O incêndio que atingiu o Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp), no complexo do Hospital das Clínicas, na última sexta-feira (30/01) resultou na morte de um dos oito paciente críticos que precisaram ser transferidos emergencialmente. Além dele, dez profissionais de saúde inalaram fumaça durante o atendimento inicial e o combate ao fogo, sendo atendidos e receberam alta. Neste sábado (31/1), todas as alas do Icesp mantêm o atendimento normalmente.
Este caso assemelha-se ao ocorrido em janeiro de 2024, em outro hospital de São Paulo, onde uma idosa de 94 anos faleceu após uma pane elétrica forçar a transferência de 47 pacientes. A recorrência desses episódios escancara a fragilidade da infraestrutura sob a atual gestão estadual, que é cobrada por não exigir protocolos de segurança mais rígidos para os hospitais sob sua administração direta.
De acordo com o Corpo de Bombeiros, o fogo começou às 14h de sexta-feira na cadeira e no gerador de energia externo durante um serviço programado da Enel na rede elétrica da rua. No momento em que a energia foi religada e os geradores do hospital entraram em operação, um dos equipamentos sofreu uma pane e entrou em combustão.
A fumaça densa invadiu os prédios vizinhos, forçando a evacuação de pacientes, inclusive da UTI, que foram transferidos para outras alas do Hospital das Clínicas. Um deles, em estado crítico, não resistiu à instabilidade clínica durante o deslocamento. Apesar das manobras de ressuscitação pela equipe médica, o homem não resistiu. O nome e a idade do paciente ainda não foram revelados.
Versões sobre a falha técnica
O incidente não é um fato isolado, mas o ápice de uma crise elétrica persistente que castiga a capital paulista e coloca o governador Tarcísio de Freitas e a concessionária Enel no centro de um furacão político sobre a falta de investimentos e a precariedade da infraestrutura básica em serviços essenciais sob responsabilidade estadual.
A concessionária Enel afirma que o incêndio ocorreu em equipamento de propriedade exclusiva do hospital, eximindo-se de responsabilidade direta sobre a combustão. O governo estadual, por sua vez, anunciou uma investigação interna e a instalação de um novo gerador.
O que aconteceu é consequência direta de um sistema que opera no limite. A responsabilidade recai sobre o Estado pela manutenção interna e sobre a Enel pela instabilidade da rede que força a entrada frequente de geradores, gerando desgaste e riscos de combustão.
Especialistas apontam que a instabilidade frequente da rede da Enel força a entrada constante dos geradores, causando desgaste excessivo, mas cabe ao Estado garantir que esses equipamentos suportem a transição de carga sem oferecer risco à vida.
A crise elétrica em São Paulo e a omissão do governo estadual
Tragédia evidencia fragilidade do sistema sob gestão de Tarcísio de Freitas e concessão da Enel
A tragédia no Icesp ocorre em um momento de profunda insatisfação com o sistema elétrico paulista. O governador Tarcísio de Freitas tem sido alvo de críticas severas pela condução da crise energética no estado e pela fiscalização insuficiente sobre a Enel. Embora a regulação das concessionárias seja federal (ANEEL), a manutenção interna dos hospitais estaduais e a exigência de redundância absoluta são deveres do governo de SP.
A gestão de Tarcísio de Freitas é questionada pela falha nos protocolos de backup e fiscalização das unidades estaduais. A falha do gerador no Icesp durante uma manutenção da Enel na rede externa levanta dúvidas sobre a qualidade dos investimentos em backup de energia nas unidades estaduais.
O fator tempo e o impacto da crise elétrica em SP
Enquanto a Enel e o Governo do Estado trocam acusações, a realidade estatística é implacável. O Brasil registrou uma alta de 75% nos incêndios hospitalares no biênio 2024/2025. Somente nos primeiros meses de 2025, foram registradas 21 ocorrências no setor, incluindo casos no Rio de Janeiro e no Espírito Santo.
Em São Paulo, a situação é agravada por um histórico recente de instabilidade na rede que, em ambientes de alta complexidade, torna-se letal. A alta nas estatísticas de incêndios hospitalares indica que a crise é estrutural e exige uma revisão completa da segurança nas unidades do SUS em São Paulo.
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O Instituto do Câncer do Estado de São Paulo é uma unidade estadual, gerida pela Organização Social de Saúde Fundação Faculdade de Medicina, em parceria com o Governo do Estado de São Paulo. Inaugurado para ser o maior centro de oncologia da América Latina, o Icesp é um equipamento fundamental do Sistema Único de Saúde (SUS) em São Paulo, atendendo exclusivamente pacientes da rede pública.
