Imagine descobrir uma doença grave antes mesmo de o primeiro sintoma aparecer. É exatamente esse o objetivo do novo estudo lançado pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca). A iniciativa vai testar a viabilidade de oferecer tomografia computadorizada de baixa dose (TCBD) pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para grupos de risco. Somada ao abandono do cigarro, a nova estratégia tem o potencial de reduzir a mortalidade por câncer de pulmão em até 38%.

Atualmente, o grande vilão do tratamento é o tempo: no Brasil, oito em cada 10 pacientes só descobrem o tumor quando ele já está em estágio avançado.  Com o rastreamento ativo, essa lógica se inverte, permitindo que o tratamento comece cedo, quando as chances de cura são significativamente maiores.

O objetivo é construir uma diretriz nacional para detecção precoce da doença, com o objetivo de reduzir a mortalidade.  De acordo com dados do Atlas de Mortalidade do Inca, o câncer de pulmão ainda é o que mais mata no país. Em 2024 houve 32.465 óbitos decorrentes decâncer de brônquios e pulmão no Brasil. Esse número supera a soma das mortes por câncer de próstata (17.826) e de mama (20.849) no mesmo ano, os tipos de tumores mais incidentes na população brasileira.

Redução do número de diagnósticos avançados

Diretor-geral do Inca, Roberto Gil, durante lançamento de estudo sobre câncer de pulmão (Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil)

Evidências internacionais indicam que o rastreamento com TCBD reduz a mortalidade do câncer de pulmão em 20%, e, quando combinado com a cessação do tabagismo, essa redução chega a 38%, segundo o Jornal Brasileiro de Pneumologia.  Quando direcionado a populações de alto risco, o método pode reduzir significativamente a proporção de diagnósticos em estágios avançados — de cerca de 90% para 30% dos casos.

No Brasil, a estratégia ainda não integra diretrizes nacionais de rastreamento, o que reforça a importância de iniciativas que produzam evidências científicas para orientar futuras recomendações em saúde pública. O protocolo que está sendo testado segue consenso médico das sociedades brasileiras de Cirurgia Torácica e de Pneumologia e Tisiologia, além do Colégio Brasileiro de Radiologia e Diagnóstico por Imagem.

O oncologista clínico Roberto Gil, diretor-geral do Inca, destacou a importância da iniciativa diante dos “desafios de implementar um modelo efetivo de rastreamento em um país com características epidemiológicas próprias, como o Brasil, que apresenta alta incidência de tuberculose e de doenças granulomatosas”.

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Desafio é vencer o diagnóstico tardio

A elevada taxa de mortalidade do câncer de pulmão está diretamente relacionada ao diagnóstico tardio: cerca de 84% dos casos são identificados em estágios avançados, o que se reflete em uma taxa de sobrevida em cinco anos de aproximadamente 5,2%.  As estimativas do Inca apontam que o Brasil terá cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano no triênio 2026–2028.

Mudar esse cenário exige mais do que remédios; exige chegar antes da doença. “A gente vai tentar detectar cedo, antes de ter sintomas, um câncer de pulmão, e que a pessoa pare de fumar”, disse o médico epidemiologista do Inca, Arn Migowski, que lidera o estudo. Segundo ele, será um novo protocolo que tem ganhado corpo em evidências robusta.

Como funciona na realidade do SUS na vida real? A gente consegue funcionar bem na nossa realidade, tem uma boa adesão, tem riscos. Vamos testar localmente para ir ampliando se for o caso em nível nacional”, acrescentou o pesquisador.

Parceria com o Programa de Controle do Tabagismo do SUS

A novidade foi anunciada em cerimônia realizada no auditório do Hospital Municipal Souza Aguiar, no Rio de Janeiro, nesta quarta-feira (1).  O estudo conta com o apoio técnico da Secretaria Municipal de Saúde do Rio, servindo como um “balão de ensaio” para que, em breve, esse rastreamento se torne uma regra em todo o Brasil.

A  seleção dos pacientes será realizada pelo seu Programa de Cessação de Tabagismo, que tem em torno de 50 mil participantes. De acordo com o secretário municipal de Saúde, Rodrigo Prado, o estudo trará informações epidemiológicas importantes para o cuidado da população.

 O Programa Nacional de Controle do Tabagismo é uma política pública séria para prevenir doenças associadas ao fumo, como o câncer de pulmão. O controle do tabagismo protege a saúde, reduz gastos do SUS e ajuda a formar uma sociedade consciente e comprometida com a qualidade de vida e o bem-estar coletivo”, afirma

Como vai funcionar o estudo?

O projeto terá duração de dois anos e focará em um grupo inicial de 387 pacientes, podendo ser expandido. A ideia é criar um “caminho expresso” dentro do sistema público: do exame de imagem ao tratamento especializado.

  • Público-alvo: O estudo foca em pessoas, entre 50 e 80 anos, que fumam ou pararam de fumar há pouco tempo (até 15 anos). O participante deve apresentar carga tabágica de 20 anos/maço ou mais (o que equivale a 20 cigarros por dia, todos os dias, ao longo de 20 anos).

  • Parceria estratégica: A seleção será feita em conjunto com as clínicas da família do Rio de Janeiro, utilizando o cadastro de pacientes que já buscam ajuda para parar de fumar no Programa Municipal de Cessação do Tabagismo.

  • Tratamento garantido: Em caso de diagnóstico positivo para câncer de pulmão, o paciente será encaminhado para o Hospital do Câncer I, que é centro de referência para o tratamento do câncer no Rio e faz parte da rede de alta complexidade do SUS, com protocolos definidos pela classificação Lung-RADS.

Alerta para o aumento no uso de vapes entre jovens

O câncer de pulmão é um dos maiores desafios de saúde pública no País, mas é altamente prevenível, considerando que cerca de 85% dos casos estão associados ao consumo de derivados de tabaco.  O presidente da Aliança Brasileira de Combate ao Câncer de Pulmão, Gustavo Prado, explica que no tabagismo existe um desafio recente que, pela primeira vez em mais de 15 anos, houve aumento e mudança na prevalência dessa condição com a introdução dos dispositivos eletrônicos, os vapes. 

Mais pessoas estão fumando hoje, especialmente os mais jovens de 18 a 24 anos. A gente precisa novamente intensificar as estratégias de prevenção e numa linguagem que atinja os jovens”,

Ao tratar o tabagismo e o câncer de forma integrada e preventiva, o sistema não apenas salva vidas individuais, mas também reduz a pressão sobre os recursos públicos e promove um ambiente mais saudável. O estudo é financiado pela AstraZeneca.

Com informações da Agência Brasil e Inca

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