Durante muito tempo a síndrome de Asperger foi considerada uma forma específica de autismo, mas desde 2013 esse termo deixou de ser utilizado oficialmente. Os manuais diagnósticos internacionais (DSM-5 e CID-11) aboliram o uso o termo, unificando-o sob a classificação de Transtorno do Espectro Autista (TEA) nível 1 de suporte, também chamada “autismo leve”.
A medicina moderna também abandonou o epônimo “Asperger” por questões éticas, devido a evidências históricas do envolvimento do pediatra com instituições eugenistas do regime nazista. A Associação Brasileira de Neurologia (ABN) reforça que a nomenclatura atual é mais neutra e descritiva.
No dia 18 de fevereiro, celebra-se o Dia Internacional da Síndrome de Asperger. A data, que homenageia o nascimento do pediatra Hans Asperger, foi criada para promover informação e combater o preconceito, reforça a importância do diagnóstico precoce, da inclusão e do respeito às diferenças.
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O “invisível” adulto de alta funcionalidade
A data ganha um novo contorno em 2026: a conscientização sobre a transição diagnóstica e a urgência de identificar adultos que, por décadas, viveram à margem de um suporte adequado. Segundo especialistas da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), essa mudança não é apenas técnica, mas reflete uma compreensão mais profunda e ética da neurodiversidade.
Muitos adultos buscam consultórios neurológicos após anos de tratamentos para ansiedade ou depressão, sem saber que a causa base é o TEA. O médico neurologista Renato Arruda, membro da International Society for Autism Research (INSAR), explica que esses pacientes frequentemente sofrem com um esgotamento social crônico.
São indivíduos que passaram décadas recebendo diagnósticos fragmentados. A transição para o termo ‘TEA Nível 1’ ajuda a entender que o espectro é heterogêneo. Precisamos olhar para o ‘custo’ que esse paciente paga para socializar”, afirma o Dr. Arruda.
Como o TEA nível 1 se manifesta ao longo da vida
Considerada uma forma mais branda dentro do espectro, a antiga Síndrome de Asperger compartilha características com o autismo clássico, porém, em menor intensidade, como explica o neuropediatra neuropediatra José Gilberto de Brito Henriques, professor da Afya Educação Médica Belo Horizonte (MG).
Do ponto de vista clínico, o que historicamente diferenciava o Asperger era a presença de inteligência preservada e linguagem funcional, apesar de dificuldades na interação social e de padrões de rigidez comportamental que são características centrais do espectro do autismo. Trata-se, portanto, de indivíduos que se comunicam de maneira funcional, têm cognição preservada, mas apresentam limitações na esfera social e padrões comportamentais mais rígidos”, explica
Ele ainda explica sobre como a síndrome se manifesta ao longo das diferentes fases da vida. Na infância, são frequentes a rigidez comportamental e dificuldades sociais específicas, muitas vezes identificadas tardiamente, pois a boa capacidade cognitiva pode compensar ou mascarar os sinais iniciais.
Já na adolescência, as limitações tornam-se mais evidentes, especialmente nas interações sociais, na busca por pertencimento a grupos e nos relacionamentos afetivos, o que pode gerar sofrimento emocional“.
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O fenômeno do masking e o viés de gênero
Quando chega a vida adulta, as manifestações dependem das intervenções e do acompanhamento realizados anteriormente. Na ausência de diagnóstico ou suporte adequado, o quadro pode permanecer camuflado entre os adultos, que frequentemente recorrem a estratégias de adaptação (masking), mantidas à custa de esforço pessoal e emocional ao longo do tempo”.
Um dos maiores obstáculos ao diagnóstico tardio é o masking (mascaramento). Adultos de alta funcionalidade desenvolvem estratégias sofisticadas para ‘parecerem neurotípicos’, o que gera um desgaste mental severo, podendo levar ao burnout”, diz o neurologista Renato Arruda.
Este cenário é ainda mais crítico em mulheres, como enfatizam os especialistas. Por apresentarem sintomas mais “internalizantes” e possuírem habilidades adaptativas superiores às dos homens, elas são frequentemente subdiagnosticadas, retardando o acesso a terapias que garantam qualidade de vida.
Transtornos neurológicos na infância associados ao TEA nível 1
Entre as comorbidades psiquiátricas mais frequentes associadas ao TEA nível 1 está o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). Segundo o neuropediatra Dr José Gilberto, estima-se que cerca de 80% das crianças com TEA apresentam manifestações compatíveis com TDAH, características que muitas vezes são compreendidas dentro do próprio diagnóstico do espectro. Também são comuns os transtornos de aprendizagem, especialmente em áreas como matemática e leitura.
Além disso, podem estar presentes transtornos de ansiedade, diferenciando-se a ansiedade como emoção humana natural daquela que se torna limitante e causa prejuízos significativos, e também traços obsessivos que aparecem com frequência neste grupo. Embora existam outras possíveis associações, essas são, de forma destacada, as comorbidades mais observadas em pacientes com TEA nível 1”, conclui o especialista.
Mais homens do que mulheres com autismo no Brasil
O autismo, em todas as suas formas, afeta cerca de 37,2 milhões de pessoas em todo o mundo. No cenário brasileiro, o panorama do autismo ganha contornos mais nítidos com os dados do Censo 2022, divulgados pelo IBGE no ano passado. O levantamento revelou que mais de 2,4 milhões de brasileiros declararam possuir o diagnóstico de TEA.
A prevalência é notavelmente maior entre os homens, que somam 1,4 milhão de casos, uma proporção que alinha à tendência global onde a Síndrome de Asperger chega a ser oito vezes mais diagnosticada no gênero masculino do que no feminino.
A maior concentração está na faixa etária de 0 a 44 anos, com destaque para crianças de 5 a 9 anos (2,6%), seguidas pelas de 0 a 4 anos (2,1%), 10 a 14 anos (1,9%) e 15 a 19 anos (1,3%), somando 1,1 milhão de pessoas. Segundo analistas do IBGE, o aumento de diagnósticos na infância está relacionado ao acesso ampliado à informação e à busca ativa de pais e responsáveis por avaliações especializadas.
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Como identificar o autismo na pessoa adulta
A identificação no adulto não se baseia apenas no comportamento em consulta, mas em uma anamnese longitudinal (histórico de vida). Os sinais de alerta incluem:
- Dificuldade persistente na interação social;
- Rigidez cognitiva e necessidade de rotinas estritas;
- Hipersensibilidade sensorial (sons, luzes ou texturas);
- Histórico de sensação de “inadequação” desde a infância.
Tem tratamento?
Diferentemente das crianças, o foco no adulto não é “curar” o autismo, mas gerenciar as comorbidades, que são a regra e não a exceção. Condições como TDAH, distúrbios do sono, ansiedade e depressão devem ser tratadas de forma integrada. Para o Dr. Renato Arruda, o futuro da neurologia brasileira deve focar no equilíbrio:
Devemos celebrar a neurodiversidade como instrumento de inclusão, mas sem romantizar o transtorno. O papel do neurologista é oferecer suporte baseado em evidências para reduzir o sofrimento e garantir funcionalidade em qualquer idade”, conclui.
Com Assessorias

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