O Dia Mundial dos Animais de Rua, celebrado neste sábado (4 de abril), alerta para a situação de mais de 200 milhões de animais que enfrentam fome, sede, doenças e maus-tratos nas ruas, além da necessidade de controle populacional. Estima-se que no Brasil existam 30 milhões de animais abandonados, divididos entre 20 milhões de cães e 10 milhões de gatos.

O que muita gente não sabe é que cães abandonados e invisibilizados podem realizar um papel nobre: levar apoio e alegria a crianças em tratamento de câncer. Os corredores do Hospital do GRAACC contaram com uma presença diferente no último dia 23 de março.

Três cães terapeutas sem raça definida (SRDs), resgatados pelo Instituto Caramelo, visitaram a instituição como parte do projeto “Love que Cuida”, que dá visibilidade a pets historicamente rejeitados: idosos, com deficiência ou SRDs, enquanto oferecem suporte emocional aos pacientes.

Para as mães que acompanham a jornada diária no Hospital, ver o sorriso no rosto dos filhos diante dos visitantes de quatro patas é a confirmação de que o cuidado pode ir além. Mariana Lemos, mãe de Isabela, que está em tratamento há um ano, observou a primeira interação da filha com os pets da ação. Embora Isabela tenha uma companheira fiel em casa, o ambiente hospitalar traz novos desafios.

Em casa temos uma cachorrinha que ela ama. Aqui, ela ficou com um pouquinho de medo no começo por não conhecê-los, mas logo passou”, conta Mariana. “Esse contato ajuda muito no tratamento; ela brinca, passeia, distrai e ocupa a cabeça. Como a Isa não pode ir à escola ou encontrar muito com os amigos devido ao tratamento, ela é sua grande companhia do dia a dia. Elas têm uma rotina juntas e essa amizade é fundamental”, completa.

A experiência de ver o filho superar o receio inicial também marcou a mãe de Heitor, de 2 anos. Ela destaca como a convivência com animais molda o caráter e a felicidade de uma criança. “Percebemos o medo no começo, mas quando ele viu que eram bonzinhos, se entregou. A criança que cresce com um cachorrinho se torna mais feliz e cuidadosa”, afirma.

Minha mãe também foi paciente oncológica e teve um cachorro que foi seu companheiro do diagnóstico até o último dia. Ele faleceu três meses depois dela, sentia falta e procurava por ela todos os dias; era um amor mútuo. Queremos que o Heitor sinta esse mesmo amor. Projetos assim são importantes para trazer essa humanidade ao dia a dia deles.”

O benefício ao bem-estar de pacientes e familiares

Unindo histórias de resiliência e força, a interação traz mais do que acolhimento e afeto, se transforma em um momento de distração e felicidade. O ambiente hospitalar, muitas vezes marcado por rotinas rígidas e procedimentos delicados, ganhou olhares diferentes. Mais do que uma visita, a ação proporcionou um respiro, importante para o bem-estar emocional de pacientes e familiares.

Momentos como esse reforçam um pilar essencial do nosso cuidado, que é a humanização. O tratamento oncológico pediátrico vai muito além dos protocolos médicos, ele envolve olhar para a criança em sua totalidade, incluindo suas emoções, medos e necessidades afetivas”, afirma André Luis Negrão, CEO do Hospital do GRAACC.

Segundo ele, a interação com os cães proporciona uma quebra na rotina hospitalar, reduz a ansiedade e resgata sensações de normalidade, fundamentais para o enfrentamento da doença. “Quando conseguimos promover experiências que geram bem-estar e acolhimento, também contribuímos para uma jornada de tratamento mais leve e com mais qualidade de vida para nossos pacientes”, reflete.

Transformando dificuldades em acolhimento

Para o movimento ‘Love que Cuida’ acontecer, os animais passaram por um criterioso processo de seleção e sensibilização. Segundo Bruna Garcia, médica-veterinária da Petlove, o temperamento é o fator crucial, e não a linhagem.

O animal precisa ser dócil, saudável e capaz de lidar com o alto nível de estímulos e o toque constante, características que esses cães demonstraram de sobra, provando que qualquer pet pode ser um agente de bem-estar se tiver o perfil adequado”, explica.

Uma corrente de adoção responsável

A ação não termina no hospital. A Petlove e o Instituto Caramelo utilizam os registros da visita para impulsionar campanhas de adoção nas redes sociais. O objetivo é mostrar que os “terapeutas” do dia estão prontos para encontrar suas famílias definitivas.

