O desfecho das investigações sobre a morte da policial militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, trouxe à tona uma realidade brutal que muitas vezes se esconde atrás de fardas e aparências de ordem. Inicialmente tratada como suicídio, a morte da soldado, ocorrida em fevereiro na casa em que o casal residia no bairro do Brás, região central de São Paulo, e foi reclassificada pela Polícia Civil como feminicídio.
O marido da vítima, o tenente-coronel Geraldo Leite Neto, 53, foi preso nesta quarta-feira (18) após a perícia constatar “inconsistências significativas” e indícios de fraude processual na cena do crime. Ela foi assassinada com um tiro na cabeça, mas o marido ligou para a polícia informando que ela havia se matado. A família não se conformou e buscou a Justiça. O oficial teve sua prisão preventiva decretada pela Justiça Militar.
O caso de Gisele não é isolado, mas um retrato doloroso de uma estatística que não para de crescer: o Brasil registrou mais de 1.500 feminicídios em 2025, segundo dados do Ministério das Mulheres. As investigações da própria PM apontam que a soldado “já estaria submetida a um ambiente relacional marcado por comportamentos agressivos e potencialmente violentos”.
Mensagens recuperadas no celular do acusado pela Corregedoria da Polícia Militar confirmam relatos de testemunhas, indicando que Gisele vivia sob um regime de controle severo e sofria humilhações. Era chamada de burra e tinha sua autonomia como mulher policial questionada todo o tempo.
Em uma das comunicações, o oficial afirmava: “Lugar de mulher é em casa, cuidando do marido, e não na rua, caçando assunto. Rua é lugar de mulher solteira à procura de macho”. A mensagem sintetiza o machismo estrutural e a tentativa de anulação da identidade feminina. (Saiba mais detalhes abaixo)
Leia mais
Mulheres vão às ruas contra o feminicídio e pela jornada 6×1
Além do gatilho: cinema investiga as raízes do feminicídio
Brasil quer reconhecer feminicídio como questão de saúde global
A violência que começa antes do disparo
Mais do que o ato final de violência, a história da soldado revela o que especialistas chamam de “prisão emocional”. Para a psicanalista Ana Lisboa, a agressão física é apenas a ponta do iceberg. Em análise sobre o comportamento de agressores e a permanência de vítimas em ciclos abusivos, ela destaca que a violência psicológica atua de forma gradual.
A prisão começa na mente, quando a mulher passa a duvidar da própria percepção. A autoestima vai sendo corroída aos poucos”, explica.
Essa “corrosão” explica por que mulheres com profissões que exigem força e autoridade, como policiais, também se tornam vítimas. O abuso emocional altera a forma como a mulher se enxerga, fazendo-a minimizar sinais de perigo em nome da manutenção da relação ou por acreditar que precisa se adaptar ao parceiro.
Como aponta Ana Lisboa em sua obra ‘O direito de ser eu’, a luta das mulheres hoje ultrapassa as dimensões jurídicas: é o direito básico de existir de forma inteira e segura.
Leia também no Especial Mulheres do Portal Vida e Ação
Sinais de alerta: quando o “cuidado” vira controle
A psicóloga Marynara Melo, do AmorSaúde, alerta que os primeiros sinais de um relacionamento abusivo costumam ser sutis e, por vezes, confundidos com excesso de zelo. No caso de Gisele, o controle sobre sua autonomia e a visão de submissão doméstica eram sinais claros de uma escalada de poder.
De acordo com a especialista, as mulheres devem ficar atentas a comportamentos como:
-
Controle disfarçado: Exigir senhas de redes sociais e querer saber a localização exata o tempo todo.
-
Desvalorização: Criticar roupas, amizades e escolhas profissionais (como o desejo de trabalhar fora).
-
Gaslighting: Fazer a mulher duvidar da própria sanidade ou memória sobre fatos ocorridos.
-
Isolamento: Afastar a vítima da rede de apoio (amigos e familiares) para aumentar a dependência emocional.
Siga o canal “Vida e Ação” no WhatsApp clicando aqui.
