Há alguns anos, falar sobre câncer infantil não era tão comum. Hoje, infelizmente, o cenário é outro. A cada três minutos, uma criança morre no mundo devido ao câncer, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Embora represente cerca de 3% de todos os diagnósticos oncológicos em todo o mundo, câncer infantojuvenil segue sendo a principal causa de morte por doença não acidental nessa faixa etária.

No Brasil, as estatísticas revelam um cenário preocupante. De acordo com os dados mais recentes do Painel Oncologia Brasil (DATASUS), do Ministério da Saúde, em 2025 foram registrados quase 12 mil novos diagnósticos (11.984) de câncer em crianças e adolescentes de 0 a 19 anos. Em 2024, esse número foi ainda maior, com 15.811 registros.  Os dados foram compilados pela Sobrasp – Sociedade Brasileira para a Qualidade do Cuidado e Segurança do Paciente – no dia 15 de janeiro de 2026.

A Estimativa 2026 do Instituto Nacional de Câncer (Inca) traz um alerta contundente: o Brasil deverá registrar 7.560 novos casos de câncer em crianças e adolescentes por ano entre 2026 e 2028.  Desse total, aproximadamente 3.960 casos ocorrerão em meninos (52,4%) e 3.600 em meninas (47,6%), representando um risco médio de 134,81 casos por milhão de crianças e adolescentes de 0 a 19 anos.

O risco alto das desigualdades no atendimento

Segundo os dados do Inca, as chances de sobrevivência por aqui ainda dependem fortemente da região onde a criança nasce.  Enquanto a taxa média nacional de cura gira em torno de 64%, o Sul e o Sudeste já alcançam patamares próximos de 75% e 70%, respectivamente. No Norte, porém, a sobrevida não ultrapassa 50%, revelando um abismo persistente no acesso ao cuidado especializado.

Essa diferença é inaceitável e reflete desigualdades que vão muito além do acesso geográfico. Enquanto em países desenvolvidos (Europa Ocidental, Canadá, EUA) as chances de cura superam 80%, temos regiões do Brasil onde metade das crianças com câncer não sobrevive. É um problema que exige urgência política e social”, afirma o oncopediatra Sidnei Epelman, diretor do Serviço de Oncologia Pediátrica do Santa Marcelina Saúde, e fundador e presidente da TUCCA (Associação para Crianças e Adolescentes com Câncer).

Para o especialista, a diferença não está apenas na medicina disponível, mas em atrasos no diagnóstico, dificuldade de acesso a centros especializados, falta de exames moleculares e menor oferta de terapias modernas no sistema público.

Hoje já temos tecnologia para tratar pacientes e garantir níveis de resposta positiva idênticos aos padrões internacionais. O problema é que isso ainda não chega a todos. No Brasil, o CEP continua sendo um fator determinante para a sobrevivência”, afirma o médico.

Mortes podem ser evitadas com tratamento adequado

A percepção do oncopediatra é reforçada pela OMS, que estima que grande parte das mortes por câncer infantil em países de renda média poderia ser evitada apenas com diagnóstico oportuno e tratamento adequado. Segundo o Inca, essas diferenças não significam necessariamente mais câncer nessas regiões, mas sim maior capacidade de detectar e registrar os casos, evidenciando que parte do Brasil ainda convive com subdiagnóstico:

  • O Sul tem as maiores taxas estimadas (173,35 por milhão)
  • Seguido pelas regiões Sudeste (145,11 por 1 milhão), Nordeste (26,53 por 1 milhão) e Centro-Oeste (118,54 por 1 milhão)
  • O Norte tem a menor taxa (96,88 por 1 milhão)
  • Na região Sul, o Paraná se destaca com 560 novos casos estimados e, no Sudeste, São Paulo estima 1.730 diagnósticos.

Ter diagnóstico precoce é fundamental, mas é essencial lembrar que não basta diagnosticar cedo se a criança não tem acesso rápido a um centro capaz de fazer exames histológicos, moleculares, genéticos, de imagem e oferecer tratamento completo. Sem isso, a chance de cura também despenca”, pondera Epelman.

Câncer infantojuvenil impacta a rotina das famílias

No dia 15 de fevereiro, é celebrado o Dia Internacional contra o Câncer Infantil, data que reforça a importância da conscientização, do diagnóstico precoce e do acesso ao tratamento adequado e do cuidado integral às crianças e adolescentes com câncer.

O câncer infantil é uma doença que provoca um forte impacto social e emocional, além de afetar diretamente a rotina das famílias. Em muitos casos, pais e responsáveis precisam se dedicar integralmente ao cuidado da criança, o que pode incluir o afastamento do trabalho e longos deslocamentos em busca de tratamento especializado, muitas vezes longe de casa.

