O impacto do caso Orelha ultrapassou as fronteiras de Santa Catarina e serviu como catalisador para discussões sobre políticas de segurança e saúde. A violência contra animais é frequentemente o primeiro sinal de uma ruptura na saúde mental e no tecido social de uma comunidade, sendo um indicador crítico de desajustes sociais e risco de violência interpessoal.
Pesquisas publicadas no International Journal of Environmental Research and Public Health confirmam a conexão direta entre maus-tratos a animais e violência doméstica. Quando a Polícia Civil de Santa Catarina aponta que familiares dos adolescentes envolvidos na morte de Orelha tentaram coagir testemunhas, fica clara a disfunção do ambiente familiar.
Mais ainda, especialistas e protetores alertam para a “Teoria do Elo“, que estabelece uma conexão direta entre maus-tratos a animais e a violência doméstica. Segundo a organização Ampara Animal, quem exerce crueldade contra seres sencientes apresenta um risco elevado de cometer agressões contra mulheres e crianças.
O exemplo do projeto Magrão em São Paulo
Em São Paulo, o Cejam (Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”), que administra algumas unidades públicas de saúde vinculadas à Prefeitura, já aplica na prática o que especialistas chamam de Teoria do Elo. Essa abordagem científica comprova que os maus-tratos contra animais são, muitas vezes, o primeiro sinal visível de que uma família vive sob o espectro da violência interpessoal.
Por meio do Projeto Magrão, profissionais de saúde da Atenção Primária são capacitados para identificar sinais de agressão a pets como um indicador de que crianças, mulheres ou idosos daquela mesma residência podem estar sofrendo agressões físicas, psicológicas ou negligência. Se houvesse uma rede de Atenção Primária vigilante, os sinais de agressividade desses jovens poderiam ter sido identificados e tratados muito antes da paulada fatal na Praia Brava.
Como funciona a rede de proteção nas comunidades
A iniciativa, que foi ampliada para 30 Unidades Básicas de Saúde (UBS) da zona sul de São Paulo em agosto de 2025, funciona através de uma sentinela avançada:
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Agentes Comunitários de Saúde (ACS): Durante as visitas domiciliares, eles observam a saúde e o comportamento dos animais. Um animal ferido ou extremamente acuado aciona o alerta.
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Ação Integrada: Diante da suspeita, o Agente de Proteção Ambiental (APA) é convocado, e o caso é discutido com os Núcleos de Prevenção de Violência (NPV) da unidade.
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Monitoramento digital: Desde dezembro de 2025, o sistema VIGIMASTER do CEJAM inclui um campo específico para notificações baseadas na “Teoria do Elo”, permitindo que o poder público mapeie zonas de risco psicossocial de forma inédita.
O projeto transformou a cultura de vigilância. Ele permite uma ação planejada para abordar as violências em suas mais diversas formas”, destaca Lúcia Gatti, gerente de Serviços de Saúde do Cejam.
Quebrando o elo: a educação como antídoto para a violência
O Instituto Ampara Animal lança nos próximos dias a campanha “Quebre o Elo”, que destaca como a crueldade animal é um indicador precoce de outras formas de agressão, inclusive contra crianças, mulheres e idosos. De acordo com Rosângela Gebara, diretora da instituição, a chave está em abandonar a visão antropocêntrica — onde o homem é o centro de tudo — e adotar a educação humanitária.
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Empatia na prática: Ensinar a criança a ser gentil com os animais ajuda a desenvolver a capacidade de entender as necessidades do outro.
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Respeito ao tempo: É fundamental orientar os jovens a respeitarem o comportamento natural de cada espécie, evitando o estresse do animal.
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Exemplo visual: Levar crianças para observar animais em ambientes naturais ou abrigos sérios ajuda a desconstruir a ideia do bicho como um “objeto” ou “brinquedo”.
Saiba mais: Entenda como a Ampara Animal trabalha a educação humanitária para ajudar na conscientização nas escolas e para transformar a realidade de abrigos no Brasil.
