A jornalista Mara Pinheiro, apresentadora do MG2 da TV Globo Minaspassou por um período desafiador após o diagnóstico de leucemia de seu filho, Hércules (também chamado de Júnior ou Juninho), de 4 anosA doença foi descoberta em junho de 2025 através de exames de rotina, sem que a criança apresentasse sintomas prévios.

Mara se afastou de suas funções na TV por oito meses para acompanhar o tratamento intensivo do filho, que incluiu quimioterapia e internações. A jornalista retornou à bancada do MG2 em 16 de janeiro de 2026. Em seu retorno, ela emocionou o público ao anunciar que a “primeira batalha foi vencida” e que o filho entrou na fase de manutenção do tratamento, uma etapa menos agressiva do ponto de vista físico, mas ainda longa e cercada de acompanhamento contínuo. Essa etapa do protocolo costuma se estender por cerca de um ano e meio..

Ao falar publicamente sobre o período fora do ar e a fase atual do tratamento da criança, o caso voltou a chamar atenção para a leucemia infantojuvenil, o tipo de câncer mais frequente entre crianças e adolescentes no mundo. A leucemia representa cerca de 30% de todos os tumores diagnosticados antes dos 15 anos e aproximadamente 20% dos casos abaixo dos 20 anos.

De acordo com o Instituto Nacional do Câncer (Inca), o câncer já é a primeira causa de morte por doença entre crianças e adolescentes de 1 a 19 anos no Brasil. Segundo dados mais recentes, são estimados 11.540 novos casos da doença por ano no Brasil, o que a coloca como o décimo tipo de câncer mais frequente na população brasileira.

Comparados com casos em adultos, os tumores na infância são muito mais agressivos e evoluem com maior velocidade. Em contrapartida, a resposta às terapias costuma ser muito mais rápida, o que faz com que a maioria dos casos de câncer infantil sejam curáveis desde que haja o diagnóstico preciso e rápido e a criança seja prontamente encaminhada aos cuidados de uma equipe preparada para lidar com as especificidades da doença nos mais jovens”, comenta o oncopediatra Sidnei Epelman,  fundador e presidente da Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer (TUCCA).

Diagnóstico precoce eleva chances de cura de leucemias infantis para até 80%

Especialistas reforçam a importância de falar sobre a leucemia, que representa até 30% dos tumores infantis

Em alusão ao dia de conscientização sobre o câncer infantil (14 de fevereiro), o A.C.Camargo Cancer Center divulgou dados que mesclam alerta e esperança. A análise do Registro Hospitalar de Câncer, um levantamento realizado na instituição, mostra que, entre 2000 e 2023, mais de 240 casos de leucemia foram registrados na faixa pediátrica.

A doença já representa cerca de 13% de todos os tumores infantis tratados no período. De acordo com o estudo, no que se refere aos casos de leucemias em crianças e adolescentes a sobrevida global em 5 anos saltou de 56,3% em 2000 para 80,0% em 2019. Esses dados reforçam a importância do acesso oportuno ao diagnóstico e ao tratamento adequado.

O câncer infantojuvenil costuma evoluir rapidamente pela biologia tumoral, mas a resposta ao tratamento oncológico é melhor, alcançando até 80% de chances de cura quando diagnosticado precocemente”, afirma Viviane Sonaglio, líder do Centro de Referência em Tumores Pediátricos do A.C.Camargo. “Esses resultados refletem o impacto positivo da nossa abordagem multidisciplinar e altamente personalizada, com protocolos terapêuticos atualizados e infraestrutura dedicada ao cuidado oncológico pediátrico integral, que vai do diagnóstico à reabilitação do paciente e retorno às atividades da vida cotidiana”.

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Sinais de alerta: fundamentais para o diagnóstico precoce

A oncologista pediátrica explica que os sintomas iniciais da leucemia frequentemente se assemelham a doenças comuns da infância, o que pode atrasar a procura por atendimento especializado. Segundo ela, é essencial ficar atento a sinais persistentes, como aparecimento de ínguas, manchas roxas pelo corpo, sangramentos, febre sem causa aparente, dores de cabeça, dores ósseas, vômitos, palidez, alterações na visão, inchaço abdominal e cansaço excessivo.

A origem da leucemia ainda é desafiadora, mas os especialistas ressaltam que a hereditariedade, embora possa ocorrer em casos mais individualizados, não é uma regra para o desenvolvimento da doença. Também vale destacar que, assim como diversos tipos de tumores da infância, a leucemia não é uma condição que tenha um protocolo de prevenção, o que torna ainda mais fundamental para melhorar as chances de um prognóstico positivo, que pais e pacientes estejam atentos aos sinais de alerta.