Para a Sobrasp, o enfrentamento do câncer infantojuvenil começa com informação e atenção aos sintomas, garantindo segurança no cuidado e mais qualidade de vida para as crianças e adolescentes e suas famílias” afirma o pediatra e membro da entidade, Tiago Dalcin.

Segundo ele, o cuidado com o câncer infantil vai muito além do tratamento da doença. É um trabalho feito por uma equipe multiprofissional que atua para reduzir os impactos físicos e emocionais do tratamento.

Garantir a presença dos pais ou responsáveis é essencial para a segurança emocional da criança. Humanizar o cuidado é entender que essa família está vivendo uma ruptura profunda na rotina e precisa ser acolhida durante todo o processo”, finaliza Dalcin.

Entenda a urgência do diagnóstico precoce e do cuidado integral

O câncer infantojuvenil costuma afetar, principalmente, as células do sangue e os tecidos de sustentação, Por ser formado majoritariamente por células embrionárias indiferenciadas, esse tipo de câncer geralmente responde melhor aos tratamentos.  As causas ainda não são totalmente conhecidas, porém, cerca de 10% dos casos estão associados a alterações genéticas ou hereditárias.

O câncer em crianças e adolescentes é completamente diferente daqueles em adultos. São tumores embrionários, de crescimento muito rápido, mas que, quando tratados adequadamente e no tempo certo, têm altíssimas chances de cura. O problema é que nem todas as crianças brasileiras têm acesso ao que é necessário”, explica Epelman.

Segundo a Sociedade Brasileira de Oncologia Pediátrica (Sobope). câncer infantil representa um desafio de saúde pública que exige atenção multidisciplinar, diagnóstico rápido e tratamento especializado. Embora os índices de cura tenham melhorado significativamente nas últimas décadas, ainda é essencial ampliar o acesso a serviços especializados e apoiar famílias durante todo o processo de cuidado.

Avanços científicos contrastam com gargalos de acesso

Nas últimas décadas, a oncologia pediátrica avançou de forma significativa. Imunoterapia, anticorpos monoclonais, terapias-alvo e CAR-T para tumores hematológicos já permitem índices de cura próximos de 80% em centros de excelência.

Hoje conseguimos personalizar tratamentos com base no perfil genético do tumor, usando drogas mais eficazes e menos tóxicas. Quando aplicamos isso ao paciente certo, no momento certo, os resultados são excelentes”, afirma o fundador e presidente da TUCCA.

O desafio é garantir que essas inovações cheguem a todo o país. “A medicina de precisão ainda é privilégio de poucos. No SUS, faltam incorporação tecnológica, pesquisa clínica pediátrica e financiamento adequado. Crianças não podem depender do CEP para sobreviver”, reforça.

Outro entrave é o baixo interesse em estudos focados em tumores pediátricos, já que crianças representam pequena parcela dos pacientes oncológicos. “São doenças raras do ponto de vista geral da saúde e apenas uma pequena parcela dos pacientes oncológicos são crianças ou adolescentes. Por isso, o poder público precisa assumir protagonismo, incentivando mais ensaios clínicos no Brasil  e atraindo interesse da indústria farmacêutica. Sem isso, continuaremos atrasados”, conclui Sidnei Epelman.

O que precisa mudar para o Brasil chegar a 80% de cura

  1. Diagnóstico mais rápido

Capacitação da atenção primária para reconhecer sinais precoces e encaminhar imediatamente para centros especializados.

  1. Rede oncológica pediátrica integrada

Menos fragmentação entre estados e garantia de vagas reguladas em hospitais habilitados.

  1. Acesso a exames modernos

Ampliação de testes moleculares, genéticos e de imagem no SUS.

  1. Incorporação de novas terapias

Imunoterapia, terapias-alvo e CAR-T ainda chegam lentamente ao sistema público.

  1. Mais pesquisa clínica pediátrica

Incentivos governamentais para atrair ensaios clínicos e acelerar a chegada de novas drogas.

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Mapa do risco expõe falhas no diagnóstico

Rio de Janeiro registra 570 novos diagnósticos de câncer infantojuvenil em 2025. No Brasil foram quase 12 mil

Pela primeira vez, a estimativa do Inca apresenta com maior detalhe a distribuição espacial da incidência do câncer infantojuvenil no país, a partir do Projeto OncoBrasil. O levantamento mostra variações importantes entre estados, associadas principalmente à capacidade diagnóstica, à organização da rede de atenção oncológica pediátrica e à qualidade da informação.

