanheira, de 16 anos, confirmada no último sábado (7) após 16 dias de internação, não é apenas um caso isolado de violência urbana no Distrito Federal. O episódio, que culminou na prisão do ex-piloto de Fórmula Delta e empresário Pedro Arthur Turra Basso, de 19 anos, expõe uma ferida aberta na sociedade brasileira: a crescente banalização da agressividade entre jovens e a desconexão emocional diante do sofrimento alheio.

A confusão teria começado por um motivo banal na saída de uma festa. Durante a briga, Rodrigo foi golpeado, caiu e bateu a cabeça contra um veículo, o que causou traumatismo craniano severo. Ele estava internado em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital de Brasília em Águas Claras desde o dia 23 de janeiro. O corpo foi velado na Igreja Batista Capital e enterrado no Cemitério Campo da Esperança, em Brasília, nesta segunda-feira, dia 9 de fevereiro.

O caso ganhou repercussão nacional. Inicialmente, acreditava-se que a briga teria sido motivada pelo lançamento de um chiclete contra a vítima, mas o advogado do adolescente, Albert Halex, tem defendido em entrevistas à imprensa que a briga foi motivada por ciúmes envolvendo uma ex-namorada do amigo do agressor.

O papel central da família e o limite necessário

A gravidade do comportamento do agressor e a passividade observada em outros casos recentes — como o de uma adolescente que assistiu ao afogamento de uma criança sem prestar socorro e o dos adolescentes envolvidos na morte do cão Orelha em Praia Brava (SC) — acendem um alerta vermelho para pais, educadores e especialistas em saúde mental sobre o processo de formação moral desses jovens.

De acordo com a psicóloga clínica e jurídica Andreia Calçada, perita do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, a formação do caráter e da empatia depende diretamente da mediação dos adultos. Em uma fase onde o cérebro ainda está desenvolvendo a noção de consequência, a ausência de limites claros pode ser desastrosa.

A falta de limites desde cedo é um dos principais fatores de risco. A criança precisa aprender que seus atos têm consequências e que machucar o outro não é aceitável. Esse aprendizado ocorre pelo exemplo e pela postura firme e afetiva dos pais”, explica a especialista.

Segundo ela, quando não há mediação dos adultos, essas referências passam a vir do ambiente externo, muitas vezes violento e indiferente. “O resultado é uma geração que ri da violência ou não sente absolutamente nada diante dela”, afirma a especialista em artigo sobre o tema (veja abaixo).

O impacto das redes sociais e a naturalização da dor

Outro ponto crítico abordado por especialistas é o monitoramento do ambiente digital. A exposição constante a conteúdos violentos e narcisistas nas redes sociais pode naturalizar a dor do outro. Vídeos de agressões circulam livremente, acumulando curtidas e comentários em tom de deboche, o que acaba por naturalizar o sofrimento.

Para a psicologia, o acompanhamento do que o jovem consome na internet não é controle excessivo, mas sim cuidado fundamental para evitar que referências narcisistas e violentas substituam os valores familiares.

Em relação ao recente caso em Santa Catarina onde adolescentes mataram um cão de forma cruel, a ciência já comprova que a violência contra animais na infância e adolescência é, frequentemente, um “evento sentinela” — um indicador precoce de transtornos de conduta e uma predisposição à violência interpessoal. Ignorar a crueldade contra seres sencientes é ignorar um sintoma grave de que o ambiente social e o desenvolvimento emocional do jovem estão comprometidos, colocando em risco toda a comunidade.

Sinais de alerta e a responsabilidade coletiva

A agressividade não deve ser tratada como uma “fase” passageira. Pais devem estar atentos a comportamentos que surgem precocemente e que podem escalar para situações mais graves. Para evitar que novas tragédias ocorram, é preciso que pais, educadores e o Estado ajam preventivamente. Alguns sinais de alerta que não devem ser ignorados incluem:

  • Problemas de comportamento na escola: Brigas frequentes e desrespeito sistemático a regras,

  • Falta de remorso após atos de desrespeito: Indiferença ou riso diante do sofrimento de colegas ou animais.

