A crise envolvendo a Unimed Ferj ganhou novos contornos nesta semana com uma reação contundente da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), após mais de uma centena de hospitais e clínicas privadas anunciarem um descredenciamento coletivo, alegando falta de pagamento por parte da operadora, o que coloca em risco o atendimento de milhares de usuários do plano de saúde no Estado do Rio de Janeiro.
O diretor-presidente da agência reguladora, Wadih Damous, criticou duramente a articulação de hospitais fluminenses que ameaçam suspender o atendimento aos beneficiários devido a dívidas bilionárias da operadora. Para a ANS, a movimentação “beira o ilícito” ao colocar em risco a vida dos pacientes.
Eles não podem se juntar para atentar contra a vida das pessoas. Não pode ser feito isso. Se juntam não para articular a cobrança, mas para ameaçar a vida e a saúde”, disse Damous ao Globo.
O dirigente lembrou que existe uma liminar judicial em vigor que proíbe prestadores conveniados de recusarem ou restringirem o atendimento aos beneficiários, tornando qualquer paralisação coletiva passível de punição.
Imbróglio envolve dívida superior a R$ 2 bilhões
A polêmica atingiu o ápice após assembleia da Associação de Hospitais do Estado do Rio de Janeiro (Aherj) que reuniu, nesta terça-feira (6/1), representantes de 107 hospitais e clínicas em assembleia para deliberar sobre o futuro da relação com a operadora.
A entidade aprovou a intenção de notificar órgãos de controle – como Ministério Público do Estado do Rio (MPRJ), à ANS e às secretarias municipal e estadual de Saúde – para interromper o atendimento em 30 dias.
Segundo a Aherj, a Unimed Ferj enfrenta grave crise financeira e acumularia débitos superiores a R$ 2 bilhões com a rede hospitalar, montante contestado pela operadora.
Já a Unimed do Brasil reforça que sua responsabilidade financeira refere-se apenas aos atendimentos realizados a partir de 20 de novembro de 2025. Dívidas anteriores a esta data continuam sendo de responsabilidade exclusiva da Unimed Ferj.
Diante do impasse, os hospitais aprovaram encaminhar pedido à ANS para que promova uma intervenção administrativa capaz de garantir pagamentos e a continuidade assistencial. Caso isso não ocorra, defendem a liquidação do plano como saída para proteger usuários e prestadores.
Histórico de suspensões amplia incerteza para usuários
A movimentação da Aherj ocorre após uma sequência de rompimentos ao longo de 2025. Em fevereiro, a Rede D’Or deixou de aceitar pacientes da Unimed Ferj. Meses depois, em setembro, unidades da Rede Américas – como Pró-Cardíaco, Vitória, São Lucas e Santa Lúcia – interromperam a cobertura para a chamada rede especial, que engloba os planos Delta, Plus, Safira e Unipart Especial.
No mesmo período, 13 hospitais da Rede Casa e do Grupo Prontobaby também anunciaram paralisação de atendimentos por falta de repasses. As decisões elevaram a pressão sobre a ANS, responsável por fiscalizar o setor de saúde suplementar e mediar conflitos entre operadoras e prestadores, sobretudo quando há risco de desassistência em larga escala.
Acordos recentes não dissipam temor de descredenciamento
Enquanto o imbróglio jurídico sobre o passivo financeiro — estimado pela Aherj em mais de R$ 2 bilhões — se arrasta, a Unimed do Brasil acelera medidas operacionais para garantir a assistência. Desde o dia 6 de janeiro, os 234 mil clientes da carteira assumida pela Confederação passaram a utilizar um novo código de identificação em suas carteirinhas (iniciado por 0517).
A Unimed do Brasil havia assumido a responsabilidade assistencial (compartilhamento de risco) em novembro de 2025, por determinação da própria ANS. No modelo atual, a Unimed Ferj mantém a gestão administrativa e financeira dos contratos, mas a Unimed do Brasil é quem autoriza e garante a realização dos serviços médicos.
No início de dezembro, a Unimed do Brasil, que passou a gerir a carteira de usuários da Ferj, divulgou acordo com seis redes hospitalares e laboratoriais para “normalizar e expandir o atendimento”. A lista contemplou justamente o Prontobaby, a Rede Américas e a Oncoclínicas, que haviam suspendido serviços por inadimplência.