Estados do Sul, como Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, além de Pernambuco, Paraíba e São Paulo, aparecem com taxas mais elevadas, um indicativo de maior capacidade de identificar e registrar casos, enquanto outras regiões ainda convivem com subdiagnóstico.

Segundo dados do DATASUS do Ministério da Saúde, o Brasil apresenta dimensões continentais e a taxa bruta de incidência varia de acordo com as regiões do país. No recorte estadual, o Rio de Janeiro registrou 570 diagnósticos em 2025 entre crianças e adolescentes residentes no estado. Em 2024, foram 802 casos.

DADOS OFICIAIS DO INCA 2026–2028 | Câncer infanto-juvenil (0 a 19 anos)

Estimativa de novos casos anuais:

➡️ 7.560 casos por ano no Brasil

– Meninos: 3.960 (52,4%)

– Meninas: 3.600 (47,6%)

– Risco médio nacional: 134,81 casos por milhão (exceto pele não melanoma)

Diferenças regionais (taxas por 1 milhão – Projeto OncoBrasil / INCA):

Estados com maiores taxas:

  • Paraná – 183,59
  • Pernambuco – 172,36
  • Rio Grande do Sul – ~168,1
  • Santa Catarina – ~164,9
  • Paraíba – 159,61
  • São Paulo – 153,14

Faixas nacionais de incidência:

  • 148,39 – 183,59 (mais alta)
  • 123,18 – 148,38
  • 108,73 – 123,17
  • 63,50 – 108,72

Segundo o Instituto Nacional de Câncer, essas variações refletem principalmente:

  • capacidade de diagnóstico
  • organização da rede de atenção oncológica pediátrica
  • qualidade da informação
  • subdiagnóstico em parte do país, especialmente nas regiões Norte e Norte/Nordeste.

Panorama comparativo / sobrevida:

  • Média nacional de cura: ~64%
  • Sul e Sudeste: até 70%–75%
  • Norte: não ultrapassa 50%
  • Em países desenvolvidos, a sobrevida supera 80%.

 

Os principais tipos de câncer nas crianças

Os tumores mais frequentes na infância e adolescência são as leucemias, que afetam glóbulos brancos; os tumores do sistema nervoso central e os linfomas que atingem o sistema linfático. Esse tipo de câncer representa cerca de 30% de todos os casos de câncer infantil, seguido dos tumores do sistema nervoso central, linfomas, sarcomas de partes moles, neuroblastoma e retinoblastoma. Entre adolescentes, ganham peso os linfomas de Hodgkin e não Hodgkin, tumores de células germinativas e carcinomas.

Os principais cânceres nesta faixa etária são:

  • Leucemias (principalmente a LLA – Leucemia Linfoblástica Aguda) – câncer da medula óssea, com sintomas como palidez, sangramentos e dor óssea.
  • Tumores do Sistema Nervoso Central (SNC): incluindo o meduloblastoma, caracterizado por dores de cabeça, vômitos e tonturas.
  • Linfomas: tumores que acometem o sistema linfático.
  • Neuroblastoma: tumor que afeta células nervosas, geralmente no abdômen.
  • Sarcomas (ósseos e partes moles): como o esteossarcoma (afeta ossos longos) e rabdomiossarcoma (atinge pernas e braços, além de cabeça e pescoço).
  • Retinoblastoma: câncer ocular raro, com alta incidência em crianças menores de 5 anos.

Entre adolescentes, ganham peso:

  • Linfomas de Hodgkin e não Hodgkin
  • Tumores de células germinativas
  • Carcinomas

(O INCA não divulga percentuais fechados por topografia para o grupo infanto-juvenil, apenas ranking por frequência.)

Entenda os sintomas do câncer infantojuvenil

Os sintomas do câncer infantil podem ser semelhantes aos de doenças frequentes entre crianças. É importante investigar sinais que persistem sem explicação clínica, como palidez, hematomas ou sangramento, dor óssea; caroços ou inchaços – principalmente quando são indolores e sem febre -, perda de peso inexplicada, tosse persistente, sudorese noturna e falta de ar.

É essencial ficar atento às alterações nos olhos; inchaço abdominal; dores de cabeça persistentes ou graves, vômitos pela manhã com piora ao longo do dia, além de dor em membros e inchaço sem traumas”, explica o pediatra.

Os sintomas iniciais costumam ser inespecíficos, o que dificulta o reconhecimento precoce:

  • Palidez, cansaço extremo, hematomas e sangramentos podem indicar leucemia
  • Ínguas persistentes acima de 3 cm (pescoço, virilha ou região supraclavicular) acendem alerta para linfomas
  • Dores de cabeça frequentes associadas a vômitos e alterações neurológicas podem sinalizar tumores cerebrais

Com Assessorias

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