Submissão e hierarquia no âmbito doméstico
Nas conversas pelo celular com o marido, Gisele afirma que era submetida a episódios de humilhação e piadas por parte do marido, até no ambiente de trabalho, na Polícia Militar. Em um dos diálogos, ela escreve que Geraldo Neto teria que mudar o “comportamento estúpido, ignorante, intolerante e sem escrúpulos” se ele não quisesse separar.
Não dá para entender. Você pediu para eu não ir embora. Eu fico e você continua igual, até pior, com seu tratamento. Falando coisas para me humilhar, para me provocar”, escreveu. A policial prossegue: “Toda hora jogando piada, me chamando de burra, mandando arrumar um soldado. O que a função tem a ver com relacionamentos?”, disse.
Para a Corregedoria da PM, os diálogos revelam a “concepção de relacionamento baseada em submissão e hierarquia no âmbito doméstico” “Tais manifestações não se apresentam como meros desentendimentos ocasionais entre um casal, mas sim como indícios de violência psicológica reiterada, caracterizada por tentativas de controle, constrangimento e desqualificação da autonomia da Sd PM Gisele”, aponta a investigação.
O conteúdo extraído do aparelho celular não apenas confirma o contexto de conflito conjugal anteriormente relatado por testemunhas, como também evidencia elementos objetivos de violência psicológica e dinâmica relacional marcada por tensão e controle, circunstâncias que assumem relevância para compreensão do ambiente em que se inserem os fatos investigados”, disseram os policiais corregedores que investigam o caso à TV Globo.
Oficial da PM forjou o suicídio da esposa, diz acusação
Os laudos derrubaram a versão inicial de suicídio, revelando que Gisele apresentava marcas de esganadura no pescoço e que o tiro foi disparado com a arma encostada em sua cabeça enquanto ela estaria desmaiada. A investigação apontou que o tenente-coronel tentou limpar o local do crime e forjar o suicídio da esposa.
Há provas da materialidade e indícios consistentes de autoria, sustentados por laudos periciais, depoimentos e registros telemáticos que afastam a hipótese de suicídio e apontam para feminicídio e possível fraude processual”, informou, em nota, o Ministério Público de São Paulo (MPSP), afastando a possibilidade de que ela tenha tirado a própria vida.
A defesa do tenente-coronel sustenta a tese de suicídio e busca que o caso seja transferido para a Justiça comum. No entanto, até o momento, ele permanece sob custódia. Relatos e mensagens indicam que o oficial tinha um comportamento possessivo e um histórico de ameaças contra outras mulheres.
Um compromisso com a vida
Dentro da série especial ‘Mulheres’ do Portal Vida e Ação, este caso reforça a necessidade urgente de discutir a saúde mental e a segurança feminina de forma integrada. A violência doméstica não atinge apenas o corpo; ela gera ansiedade, depressão e transtornos psicossomáticos que paralisam a vítima antes mesmo de qualquer ameaça física.
Reconhecer os sinais precoces e buscar ajuda — seja pelo Ligue 180, delegacias especializadas ou apoio psicológico — continua sendo a ferramenta mais eficaz para interromper o ciclo antes que ele se torne fatal.
Onde buscar ajuda e acolhimento
Se você está vivenciando um relacionamento abusivo ou conhece alguém que precise de ajuda, não hesite em procurar os canais oficiais e as redes de apoio. Você não está sozinha.
-
Central de Atendimento à Mulher – Ligue 180: Serviço gratuito e confidencial que funciona 24 horas por dia. Oferece orientação sobre direitos e encaminha denúncias para a rede de proteção. Também é possível o contato pelo WhatsApp: (61) 9610-0180.
-
Emergências – Ligue 190: Em casos de ameaça imediata ou violência física em curso, entre em contato com a Polícia Militar.
-
Delegacias de Defesa da Mulher (DDM): Unidades especializadas para o registro de ocorrências e solicitação de Medidas Protetivas de Urgência. Muitas cidades já contam com o atendimento 24 horas.
-
CRAM e Defensoria Pública: Os Centros de Referência de Atendimento à Mulher (CRAM) e a Defensoria Pública oferecem acolhimento psicológico, social e orientação jurídica gratuita para mulheres em situação de violência.
Para mais conteúdos e atualizações sobre a série ‘Mulheres’, siga também o nosso perfil oficial no Instagram: @vidaeacao.

Siga o canal “Vida e Ação” no WhatsApp clicando 



