O estigma de que o câncer é uma doença exclusiva da terceira idade está sendo derrubado por estatísticas preocupantes. Dados publicados na revista científica BMJ Oncology revelam que a incidência de câncer em pessoas com menos de 50 anos aumentou 79% nas últimas três décadas em todo o mundo. No Brasil, o cenário é ainda mais agudo: segundo o Ministério da Saúde, os casos nessa faixa etária atendidos pelo SUS saltaram 284% entre 2013 e 2024.

Embora cerca de 80% dos diagnósticos ainda ocorram em pessoas acima dos 60 anos, o avanço acelerado entre jovens de 20 a 40 anos — especialmente em tumores de mama, colorretal, tireoide e pâncreas — tem mobilizado a comunidade médica para entender o que está antecipando essas mutações genéticas.

Por que mais jovens estão sendo diagnosticadas cada vez mais cedo?

Para especialistas, o crescimento não é uma anomalia, mas o reflexo de mudanças profundas no estilo de vida moderno. A Dra. Ana Vitarelli, professora de Oncologia do Afya Centro Universitário, explica que o fenômeno é multifatorial e envolve desde a alimentação até a exposição ambiental.

“Observamos mudanças importantes no estilo de vida, maior exposição a riscos ambientais e metabólicos, além do avanço dos métodos diagnósticos, que hoje permitem identificar tumores de forma mais precoce”, afirma a médica.

Fenômeno multifatorial: por que os jovens estão adoecendo?

Entre os principais “gatilhos” apontados pelos especialistas estão:

  • Alimentação ultraprocessada: O alto consumo de fast food, embutidos e açúcares.

  • Sedentarismo e obesidade: O excesso de peso gera uma inflamação crônica que danifica o DNA.

  • Novos hábitos de risco: O uso de cigarros eletrônicos (vapes) e o consumo abusivo de álcool.

  • Fatores ambientais: Exposição a microplásticos, pesticidas e poluição desde a infância.

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Genética X estilo de vida

Ao contrário do que se imagina, a hereditariedade não é a vilã principal. Cleydson Santos, oncologista da Rede Mater Dei de Saúde, reforça que apenas 10% a 15% dos cânceres têm causa hereditária. “Os outros 80% ou mais acontecem devido a fatores de risco e estilo de vida”, aponta.

Tatiane Montella, oncologista da Casa de Saúde São José, acrescenta que as mudanças promovidas a partir do século XX, como o uso excessivo de antibióticos e o estresse psicossocial, também alteram o microbioma intestinal, criando um ambiente favorável ao surgimento precoce de tumores.

O perigo de subestimar os sinais

Um dos maiores obstáculos no tratamento de jovens é o atraso no diagnóstico. Por se sentirem “invulneráveis”, muitos pacientes ignoram sintomas, e até mesmo médicos clínicos podem não suspeitar de câncer devido à idade do paciente.

O jovem tende a subestimar o diagnóstico e a importância de conhecer o próprio corpo. Sintomas como dor persistente, emagrecimento inexplicado e fadiga prolongada devem ser investigados”, alerta o Dr. Cleydson.

Além disso, tumores em jovens tendem a ser mais agressivos biologicamente. Por outro lado, pacientes nessa faixa etária costumam tolerar melhor tratamentos intensos, o que eleva as chances de cura se a doença for detectada precocemente.

Preservação da fertilidade e futuro

Com o aumento de curas em pacientes jovens, surge uma nova prioridade clínica: a qualidade de vida pós-câncer. Especialistas destacam a importância de discutir a preservação da fertilidade antes de iniciar quimioterapias, permitindo que sobreviventes realizem o sonho de constituir família no futuro por meio do congelamento de óvulos ou espermatozoides.

Check-list: sinais que jovens não devem ignorar

  • Alterações intestinais ou urinárias persistentes;

  • Nódulos ou endurecimentos em qualquer parte do corpo (mamas, testículos, pescoço);

  • Sangramentos anormais (vaginal, nas fezes ou urina);

  • Fadiga extrema que não melhora com o repouso;

  • Perda de peso sem dieta ou exercício.

Com Assessorias

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