Para a seção Palavra de Especialista deste sábado (7/2), trazemos duas visões complementares sobre a tragédia do cão Orelha. De um lado, a psicoterapeuta Renata Roma analisa as raízes da nossa indignação e as barreiras que impedem que a comoção se transforme em mudança legislativa.
De outro, o especialista em segurança preventiva Sebastien Florens reflete sobre a responsabilidade humana, contrastando a negligência que vitimou Orelha com o rigor ético dos cães de trabalho.
Ambos os artigos convergem para um ponto central: a morte de Orelha não foi um “acaso”, mas o resultado de uma falha ética e estrutural na forma como a sociedade percebe e protege a vida animal.
Por que a violência contra animais nos indigna, mas nem sempre traz mudanças?
Por Renata Roma*
O caso do cão comunitário Orelha tem causado uma indignação muito grande em diversas camadas da sociedade, além de ter ganhado cobertura internacional. De acordo com denúncias, quatro adolescentes estariam envolvidos no episódio que resultou na morte do Orelha.
Sem entrar em detalhes sobre este ato cruel, alguns podem se perguntar: mas afinal, por que ficamos tão impressionados e indignados com esse caso e outros similares?
Ao mesmo tempo, é inevitável questionar por que, mesmo diante de tamanha indignação, ainda estamos tão distantes de uma realidade na qual existam mecanismos mais claros não apenas de punição, mas sobretudo de proteção aos animais.
Por que ficamos indignados?
Vários pesquisadores ao longo das últimas décadas têm feito a mesma pergunta e alguns fatores parecem ter um impacto importante na forma como reagimos a tais atos de violência.
Empatia por seres vulneráveis ativa reações emocionais fortes
Os animais, principalmente animais domésticos, de acordo com uma pesquisa publicada em 2023 na Frontiers in Psychology, tendem a ativar reações empáticas intensas. Isso se deve parcialmente à percepção de que são seres vulneráveis com os quais compartilhamos várias características. Muitas pessoas reconhecem a capacidade de sentir e pensar dos animais, aumentando a sensação de conexão emocional e empatia. Esse reconhecimento intensifica reações empáticas e o desejo de protegê-los.
Crueldade contra animais tem sido associada com outras formas de violência
Outro fator pode estar ligado ao crescente número de pesquisas que apontam uma ligação forte entre violência contra animais e violência interpessoal, violência doméstica e outras formas de violência. Um artigo publicado em 2020 no International Journal of Environmental Research and Public Health por exemplo, destaca uma ocorrência concomitante de abuso contra animais e violência doméstica. O reconhecimento desse link pode ter impacto nas nossas reações emocionais, já que tais eventos podem ser percebidos como uma ameaça mais ampla.
Animais como membros da família: Para um número crescente de pessoas, longe de serem simples animais, estamos falando de membros da família. Um levantamento recente com tutores nos Estados Unidos revelou que para 97% deles os pets são membros da família, números semelhantes aos observados em outras partes do mundo. Nesse cenário, atos de crueldade contra um animal doméstico podem ativar a percepção de que algo precioso e familiar foi brutalmente ferido ou destruído.
Por que então nossa indignação muitas vezes não vira ação?
Vivemos em uma sociedade onde as relações entre humanos ainda são privilegiadas e, em muitos lugares, os animais domésticos continuam sendo vistos como posse. Soma-se a isso a distância entre indignação e ações coletivas organizadas, capazes de promover mudanças estruturais.
Além disso, para algumas pessoas, esses casos são tão chocantes que até ler sobre o assunto se torna um gatilho emocional muito forte. Não por frieza, mas pela dificuldade de lidar com a dor que esse tipo de violência expõe. Com isso, a comoção tende a ser intensa, porém passageira.
Mesmo quando existe pressão social, mudanças estruturais levam tempo e esbarram em obstáculos práticos, como a falta de perícia veterinária acessível e padronizada e a ausência de uma atuação coordenada entre saúde humana, saúde animal e sistema jurídico. O resultado é que, na maioria das vezes, a indignação não se converte em proteção efetiva.
As pesquisas mostram uma ligação consistente entre abuso animal e outras formas de violência, o que por si só já justificaria uma resposta institucional mais robusta. Ainda assim, há um ponto fundamental que não pode ser ignorado: os animais merecem proteção por si mesmos, independentemente de qualquer impacto indireto sobre os humanos.