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Como identificar animais em situação de vulnerabilidade
Este roteiro foi elaborado para auxiliar Agentes Comunitários de Saúde (ACS), Agentes de Proteção Ambiental (APA) e até mesmo vizinhos atentos a identificarem situações de vulnerabilidade. O objetivo é colher informações sem colocar o informante em risco e sem gerar um tom de acusação imediata, seguindo os princípios da Teoria do Elo.
A ideia é que, ao perguntar sobre o animal, o profissional consiga pistas sobre a dinâmica de violência ou negligência dentro daquela residência.
Roteiro de abordagem: O animal como sentinela da saúde familiar
1. Abordagem de aproximação (Quebra-gelo)
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“O cãozinho de vocês é bem dócil, né? Qual o nome dele?”
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“Notei que ele está um pouco mais quietinho hoje, aconteceu alguma coisa?”
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“Vi que ele tem uma cicatriz/ferimento aqui. Ele se machucou brincando ou foi algum acidente?”
2. Investigação de cuidados e rotina (Negligência/Saúde Única)
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“Quem é a pessoa da casa que ele mais gosta ou que passa mais tempo com ele?” (Ajuda a identificar quem detém o controle sobre o animal).
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“Ele costuma ficar dentro de casa ou mais no quintal? Ele chora muito à noite?”
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“Vocês estão conseguindo dar a ração e a água direitinho ou está difícil por causa dos custos ultimamente?” (Mapeia vulnerabilidade social e risco de negligência).
3. Identificação de oadrões de agressividade (Teoria do Elo)
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“Como ele reage quando chega alguém diferente ou quando tem barulho alto em casa? Ele se esconde?” (Animais extremamente acuados podem indicar um ambiente de gritos e violência).
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“As crianças brincam muito com ele? Como é a interação deles?” (Observar se a criança reproduz gestos bruscos vistos nos adultos, conforme mencionado pelo Dr. André Ceballos).
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“Alguém da família perde a paciência com ele quando ele late ou faz bagunça? O que costumam fazer para ele parar?”
4. Avaliação de risco imediato
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“Notei que ele está mancando/com este ferimento. Vocês já conseguiram levar ao veterinário ou precisam de orientação sobre onde tem atendimento gratuito?”
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“Ele parece estar com medo de entrar em algum cômodo específico?”
Como registrar e encaminhar (para profissionais)
Se as respostas indicarem que o animal sofre agressões constantes ou negligência severa, o profissional deve:
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Não confrontar o agressor: Isso pode aumentar a violência contra o animal e contra os membros vulneráveis da família (mulheres e crianças).
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Notificar internamente: No caso de unidades geridas pelo CEJAM, utilizar o campo “Teoria do Elo” no sistema VIGIMASTER.
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Acionar o NPV: Levar o caso ao Núcleo de Prevenção de Violência da UBS para uma visita conjunta com assistentes sociais.
O que fazer ao notar violência contra animais na vizinhança?
Se você é um vizinho e identificou esses sinais através das perguntas acima, não tente intervir sozinho. Se você reside em uma área com cobertura de Agentes Comunitários de Saúde, pode relatar sua preocupação diretamente a eles.
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Procure a UBS mais próxima: Peça para falar com a equipe de assistência social ou saúde mental sobre uma “situação de risco na comunidade”. Informe sobre a situação de vulnerabilidade do animal; as equipes de saúde mental podem intervir na família.
- Denúncia Anônima: Utilize o canal 181 para relatar maus-tratos. Lembre-se que, ao salvar um animal, você pode estar interrompendo um ciclo de violência contra pessoas vulneráveis.
Serviço:
Checklist de intervenção para a comunidade
Se você deseja atuar preventivamente em seu bairro, siga este roteiro rápido inspirado no Projeto Magrão:
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Observe: Mudanças repentinas no comportamento de um cão comunitário (medo excessivo ou ferimentos).
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Dialogue: Use perguntas “quebra-gelo” com os vizinhos para entender a rotina do animal.
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Apoie: Siga o canal do portal para receber materiais educativos e compartilhar com o grupo do bairro.
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Notifique: Use o 181 se os sinais de crueldade forem confirmados.




