O atual presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, enfrentou o seu principal concorrente nas próximas eleições presidenciais, Donald Trump, no primeiro debate entre os pré-candidatos. O evento foi marcado por discussões acaloradas e diferenças significativas nas propostas apresentadas, algo já esperado pelo público. O que não se esperava era que a idade do atual presidente fosse um tema tão discutido durante e depois do debate.
Redes sociais, mídia impressa e eletrônica compartilharam opiniões e análises que foram embasadas na idade de Biden, 81 anos – três a mais que seu opositor. Muitos contestaram a cognição do presidente, outros disseram que “ele já é velho demais para estar debatendo” e as reações públicas trouxeram à tona um tema que precisa ser comentado: o preconceito com a idade.
Por Candice Pomi*
O etarismo já é uma realidade da população que está nas ruas e nas redes sociais. Mas a conversa ganhou um novo tom quando chegou ao presidente da nação mais poderosa do mundo, o que é uma vantagem: agora talvez as pessoas possam prestar atenção ao assunto.
O preconceito por conta da idade é parte do cotidiano de pessoas acima dos 50 anos que querem uma recolocação no mercado de trabalho. Ainda temos a – falsa – ideia de que quanto mais velho somos, menos competentes ficamos.
Quanto mais velhos, mais experientes e mais visão de mercado temos. Dizer que uma pessoa acima dos 60 anos não pode ocupar um cargo em uma empresa por conta da sua idade é negar para aquela empresa um conhecimento rico e vasto.
No entanto, é preciso entender a diferença entre o combate ao preconceito com relação à idade ao conceito de ‘pró-idade a qualquer custo’. A expectativa de vida vem crescendo e hoje precisamos nos preparar para sermos produtivos até idades mais longevas.
Vemos exemplos maravilhosos por aí de atletas com mais de 70 anos correndo maratonas, empresários se tornando milionários depois dos 60 anos e esses exemplos inspiradores devem servir de incentivo à população.
Porém, é preciso discernimento sobre o que é saudável – para o longevo, inclusive. Será mesmo que aos 81 anos Biden tem condições de seguir mais quatro anos na presidência? Um longevo que corre uma maratona não tem a intenção de ganhar – porque ele mesmo sabe que seu corpo, ainda que bastante preparado, tem limitações biológicas normais e esperadas.
A presidente de um grupo de empresas entende que chegará o momento de fazer uma transição porque, também por conta da biologia do envelhecimento, não terá energia para viajar durante a semana toda. Esses longevos que seguem na ativa sabem que o envelhecimento traz algumas limitações, assim como outras fases da vida trazem outros desafios.
Impacto na saúde física e mental
Biden não é um maratonista que quer apenas curtir o fato de correr uma maratona; ele quer ganhar a maratona. Ser o comandante da nação mais poderosa do mundo traz consigo não apenas grandes responsabilidades, mas impacto na saúde física e mental.
A carta de George Clooney divulgada no NY Times traz uma discussão interessante e tão importante quanto o etarismo: não ter preconceito contra a idade não significa defender que todo mundo pode tudo.
Nenhum extremo é saudável. Acreditar que a idade é um fator de capacitismo é errado; ninguém é mais ou menos competente por ser mais novo ou mais velho. O outro extremo é também prejudicial. É preciso entender em quais lugares cabe defender o pró-idade e quais temos que entender que a idade pode ser, sim, uma limitação.
Biden, por exemplo, talvez realmente devesse desistir da presidência, mas poderia assumir dentro da campanha democrata um papel fundamental de preparação e conselho do candidato a bater de frente com Donald Trump.
Precisamos ter coragem de apontar o dedo em direção aos responsáveis por comentários etaristas, incluindo Trump – que também não é o candidato ideal quando se pensa em idade, afinal ele mesmo está com 78 anos.
Mas, mais do que coragem para combater o preconceito, é a educação. Educar a população geral sobre esse tipo de conversa. Educar a população mais jovem sobre o respeito aos mais velhos e suas experiências e, acredite, educar também os longevos para que eles entendam que podem tudo, mas com moderação.
Cada membro da sociedade pode fazer parte dessa mudança. Empresas já estão contratando profissionais para fazer letramento com relação ao etarismo, programas de integração geracionais também são apresentados ao time de liderança para que possam orientar seus times.
A mudança também deve ir além muito além das corporações. Nós, cidadãos comuns, somos peças chave para promover essa mudança. E ela começa na educação, no ensino a respeitar os mais velhos e suas experiências, no acolhimento das pessoas longevas em diferentes contextos sociais.
*Psicóloga ormada pela PUC-SP, com especialização em gerontologia pelo Albert Einstein e consultora em longevidade de empresas nacionais e multinacionais. Palestrante, apresentadora do podcast “Outros Tempos”, que aborda o tema “Longevidade”, e co-autora do “1º Manual de Boas Práticas contra o Etarismo” da América Latina