  • Episódios de agressividade com colegas ou animais;
  • Consumo excessivo de conteúdo violento sem supervisão.
  • Isolamento ou grupos violentos: Mudanças bruscas nas amizades e adesão a grupos que exaltam a força física.

A intervenção precoce, por meio de acompanhamento psicológico e políticas públicas que ofereçam suporte multidisciplinar nas escolas, além do diálogo aberto dentro de casa, são as ferramentas mais eficazes para formar adultos emocionalmente saudáveis e responsáveis e para reverter essa curva de desumanização.

A trágica cronologia de um conflito fútil

O crime ocorreu em janeiro e, inicialmente, foi atribuído a uma discussão banal por causa de um chiclete. No entanto, investigações apontam que a motivação real estaria ligada a ciúmes envolvendo uma ex-namorada de um amigo do agressor. Pedro Turra, que já havia sido liberado mediante pagamento de fiança de R$ 24 mil e e passou a ser responder ao inquérito por lesão corporal em liberdade.

No entanto, ele voltou à prisão em 30 de janeiro após a polícia reunir provas de seu envolvimento em outros atos violentos, incluindo o uso de um taser (arma de choque) contra uma adolescente de 17 anos para forçá-la a  a ingerir bebida alcoólica durante uma festa.

Na última quinta-feira (5), o presidente do Superior Tribunal de Justiça (STJ), ministro Herman Benjamin, negou habeas corpus protocolado pela defesa de Pedro Turra. Com isso, ele deve continuar preso preventivamente no Complexo Penitenciário da Papuda. Com a morte da vítima, o crime, inicialmente investigado como lesão corporal, pode ser reclassificado para homicídio pelo Ministério Público do DF.

No pedido de habeas corpus, a defesa de Turra contestou a decretação da prisão pela primeira instância e afirmou que o piloto tem residência fixa, não tentou fugir e colaborou com as investigações. Segundo os advogados, Turra foi preso a partir de vídeos publicados na internet, sem contraditório e validação judicial. Além disso, a defesa disse que o acusado teme por sua segurança diante da exposição midiática do caso. Por conta das supostas ameaças, ele está preso em uma cela individual na Papuda.

Comoção em todo o país

Por meio de nota oficial enviada pelos advogados, a família de Pedro Turra declarou que “lamenta profundamente o falecimento de Rodrigo Castanheira” e manifestou condolências aos parentes do jovem “Neste momento de imensa dor, nos unimos aos pais, familiares e amigos, expressando nossas mais sentidas condolências e desejando que encontrem amparo, conforto e força para atravessar este período de luto”, diz a nota.

A vice-governador do DF, Celina Leão,  também lamentou a morte do adolescente. “A partida precoce de um jovem fere não apenas quem o amava, mas toda a sociedade”, comentou em uma rede social. O Colégio Vitória Régia, no qual ele estudava, informou nas redes sociais que foi confirmada a morte cerebral do adolescente, que “deixa uma história, marcas de afeto e memórias que permanecerão vivas entre nós”.

O Grupo de Escoteiro Águas Claras, do Distrito Federal, também lamentou a partida do jovem.  “É com muita tristeza em nossos corações que comunicamos o falecimento do jovem Rodrigo, antigo membro do Grupo Escoteiro Águas Claras”, disse o grupo em suas redes sociais.

Palavra de Especialista

 O que está acontecendo com nossas crianças e adolescentes?

Por Andreia Calçada*

Os últimos acontecimentos envolvendo violência praticada por adolescentes e jovens no Brasil acendem um alerta que não pode mais ser ignorado. Em Santa Catarina, adolescentes mataram um cachorro de forma cruel. Em outro caso, um jovem de 19 anos espancou um adolescente de 16, supostamente por causa de um chiclete. Em mais um episódio estarrecedor, uma adolescente de 15 anos assistiu passivamente enquanto uma menina de 11 se afogava, sem pedir ajuda ou demonstrar qualquer reação.

O que esses episódios têm em comum não é apenas a idade dos envolvidos, mas a banalização da violência e a ausência de empatia, sinais claros de que algo está profundamente errado no processo de formação emocional e moral dessas crianças e adolescentes.