Cada um desses cães já enfrentou o abandono e a rejeição, e hoje eles estão aqui levando carinho e esperança para crianças que também passam por momentos difíceis. É uma troca muito bonita, porque enquanto eles ajudam no tratamento emocional dos pacientes, também ganham visibilidade para encontrar uma família e um novo começo”, ressalta Yohanna Perlman, diretora executiva do Instituto Caramelo.

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Mais de 11 mil castrações e 315 adoções em 2025 no Instituto Caramelo

Relatório anual evidencia impacto em resgates, adoções, prevenção e ações de saúde pública animal

Referência nacional no resgate e reabilitação de animais em situação de abandono e maus tratos, o Instituto Caramelo é uma organização não governamental sem fins lucrativos que nasceu em fevereiro de 2015 para dar voz àqueles que não podem falar. Com um hospital veterinário 24 horas, atende mais de 300 animais e realiza castrações gratuitas, intervenções emergenciais e acompanhamento contínuo até que todos estejam prontos para adoção responsável.

O Instituto Caramelo encerrou 2025 com números que reforçam a dimensão e a complexidade do trabalho necessário para enfrentar o abandono de animais no Brasil. Ao longo do ano, a ONG resgatou de 342 animais – como cães, gatos, cavalos e porcos, viabilizou 315 adoções responsáveis e promoveu 11.278 castrações, entre procedimentos internos e mutirões gratuitos externos.

Cuidado vai além do resgate de animais abandonados

Mais do que acolher animais em situação de vulnerabilidade, o Instituto Caramelo atua de forma integrada para atacar as causas do abandono. Somente em 2025, foram realizados 187 atendimentos veterinários gratuitos a animais de tutores externos e 109 cirurgias em seu centro cirúrgico, além de campanhas permanentes de vacinação e controle populacional.

Os números mostram que o combate ao abandono não se resolve apenas com resgates. Ele passa por prevenção, acesso à saúde veterinária, educação e cuidado contínuo. Cada castração, cada atendimento gratuito e cada adoção responsável representam um impacto direto na saúde pública e no bem-estar coletivo”, destaca Yohanna Perlman, diretora executiva do Instituto Caramelo.

Os desafios do processo de adoção responsável

Os dados de 2025 também evidenciam os desafios do processo de adoção responsável. No ano, 35 animais retornaram ao abrigo após processos de adoção, reforçando a importância de uma triagem criteriosa, do acompanhamento pós-adoção e da conscientização contínua das famílias adotantes.

A adoção é um compromisso de longo prazo e que deve ser feito com responsabilidade. Avaliamos cada caso com cuidado pois entendemos que o bem-estar do animal vem sempre em primeiro lugar”, explica Yohanna”.

Clube Caramelo: conexão entre a saúde humana e animal

Além do cuidado direto com os animais, o Instituto ampliou sua atuação social. Mais de 500 voluntários participaram das atividades ao longo do ano, e dezenas de toneladas de ração foram distribuídas para protetores independentes por meio de parcerias. Em 2025, o Caramelo também lançou o Clube Caramelo, iniciativa voltada à saúde mental, reforçando a conexão entre saúde animal e humana.

O ano foi marcado ainda por campanhas de grande visibilidade, como o Art for Pets, que levou esculturas às ruas de São Paulo para chamar atenção para o abandono animal, e uma ação nacional de adoção responsável inspirada no filme “Caramelo”, da Netflix, conectando ONGs de diferentes estados.

Todas as informações sobre os animais participantes e como adotar podem ser encontradas nos canais oficiais das instituições.

Caso Orelha: como prevenir os maus tratos a animais

O Dia Mundial dos Animais de Rua foi criado em 2010 por organizações holandesas para conscientizar sobre o abandono e combater o sofrimento de milhões de animais. A data é um chamado para a empatia e ação contra a crueldade que é o abandono, reforçando que a proteção animal é uma responsabilidade coletiva.
O caso recente envolvendo Orelha – um cão comunitário de 10 anos de idade que vivia em uma praia do litoral de Santa Catarina – mobilizou o país para combater com mais rigor a crueldade praticada contra os animais de rua. A partir da repercussão do caso, foi aprovado um conjunto de leis mais rígidas no Brasil, prevendo multas que podem passar de R$ 1 milhão em caso de morte.

Como ajudar (ações de conscientização):

A campanha incentiva a guarda responsável e promove a castração para reduzir a superpopulação. Confira algumas medidas.
  • Adote: Prefira a adoção de um animal de abrigo em vez da compra.
  • Denuncie: Maus-tratos e abandono são crimes e devem ser denunciados às autoridades.
  • Apoie ONGs: Ajude com doações de ração, medicamentos ou trabalho voluntário para protetores independentes.
  • Castração: Apoie ou promova programas de castração na sua comunidade.
Com Assessorias
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