O instituto realiza milhares de atendimentos mensais, incluindo quimioterapia, radioterapia e cirurgias complexas, que exigem internações em UTIs. O Icesp não opera isoladamente; ele está integrado ao gigantesco complexo do Hospital das Clínicas da USP e compartilha infraestrutura técnica com o InCor (Instituto do Coração).
Devido à infraestrutura compartilhada, como as áreas de caldeiras e geradores no subsolo, um incêndio em uma unidade ameaça imediatamente a operação da outra, colocando em risco centenas de pacientes oncológicos e cardiológicos. Falhas em áreas comuns de geradores e caldeiras podem paralisar, simultaneamente, o tratamento de câncer e de cardiopatias graves no estado.
O risco fatal da instabilidade clínica durante evacuações
A gravidade da situação em um hospital é medida em segundos. Durante o combate às chamas, oito pacientes entubados e dependentes de ventilação mecânica precisaram ser mobilizados para o Instituto do Coração (InCor) e para o Instituto Central (ICHC). Foi nesse trajeto que um paciente, já em quadro extremamente crítico, apresentou instabilidade.
Em razão do desabastecimento de energia elétrica pela concessionária [Enel] no Icesp, foi iniciado o protocolo de transferência de pacientes internados em UTI e com dependência de ventilação mecânica. Infelizmente, durante essa mobilização, um paciente em estado prévio extremamente crítico apresentou instabilidade clínica, recebeu atendimento imediato pela equipe responsável com reversão de quadro, mas, posteriormente, evoluiu a óbito”, disse o Hospital das Clínicas (HCFMUSP).
Em nota oficial, a Enel São Paulo afirmou que realizava um trabalho de emergência na região e que precisou desligar a energia do hospital. O fornecimento foi restabelecido posteriormente. A empresa reafirmou que o incêndio aconteceu em um gerador que pertence ao hospital. A concessionária informou ter restabelecido a energia e disponibilizado dois geradores extras para apoiar a instituição.
Já o HCFMUS lamentou a fatalidade e informou que uma investigação interna está em curso para apurar as causas exatas e revisar protocolos.
O HCFMUSP está apurando todas as circunstâncias do ocorrido e, de forma imediata, determinou a revisão e o reforço de protocolos e procedimentos de segurança e assistência, com foco em aprimorar continuamente a proteção de pacientes, acompanhantes e profissionais”, disse o hospital.
Editorial
O elo frágil entre a rede elétrica e a segurança do paciente
A responsabilidade compartilhada no gerenciamento de riscos hospitalares
O recente incêndio no Instituto do Câncer do Estado de São Paulo (Icesp) não é apenas um incidente técnico isolado; é um sintoma de uma fragilidade sistêmica que coloca a vida em segundo plano. Quando um paciente em estado crítico morre devido à necessidade de uma transferência forçada por falha em geradores, somos obrigados a questionar: onde termina a responsabilidade da concessionária de energia e onde começa a negligência na infraestrutura hospitalar?
A Enel e outras distribuidoras de energia pelo país realizam manutenções programadas rotineiramente. Entretanto, em um complexo de saúde, um “desligamento programado” não é um evento trivial. Exige uma sincronia perfeita entre a rede externa e os sistemas de contingência internos. Se o gerador entra em combustão no exato momento em que a energia é restabelecida, o sistema de proteção falhou em sua missão primordial: garantir a continuidade absoluta do suporte à vida.
As concessionárias de energia não podem se eximir de responsabilidade apenas alegando que a falha ocorreu “dentro do prédio do cliente”. A qualidade da energia entregue e a coordenação estreita com hospitais durante manutenções críticas devem ser monitoradas rigorosamente pelas agências reguladoras.
Transparência e fiscalização como caminhos para a solução
Por outro lado, as concessionárias de energia não podem se eximir de responsabilidade apenas alegando que a falha ocorreu “dentro do prédio do cliente”. A qualidade da energia entregue e a coordenação estreita com hospitais durante manutenções críticas devem ser monitoradas rigorosamente pelas agências reguladoras. A falta de dados oficiais detalhados sobre esses sinistros, como aponta o Instituto Sprinkler Brasil, cria um vácuo de informação que impede a criação de políticas públicas mais rígidas.
O que ocorreu no Icesp precisa servir de divisor de águas. É inadmissível que, em pleno 2026, com tecnologias de monitoramento em tempo real e barreiras físicas como sprinklers e portas corta-fogo disponíveis no mercado, ainda tenhamos que noticiar mortes causadas por fumaça e panes elétricas. A segurança do paciente começa muito antes da prescrição médica; ela começa na garantia de que a luz não vai apagar e que o ar que ele respira, vindo dos aparelhos, continuará fluindo sem interrupções.
Com Assessorias






