A anafilaxia é uma reação alérgica sistêmica que, se não tratada a tempo com adrenalina, pode levar o paciente a óbito. Medicamentos, alimentos, ferroadas de insetos e látex são as principais causas de anafilaxia”, explica a Marisa Rosimeire Ribeiro, coordenadora do Departamento Científico de Anafilaxia da Associação Brasileira de Alergia e Imunologia (Asbai).

Essa reação é caracterizada por manifestações clínicas que aparecem de forma rápida e envolvem dois ou mais sistemas ao mesmo tempo. Conheça as manifestações clínicas da anafilaxia:

Pele e mucosas (80% a 90% dos casos): Coceira, vermelhidão, presença de placas ou manchas e inchaços na face. Geralmente são os sintomas mais frequentes e precoces.

Respiratórias (70% dos episódios): Coceira e congestão nasal, espirros, sensação de sufocação ou aperto na garganta, rouquidão, tosse, chiado no peito ou falta de ar e parada respiratória.

Gastrointestinais (30% a 40%): Náuseas e vômitos intensos, cólicas e diarreia.

Cardiovasculares (10% a 45%): Queda da pressão arterial, com ou sem desmaio, alteração nos batimentos cardíacos e parada cardíaca.

Neurológicas (10% a 15% dos casos): Tontura, dor de cabeça, crises convulsivas e confusão mental.

Outras manifestações: Sensação de morte iminente, contrações uterinas, incontinência fecal e urinária, visão turva e zumbido.

Entenda o caso

A jovem morava em Lontras, cidade vizinha de 12,8 mil habitantes, morreu menos de 24 horas após passar pelo exame, que fazia rotineiramente – não foi informado para qual finalidade. Ela chegou a ser entubada após o exame, feito no Hospital Regional Alto Vale, mas não resistiu e morreu na quarta-feira (20).

Letícia havia se formado em Direito há cinco meses. “Ela era uma menina vibrante, de personalidade. Amava direito, tão estudiosa. Sonhava alto, e tenho certeza de que seria um nome conhecido no meio jurídico”, comentou a tia Sandra Paul, ao g1. A Polícia Civil não informou se o caso será investigado.

É verdade que contraste pode causar anafilaxia?

Mas, afinal, o exame de contraste pode realmente levar uma pessoa a óbito por anafilaxia? Para esclarecer as dúvidas sobre o assunto, a Dra. Marisa Ribeiro responde às principais dúvidas.

  1. Contraste pode causar anafilaxia?

Sim. A reação pode ocorrer por alergia específica à molécula do contraste para a qual o paciente já foi sensibilizado em contato anterior, ou ser causada por propriedades do contraste utilizado, como peso molecular, que geram liberação de substâncias pelo sistema imunológico, independentemente de contato prévio. Quanto mais grave e rápida a reação, maior a chance de ter mecanismo alérgico específico envolvido.

  1. Há um percentual de quantas pessoas apresentam reações de anafilaxia por contraste?

Os contrastes mais utilizados são os iodados (usados em tomografias) e compostos de gadolíneo (usados em ressonância nuclear magnética). A anafilaxia por contrastes iodados ocorre em 2 a 4 pessoas para cada 10 mil aplicações e, por gadolíneo, em 1 para cada 10 a 100 mil aplicações.

  1. É verdade que pessoas com alergia a frutos do mar podem ter anafilaxia com contraste?

Sim, mas o risco é o mesmo da população geral. Ou seja, o fato de ter alergia a frutos do mar não predispõe à anafilaxia por contraste. Alguns locais ainda possuem questionário para pacientes que farão exames contrastados interrogando alergia a frutos do mar por conterem iodo, mas vários trabalhos científicos mostram que não há associação entre alergia a camarão e frutos do mar e reações a contrastes.  A alergia a frutos do mar ocorre por proteínas específicas desses alimentos que não estão presentes em contrastes. Anafilaxia a contrastes está associada à molécula do contraste e não ao iodo. Além disso, iodo está presente em muitos alimentos como bananas, ovos, iogurte natural, sal iodado, feijões brancos e cerveja.

  1. Quais as orientações devem ser passadas ao paciente com histórico de anafilaxia que vai receber contraste em um exame de tomografia?