Espero que a morte brutal de Orelha seja mais do que uma indignação momentânea e se transforme em um alerta capaz de impulsionar mudanças concretas na legislação de proteção aos animais, na atuação integrada de profissionais da saúde humana e animal e na forma como os animais são percebidos em nossa sociedade.
Renata Roma é psicoterapeuta e pesquisadora na University of Saskatchewan (Canadá). Ela é especialista na relação entre saúde emocional, infância e vínculos com animais e desenvolve pesquisas há mais de 10 anos sobre os benefícios (e desafios) das interações entre humanos e animais.
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Nenhum cão é só um cão: o abismo entre negligência e responsabilidade
Por Sebastien Florens*
O caso do Orelha não expõe um crime isolado, mas o abismo entre negligência e responsabilidade na forma como a sociedade trata os cães
A carta era simples, poucas linhas, escritas à mão, deixadas dentro da casinha onde ele costumava descansar. Falava de saudade, de cuidado, e de um pedido de desculpa. Pedia perdão em nome de pessoas que não souberam proteger. Não descrevia a violência, a ausência já dizia tudo.
O gesto, registrado depois da morte do cão comunitário Orelha, comoveu o país porque não era um manifesto. Era um luto silencioso, um reconhecimento tardio de que aquele animal, tratado como parte da paisagem por tantos, era, na verdade, parte da vida.
O caso do Orelha não é um desvio isolado nem um episódio excepcional. Ele escancara como a responsabilidade humana é o fator decisivo que define se um cão será protegido ou exposto, cuidado ou abandonado à própria sorte. É nesse ponto que a conexão com o trabalho de especialistas se torna legítima. Não para comentar o crime ou explicar o inexplicável. Mas para mostrar que existem dois mundos convivendo ao mesmo tempo, tratando o cão de formas radicalmente opostas.
De um lado, o cão exposto à negligência, à violência gratuita, à ausência absoluta de responsabilidade humana. De outro, o cão visto como vida sob tutela, treinado com método, protegido por protocolos e jamais colocado em risco por descuido. Esse segundo universo é o da segurança preventiva com cães de detecção, onde o princípio básico é claro: o animal nunca paga pelo erro do homem.
Essa lógica não é discurso. É regra operacional. “Se o ambiente não é seguro, o cão não entra. Se o treinamento não está validado, a operação é suspensa. Quando há dúvida, o cuidado prevalece. O método existe justamente para eliminar improviso e exposição desnecessária”, relata.
Essa visão lança luz sobre um ponto desconfortável. O que aconteceu com o Orelha não foi um acidente. Foi o resultado extremo de uma cadeia de falhas humanas. Falha de cuidado, falha de limite, falha de responsabilidade. E isso não começa no ato final. Começa muito antes, na naturalização da violência, na ideia de que um cão “aguenta”, de que não sente, de que vale menos.
Tratar a morte do Orelha como um desvio isolado é uma forma de aliviar a consciência coletiva. Mas a repetição de casos de maus-tratos no país mostra que o problema é estrutural. Existe uma cultura que ainda naturaliza a ideia de que animais são descartáveis.
A carta deixada na casinha do Orelha funciona como um contraponto poderoso porque revela o oposto dessa lógica. “Ela mostra vínculo, afeto. E é justamente por isso que emociona.
No campo da segurança preventiva, há uma ideia que ajuda a compreender esse contraste: O silêncio. Quando um grande evento termina sem incidentes, o silêncio é sinal de sucesso. Significa que o risco foi neutralizado antes de se tornar ameaça, que o planejamento funcionou, que o cuidado foi eficaz e a segurança prevaleceu.
No caso do Orelha, o silêncio teve outro significado. Foi o silêncio da imprudência, da crueldade. Dois silêncios opostos, produzidos por escolhas humanas igualmente opostas. Essa comparação serve para lembrar algo essencial. Cães não falham. Humanos falham, sempre.
Quando um cão é bem tratado, protegido e respeitado, isso não é heroísmo. É o mínimo. Quando um cão é violentado, isso não é impulso juvenil, brincadeira ou erro pontual. É falha ética, é responsabilidade não assumida.
Orelha não era só um cão comunitário. Era um teste cotidiano de humanidade. A vida sob nossa guarda não pode ser relativizada, afinal nenhum cão é só um cão.
Sebastien Florens é especialista internacional em detecção de explosivos com cães, com mais de 25 anos de experiência em segurança preventiva e formação de cães de trabalho.