Transição operacional e nova rede credenciada
Para contornar a crise de confiança e o descredenciamento de unidades, a Unimed do Brasil firmou parcerias estratégicas com grandes redes. Segundo a agência reguladora, o impacto das ameaças da Aherj tende a ser “ínfimo”, uma vez que o atendimento está sendo normalizado através de acordos diretos com grupos como:
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Rede Américas: Hospitais Pró-Cardíaco, Vitória, Samaritano (Barra e Botafogo) e São Lucas Copacabana.
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Rede Dasa: 147 unidades de exames e terapias.
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Rede Totalcare: Hospitais Pasteur, Mario Lioni e de Clínicas de Jacarepaguá.
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Grupo Prontobaby e Oncoclínicas: Garantindo pediatria e tratamentos oncológicos.
Além disso, um acordo assinado em 23 de dezembro com a Unimed-Rio assegura que os médicos cooperados voltem a atender a carteira da Ferj, com o repasse dos honorários sendo feito diretamente pela Unimed do Brasil à cooperativa carioca.
Apesar do anúncio, dirigentes da Aherj afirmam que os compromissos foram insuficientes para recompor o fluxo financeiro e restabelecer a confiança. Para a associação, sem uma solução estrutural, o sistema continuará sujeito a novos descredenciamentos, prejudicando milhares de famílias que dependem do plano para urgências, cirurgias e tratamentos oncológicos.
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Orientações aos beneficiários
Apesar da pressão dos hospitais por uma intervenção ou liquidação da Unimed Ferj, a ANS descartou essas opções no momento, focando na manutenção da rede. A orientação para os usuários é:
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Nova carteirinha: Utilizar o código iniciado por 0517. O acesso pode ser feito pelo App Unimed (iOS e Android).
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Manutenção de contratos: Coberturas, carências e valores das mensalidades permanecem inalterados.
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Rede de atendimento: Consultar os canais oficiais da Unimed do Brasil para confirmar quais unidades estão ativas, evitando desinformação gerada pelo conflito entre hospitais e operadora.
Primeiro hospital privado do estado do Rio de Janeiro já está realizando cirurgias oncológicas para o SUS pelo Agora Tem Especialistas
Programa do governo federal garante mais de 200 cirurgias gratuitas no Hospital e Maternidade São Francisco. Atendimentos no hospital particular começaram em dezembro
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Publicado em 05/01/2026 13h33 Atualizado em 05/01/2026 16h55
Foto: Grax Medicina/MS
Oprograma Agora Tem Especialistas está levando pacientes do SUS para dentro de hospitais privados, onde são atendidos gratuitamente. No estado do Rio de Janeiro, o Hospital e Maternidade São Francisco, o primeiro da rede privada a aderir à iniciativa na região, já abriu as portas para a rede pública de saúde. Em dezembro, cinco mulheres passaram por procedimentos pré-operatórios na unidade hospitalar localizada no município de Niterói (RJ). Isso para que, nesta segunda-feira (5), sejam submetidas a cirurgias para retirada ou ressecção de tumores ginecológicos. A saúde da mulher e a oncologia são áreas prioritárias do programa do governo federal, que, apenas nesse hospital especializado em serviços de alta complexidade, vai garantir para o SUS a realização de 204 procedimentos por ano, que totalizam mais de R$ 952 mil. A previsão é que a unidade de saúde realize cerca de 10 cirurgias por mês.
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, destacou a importância da parceria. “Com o Agora Tem Especialistas, avançamos nesta modalidade em que hospitais privados abrem as portas para o SUS, colocando seus profissionais e equipamentos a serviço da população. Deixo também um aviso para as pessoas da região e do Rio de Janeiro que aguardam um procedimento pelo SUS: se você receber um telefonema chamando para fazer (um procedimento) no Hospital São Francisco, não é trote; é o Agora Tem Especialistas abrindo as portas de um hospital particular para o SUS”, disse.
No Hospital e Maternidade São Francisco, as pacientes da rede pública serão submetidas a cirurgias de alta complexidade, como histerectomia (retirada de útero); retirada de tumores; linfadenectomia (remoção de linfonodos na região pélvica); peritonectomia (remoção da membrana abdominal) e traquelectomia (remoção do colo do útero e tecidos), todas como parte do tratamento para câncer.
Como contrapartida aos atendimentos prestados, o hospital privado de Niterói e todos que já estão atendendo pelo programa receberão créditos financeiros para pagamento de tributos federais vencidos ou a vencer. Essa é uma das iniciativas do Agora Tem Especialistas, que mobiliza toda a estrutura de saúde do país, a pública e a privada, para aumentar a oferta de atendimentos no SUS. O objetivo é reduzir o tempo de espera por consultas, exames e cirurgias.