É importante verificar a causa da anafilaxia do paciente. Caso tenha tido anafilaxia após uso de contraste, é necessário saber qual o tipo de contraste foi utilizado e as características da reação anterior para verificar se há risco de nova reação. Por isso, é fundamental que o paciente seja avaliado por um especialista da área de Alergia e Imunologia, que irá fazer a investigação e orientar a melhor forma de prevenção.

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Alimentos são responsáveis por 42% das reações alérgicas

A anafilaxia é uma reação alérgica multissistêmica grave, de início agudo e potencialmente fatal. Essa condição ainda é pouco conhecida e, consequentemente, subdiagnosticada no Brasil, o que impacta no mapeamento dessa alergia severa, que pode levar a óbito. Diante do aumento de casos percebidos por especialistas que tratam as alergias, a Asbai criou o Registro Brasileiro de Anafilaxia (RBA-ASBAI), uma iniciativa pioneira para coletar e analisar dados nacionais sobre essa condição médica.

De acordo com o último levantamento, os alimentos foram responsáveis por 42,1% das reações, com leite de vaca (12,9%), mariscos (6,9%), ovo (5,6%), trigo (3,1%) e amendoim (3,1%) sendo os mais comuns. Já 32,4% dos casos de anafilaxia estavam relacionados a medicamentos, incluindo agentes biológicos (10,4%), anti-inflamatórios (7,2%) e antibióticos (3,8%).

Anafilaxia por insetos representou 23,9% das anafilaxias, destacando-se a formiga com 8,4% dos casos. Anafilaxia ao látex foi identificado em 11 casos. O levantamento apontou que 55,5% das crianças do sexo masculino são maioria dos casos de anafilaxia e em adultos, 59,2% dos casos ocorreram em mulheres.

O Registro Brasileiro de Anafilaxia conta com 318 pacientes, dos quais 163 são mulheres. A média de idade é de 27 anos, abrangendo faixas etárias de 2 a 81 anos. Pacientes de 20 dos 27 estados brasileiros participam, com maior incidência nas regiões Sul e Sudeste: São Paulo (22%), Minas Gerais (17,6%), Paraná (14,5%) e Rio de Janeiro (13,5%).

A Asbai criou o Registro Brasileiro de Anafilaxia com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre o perfil da doença entre os brasileiros para que políticas públicas possam ser implementadas no que diz respeito à prevenção e ao tratamento da anafilaxia, considerada a reação alérgica mais grave e que pode levar à morte”, explica Mara Morelo, diretora de Pesquisa Adjunta e Coordenadora do estudo, ao lado do Prof. Dr. Dirceu Solé, diretor de Pesquisa da Asbai.

A falta da adrenalina autoinjetável no tratamento imediato

O Registro Brasileiro de Anafilaxia mostrou também que apenas 8,2% dos pacientes possuíam o kit de emergência, ou seja, 43 pacientes tinham a caneta de adrenalina autoinjetável. Atualmente, a apresentação da adrenalina autoinjetora só pode ser adquirida por importação, a um custo alto. O Brasil ainda não tem esse dispositivo, que está em fase de aprovação pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Já 96,2% dos pacientes com anafilaxia receberam algum tipo de tratamento, com uso de adrenalina em 50,3% dos casos, porém, com a administração do medicamento feita por profissionais em 42,1% dos casos, ou seja, em âmbito hospitalar.

Quinze pacientes necessitaram de intubação (11 adultos, 2 idosos, 2 crianças) e 10 foram reanimados (6 adultos, 3 idosos, 1 criança).

A adrenalina autoinjetável é o medicamento de urgência, precisa ser aplicado assim que os sinais da anafilaxia começam. A demora na medicação pode levar a pessoa a óbito, sem tempo mesmo para chegar ao pronto-atendimento”, explica Dra. Mara Morelo.

A presidente da Asbai, Fátima Fernandes, lembra que existem dois projetos de lei apoiados pela ASBAI e em tramitação no Congresso que são de fundamental importância para os pacientes com anafilaxia. O PL 1945/21 discorre sobre a Notificação Obrigatória que permitirá coletar dados oficiais sobre anafilaxia, entender sua prevalência e impactos, e fundamentar políticas públicas eficazes.

Já o PL 85/24 dispõe sobre fornecimento gratuito da caneta de adrenalina auto injetável pelo Sistema Único de Saúde (SUS) de modo a permitir o acesso rápido e autônomo ao tratamento, especialmente em ambientes domésticos e escolares, sem depender exclusivamente de atendimento hospitalar..

Com informações da Asbai

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