O calor extremo não é um problema isolado do nosso país. O planeta está cada vez mais quente devido às mudanças climáticas. Segundo a Organização Meteorológica Mundial, agência da ONU responsável por monitorar o tempo, o clima e a hidrologia, 2025 foi o ano mais quente já registrado na história, um reflexo direto do aumento das emissões de gases do efeito estufa e do impacto da urbanização. E tudo indica que 2026 seguirá a tendência.

Em meio a temperaturas elevadas na cidade de São Paulo neste verão, a ONG SP Invisível anunciou o lançamento das ações da campanha “Calor Invisível”, um conjunto de iniciativas voltadas a mitigar os impactos do calor extremo sobre pessoas em situação de vulnerabilidade social durante o verão. Em mais uma edição, a ação, que teve início em 7 de fevereiro, tem como objetivo atender cinco mil pessoas até o fim do verão, com a distribuição de água, viseiras, squeezes e kits pet, compostos por vasilha e água.

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostram que o número de ondas de calor no país saltou de cerca de 7 para 32 ocorrências nos últimos 30 anos, refletindo o aumento de dias consecutivos com temperaturas excepcionalmente altas e períodos prolongados de seca.

Em grandes centros urbanos como São Paulo, esse cenário é agravado pelo fenômeno das ilhas de calor, que elevam ainda mais a sensação térmica em regiões com pouca arborização e infraestrutura precária, impactando de forma desproporcional populações em situação de vulnerabilidade social.

A iniciativa tem como objetivo fornecer suporte e recursos para a população em situação de rua e vulnerabilidade durante períodos de altas temperaturas, e prevê a entrega de água durante as atividades regulares da organização, como jantares e cafés da manhã, além de intervenções emergenciais itinerantes em períodos críticos de altas temperaturas.

Nosso objetivo é minimizar o mal-estar causado pelas ondas de calor por meio da distribuição de insumos essenciais e da oferta de orientações sobre cuidados com a saúde em condições de calor intenso”, comenta André Soler, fundador da SP Invisível.

Calor extremo escancara desigualdades sociais

Na última edição, entre janeiro e março do ano passado, devido a uma intensa onda de calor, a organização realizou a distribuição emergencial de água beneficiando diretamente 5.672 pessoas em situação de rua. A SP Invisível também fornece infraestrutura para a distribuição perene de água em pontos estratégicos da cidade, ampliando o acesso contínuo à hidratação para quem vive nas ruas.

No Brasil, o impacto do calor é intensificado pela desigualdade no acesso à água. Segundo o levantamento do Instituto Trata Brasil, mais de 33 milhões de brasileiros vivem sem acesso regular à água potável, realidade que atinge com maior força pessoas em situação de rua e moradores de regiões periféricas. Além disso, cerca de 2,1 milhões de crianças e adolescentes não tinham acesso adequado à água potável no país em 2022, conforme dados do Unicef baseados no Censo Demográfico do IBGE.

O calor extremo escancara desigualdades que já existem. Para quem vive nas ruas ou em contextos de alta vulnerabilidade, não é apenas desconforto, é risco real à saúde e à vida. O Calor Invisível nasce para garantir algo básico, mas essencial, acesso à água, cuidado e informação, com uma abordagem humana e respeitosa”, afirma Soler.

Duas frentes de atuação

As ações Calor Invisível acontecem em duas frentes principais. A primeira é a entrega de garrafas de água, alimentos e outros donativos durante as ações regulares realizadas pela organização em diferentes pontos da cidade. A segunda é a ação emergencial itinerante, ativada especialmente em semanas de calor intenso, levando hidratação, proteção e acolhimento diretamente às ruas.

Além dessas frentes, a SP Invisível promove ações especiais ao longo do verão. No próximo dia 7 de fevereiro, será realizada a Ducha Solidária Invisível, uma edição especial com foco em saúde mental, redução de danos e cuidado humanizado, incluindo orientações sobre combate às drogas e ao alcoolismo, com apoio de profissionais especializados. Um mutirão adicional está previsto para março, ampliando o alcance da iniciativa.

Até o final do verão, manteremos um calendário intenso de ações em regiões como Brás, Rodoviária Tietê, Largo da Batata, Santo Amaro, Paissandu, Glicério, Itaquera e outras áreas estratégicas da cidade de São Paulo”, finaliza. Essas ações reforçam a presença contínua junto às populações mais impactadas pelas desigualdades climáticas e sociais.