Do ponto de vista psicológico, não se trata de um fator isolado. Existe um conjunto de fatores sociais, familiares, culturais e políticos que contribuem para esse cenário. Crianças estão cada vez mais expostas a cenas de violência, seja dentro de casa, na comunidade ou, principalmente, nas redes sociais. Vídeos de agressões circulam livremente, acumulam milhares de curtidas e comentários, muitas vezes em tom de deboche. Essa exposição constante acaba naturalizando o sofrimento do outro.

É importante lembrar que o cérebro da criança e do adolescente ainda está em formação. Os valores morais, a noção de consequência e a capacidade plena de empatia continuam sendo construídos. Quando não há mediação dos adultos, seja por ausência física, desestrutura familiar ou falta de preparo emocional, essas referências passam a vir do ambiente externo, muitas vezes violento, narcisista e indiferente à dor alheia. O resultado é uma geração que ri da violência ou, pior, não sente absolutamente nada diante dela.

O papel dos pais e os limites nas redes sociais

A família tem um papel central nesse processo. O acompanhamento dos pais é fundamental, inclusive quando a criança apresenta algum comportamento agressivo inicial. Em muitos casos, esses sinais são minimizados ou até autorizados pelos próprios responsáveis. A falta de limites desde cedo é um dos principais fatores de risco. A criança precisa aprender, ainda pequena, que seus atos têm consequências, que podem machucar o outro, e que isso não é aceitável. Esse aprendizado ocorre pelo exemplo, pela interação diária e pela postura firme e afetiva dos pais.

Outro ponto crítico é o monitoramento das redes sociais. Saber com quem a criança anda, o que consome na internet, os horários que cumpre, quem são seus amigos e as famílias desses amigos não é controle excessivo, é cuidado. Regras e limites precisam ser colocados desde cedo para serem internalizados. Quando isso falha dentro da família, a escola sozinha não dá conta e ainda mais em um contexto em que professores também sofrem agressões e desrespeito.

Sinais de alerta da violência juvenil

Os sinais de alerta costumam aparecer cedo: problemas de comportamento na escola, brigas frequentes, agressividade com colegas, desrespeito dentro de casa. Nada disso deve ser tratado como “fase” ou “coisa de criança”. Com o tempo, esses comportamentos tendem a se intensificar, levando a envolvimento com drogas, violência mais grave e relações marcadas pela agressividade. Quanto mais cedo houver intervenção, inclusive com acompanhamento psicológico, maiores são as chances de reversão.

A violência contra animais merece atenção especial. A psicologia aponta que a crueldade contra animais na infância é um dos indicadores importantes para o possível desenvolvimento de transtornos de conduta e, em alguns casos, de psicopatia na vida adulta. A ausência de empatia, de culpa e de preocupação com o sofrimento do outro não surge do nada, ela é construída (ou não desconstruída) ao longo do desenvolvimento.

A responsabilidade do Estado

É impossível ignorar também a responsabilidade do Estado. Políticas públicas consistentes fazem falta. Passam governos e pouco se avança em melhorias estruturais: escolas integrais de qualidade, equipes multidisciplinares, projetos de mediação escolar, apoio psicológico, planejamento familiar, creches e suporte real às famílias mais vulneráveis. Quando a família e a escola falham, o “continente” dessas crianças passa a ser a rua, o crime organizado, os grupos violentos, que sabem exatamente onde estão os mais frágeis.

No fim, a pergunta que fica é incômoda, mas necessária: que tipo de sociedade estamos construindo quando a violência deixa de causar indignação? Cuidar da infância não é apenas proteger fisicamente, é formar emocionalmente. E isso exige presença, limites, exemplo, políticas públicas e, sobretudo, responsabilidade coletiva.

Andreia Calçada é psicóloga clínica e jurídica. Perita do TJ/RJ em varas de família e assistente técnica judicial em varas de família e criminais em todo o Brasil. Mestre em sistemas de resolução de conflitos e autora do livro “Perdas irreparáveis – Alienação parental e falsas acusações de abuso sexual”.

 

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