 

A leucemia na infância

A leucemia é uma doença maligna das células do sangue, caracterizada pelo acúmulo de células jovens anormais, chamadas de blastos, que passam a ocupar o espaço das células sanguíneas normais na medula óssea. Essas células também podem se infiltrar em outras partes do corpo, como gânglios linfáticos, baço, fígado, sistema nervoso central, testículos e olhos.

Entre os subtipos da doença, as Leucemias Agudas são as mais incidentes na infância e juventude, com destaque para a Leucemia Linfóide Aguda (LLA), a mais comum nessa faixa etária, com maior frequência entre 2 e 5 anos, representando cerca de 30% de todos os cânceres pediátricos, e estimativa de 3.000 novos casos anuais no país.  Já a Leucemia Mielóide Aguda (LMA) é mais frequente em adultos e tem incidência crescente com o avanço da idade.

É importante ficar atento aos sintomas que podem servir de alerta para buscar um especialista. Prestar atenção nos sinais pode ser a melhor forma de chegar a um diagnóstico ainda nos estágios iniciais do câncer”, explica Jayr Schmidt Filho, líder do Centro de Referência em Neoplasias Hematológicas do A.C.Camargo.

O que causa a leucemia infantil?

Na maioria dos casos, não há uma causa comprovada pela ciência que explique o surgimento da leucemia na infância e adolescência. Algumas condições genéticas, como a síndrome de Li-Fraumeni ou a síndrome de Down, podem aumentar a predisposição, assim como tratamentos prévios com quimioterapia ou radioterapia e o uso prolongado de medicamentos imunossupressores após transplantes de órgãos. Ainda assim, esses fatores são considerados exceções.

É importante ressaltar que, apesar de existir um risco do desenvolvimento de leucemia nestes casos, ele ainda é muito pequeno”, explica o especialista. Por não ser uma doença prevenível, a atenção aos sinais de alerta é fundamental. “Quanto antes o tratamento for iniciado, maiores são as chances de cura”, acrescenta.

Fique atento aos sintomas

Por serem sintomas comuns a outras condições que afetam as crianças, é muito importante estar atento ao conjunto de sinais e iniciar a investigação médica precocemente. Os principais são:

  •     Dor nas pernas;
  •     Dor nas articulações;
  •     Sensação de cansaço extremo (fadiga);
  •     Febre;
  •     Palidez;
  •     Manchas roxas (equimoses) e/ou pintinhas vermelhas (petéquias) na pele;
  •     Hemorragias;
  •     Aumento dos gânglios linfáticos ou ínguas;
  •     Dor abdominal (causada por aumento do fígado ou do baço);
  •     Cefaleia;
  •     Vômitos;
  •     Nódulos subcutâneos;
  •     Falta de apetite contínua; e
  •     Perda de peso sem motivo aparente.

Para o início da investigação, será realizada uma análise da história clínica do paciente e também um exame físico. Durante a consulta, o especialista irá checar ainda os linfonodos (ínguas ou gânglios), áreas de sangramento, hematomas e aumento do baço ou fígado.

O hemograma completo é uma ferramenta importantíssima também nessa primeira etapa. Através do exame, podemos checar se há alterações sanguíneas, assim como anemias, plaquetas baixas e presença de blastos”, frisa Sidnei Epelman.

O exame pode incluir: mielograma (identifica a presença de células blásticas em número aumentado na medula óssea); a citometria de fluxo e imuno-histoquímica (que tem o objetivo de classificar a leucemia e o acompanhamento da resposta ao tratamento); cariótipo ou citogenética (avaliação dos cromossomos para identificar alterações genéticas) e a biologia molecular (mais sensível que o cariótipo na avaliação da mutação genética dos cromossomos).

Em alguns casos, pode ser necessário ainda uma biópsia do osso ou exame do líquor. Contudo, vale lembrar que apenas o médico poderá recomendar quais exames devem ser realizados durante a investigação.

Como funciona o tratamento para leucemia?

Para definir o tratamento adequado, é importante levar em consideração cada caso individualmente. O mais realizado é a quimioterapia. Já o transplante de medula óssea, utilizamos naqueles casos que não evoluem bem ou de altíssimo risco”, diz o especialista. Vale lembrar que a duração do tratamento para cada paciente também poderá variar.

A quimioterapia tem o objetivo de destruir as células doentes. Seus possíveis efeitos adversos são náusea, vômitos, queda do cabelo, mucosites (lesões em variados graus na mucosa do trato gastrointestinal e diarreia. É administrada por via venosa, oral, intramuscular ou subcutânea.

O oncopediatra ressalta que “o importante é garantir uma estrutura para oferecer o melhor acolhimento e a melhor condição de diagnóstico e tratamento dessas crianças e suas famílias. Esse é o caminho para, sem dúvidas, chegarmos a um final feliz”, finaliza Sidnei Epelman.

Confira o Observatório do Câncer: Tumores Pediátricos nesse link e o Observatório do Câncer: Neoplasias Hematológicas nesse link.

Com Assessorias

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