Com o Calor Invisível, a SP Invisível reforça seu compromisso de atuar de forma emergencial e estruturada diante dos efeitos do calor extremo, promovendo dignidade, cuidado e visibilidade para quem mais sente os impactos da crise climática no cotidiano das ruas. Pessoas e empresas podem fortalecer essa mobilização acessando o site da ONG e contribuindo por meio de doações, ampliando o alcance das ações e o cuidado com quem mais precisa.

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Arquitetura nas cidades não favorece conforto térmico

Se nas ruas os termômetros estão nas alturas, dentro das casas e escritórios a sensação térmica não é muito diferente. De acordo com as arquitetas Belisa Mitsuse (Bel) e Estefânia Gamez (Tef), especialistas em Feng Shui e sócias do BTliê Arquitetura, vidro, concreto e outras escolhas arquitetônicas contemporâneas podem intensificar ainda mais o calor nos ambientes internos e externos.

O uso excessivo de fachadas envidraçadas, por exemplo, acaba gerando um efeito estufa interno. O vidro retém o calor e dificulta a dissipação térmica, tornando os ambientes mais quentes e exigindo o uso constante de ar-condicionado”, explica Bel. De acordo com a especialista, nos edifícios com vidros espelhados o problema é agravado. “A luz e o calor refletidos aumentam criticamente a temperatura do entorno”, afirma.

Além disso, Bel explica que edifícios com janelas fixas reduzem a ventilação natural e a circulação de ar, intensificando a sensação de abafamento dentro dos imóveis. “Isso não apenas compromete o conforto térmico, mas também afeta a energia vital dos ambientes, conhecida no Feng Shui como Chi”.

Para as especialistas, repensar o design das construções não é apenas uma questão estética, mas uma necessidade diante das mudanças climáticas. “A arquitetura tem um impacto direto na qualidade de vida das pessoas. Precisamos priorizar projetos que respeitem o equilíbrio térmico e energético, garantindo espaços mais frescos, saudáveis e sustentáveis”, diz Bel.

Ventilação e Feng Shui

Diferente da abordagem tradicional, um projeto arquitetônico que segue o Feng Shui considera o fluxo de energia vital pelos cômodos do imóvel, e isso está diretamente ligado à ventilação e às janelas. Alguns princípios fundamentais garantem um espaço equilibrado e agradável.

A ventilação cruzada, por exemplo, além de permitir a entrada e saída de ar, também auxilia na renovação da energia dos espaços. Esse é um dos recursos mais eficientes para reduzir a sensação térmica sem depender de climatização artificial”, afirma Tef.

A arquiteta salienta que um ambiente mal ventilado acumula calor e energia estagnada, o que pode impactar diretamente o bem-estar das pessoas, gerando cansaço, estresse e outros problemas de saúde. O posicionamento das janelas também faz diferença. “No Feng Shui, recomendamos que as aberturas estejam alinhadas a pontos de entrada de vento para facilitar a circulação de ar e a movimentação do Chi”, explica.

Elementos naturais

Além da ventilação, a escolha dos materiais pode influenciar tanto a temperatura quanto a harmonia do ambiente. “O concreto, tão comum nas construções atuais, não é um bom isolante térmico. Em dias quentes, ele absorve o calor externo e retém a temperatura por muito tempo. Por isso é comum encostar na parede ao final do dia e ela ainda estar quente, o que também aquece o cômodo”, afirma Tef.

A orientação da especialista é optar por materiais naturais sempre que possível. “Madeira, pedra e tijolos ecológicos ajudam a manter a temperatura equilibrada dentro das casas e ainda trazem benefícios energéticos”, conclui Tef.

A especialista também reforça a importância da integração da vegetação à arquitetura. “Árvores próximas às janelas, coberturas verdes e jardins verticais ajudam a filtrar o calor e melhorar a qualidade do ar. Além disso, representam o elemento madeira, essencial para o equilíbrio energético dos espaços”.

Outra estratégia eficaz é a implementação de fontes de água próximas às janelas. “O espelho d’água ajuda a resfriar o ambiente e traz umidade para o ar seco das cidades. No Feng Shui, a posição da água também influencia a energia do espaço, garantindo um fluxo mais harmônico”, pontua Bel.

Com Assessorias

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