Depoimento de quem já colhe benefícios do Agora Tem Especialistas
Em dezembro de 2025, a Secretaria Estadual de Saúde do Rio de Janeiro encaminhou as primeiras seis pacientes do SUS para o Hospital e Maternidade São Francisco, localizado em Niterói (RJ). Isso porque o programa do governo federal é realizado em parceria com os estados e municípios, que são responsáveis pelo agendamento, segundo os critérios de suas centrais de regulação.
No local, elas foram submetidas a exames complementares necessários para a realização das cirurgias. Uma delas é Lucinda Barbosa de Sousa, 47 anos, moradora da Rocinha, comunidade do Rio de Janeiro (RJ). Hoje, ela vai passar por uma cirurgia para a retirada de lesões no colo do útero, procedimento fundamental para evitar a formação de um câncer na área.
“Eu fiquei surpresa quando me ligaram, porque é uma clínica particular. Eu pensei, será que estou no lugar certo? Imaginava que seria atendida em um hospital normal do SUS, como uma clínica da família. Fiquei em êxtase e feliz também. E daqui para frente vou me cuidar ainda mais, me amar mais”, explicou a paciente.
Mãe solo de duas filhas, Lucinda ficou preocupada quando descobriu que precisaria passar pelo procedimento. “O coraçãozinho ficou um pouco acelerado quando descobri que poderia ser um câncer. Foi muito importante ser chamada e saber exatamente a hora, o início do tratamento. Quero viver, estou aqui de pé, tenho que trabalhar. Sou mãe solteira e estou aqui firme e forte. Fica o alerta para ficar mais atenta, porque quando você descobre algo que é o início, é maravilhoso, tem mais facilidade de ter cura, embora não seja um caso grave, mas tem cura”, finaliza.
Adesão da Rede D’Or ao Agora Tem Especialistas
No estado do Rio de Janeiro, além do Hospital e Maternidade São Francisco, a Rede D’Or também aderiu ao programa Agora Tem Especialistas. Inicialmente, duas unidades da rede reforçarão o atendimento na saúde pública: o Glória D’Or, no Rio de Janeiro (RJ), e o Niterói D’Or, em Niterói (RJ). Juntos, realizarão para o SUS cerca de 100 cirurgias cardiológicas por ano no valor de R$ 3,6 milhões.
Atualmente, nove hospitais privados e filantrópicos já estão atendendo os pacientes do SUS pelo Agora Tem Especialistas: o Hospital das Clínicas em Alagoinhas (BA); a Fundação Lucas Machado/Feluma, em Belo Horizonte (MG); o Centro Especializado em Olhos Cynthia Charone, em Belém (PA); o Hospital e Maternidade São Francisco, em Niterói (RJ); o Hospital Santa Terezinha, em Sousa (PB); a Santa Casa de Sobral, no município do mesmo nome (CE); e os hospitais Santa Maria e Med Imagem, ambos em Teresina (PI); e o Hospital Maranhense, em São Luís (MA).
Dívidas federais convertidas em mais atendimentos para o SUS
Iniciativa inédita do Agora Tem Especialistas, a troca de dívidas federais (vencidas ou a vencer) por mais atendimentos para os pacientes da rede pública é um mecanismo inovador do programa. Para participarem, os hospitais privados e filantrópicos devem manifestar interesse e informar os serviços que têm a oferecer. Em seguida, além de avaliar a capacidade técnica e operacional desses estabelecimentos, o Ministério da Saúde verifica se a oferta de serviços disponibilizada atende as necessidades do SUS nos estados e municípios.
Com o pedido de adesão aprovado, os estabelecimentos de saúde são credenciados e passam a fazer parte de uma espécie de prateleira de serviços, que poderá ser consultada pelos gestores de saúde municipais e estaduais. Esses serviços serão usados para suprir as necessidades locais e regionais em sete áreas prioritárias: oncologia, ginecologia, cardiologia, ortopedia, oftalmologia, otorrinolaringologia e nefrologia.
Em todo o país, mais de 150 propostas de instituições privadas, com ou sem fins lucrativos, já foram aprovadas. No total, o governo federal encerra o ano de 2025 com R$ 150 milhões em contratos com instituições privadas que serão revertidos em serviços especializados para a população.




