O país deve registrar 781 mil novos casos de câncer a cada ano no próximo triênio, revelou a Estimativa 2026-2028: Incidência de Câncer no Brasil, divulgada pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca) nesta quarta-feira (4/2), Dia Mundial do Câncer. Em 2026, a data ganha contornos de urgência para o Brasil. As projeções refletem o avanço da doença como uma das principais causas de adoecimento e morte no país.
O cenário aponta que o câncer caminha para se tornar a principal causa de morte no país, aproximando-se das doenças cardiovasculares. O fenômeno é impulsionado pelo envelhecimento populacional, mas também por fatores de risco evitáveis e profundas desigualdades no acesso à saúde.
A urgência é global: a Agência Internacional para Pesquisa de Câncer (IARC/OMS) prevê um aumento de 77% nos casos mundiais até 2050. Países de média e baixa renda, como o Brasil, estarão no “olho do furacão” fiscal e assistencial, exigindo cooperação internacional para acesso a novas tecnologias e enfrentamento de produtos nocivos, como dispositivos eletrônicos de fumar e ultraprocessados.
O levantamento do INCA aponta que, entre os homens, os cinco tipos de câncer mais incidentes são os de próstata, cólon e reto, pulmão, estômago e cavidade oral, respectivamente. Entre as mulheres, em ordem de incidência, predominam os cânceres de mama, cólon e reto, colo do útero, pulmão e tireoide.
O câncer de pele não melanoma permanece como o mais frequente em ambos os sexos, sendo apresentado separadamente em razão de sua alta incidência e baixa letalidade. Quando excluídos os tumores de pele não melanoma, a estimativa é de aproximadamente 518 mil casos anuais.
O mapa da doença: tipos mais frequentes e diferenças regionais
A incidência de tumores varia drasticamente entre homens e mulheres e conforme a região geográfica, refletindo disparidades socioeconômicas e de infraestrutura.
Entre os homens, a maior prevalência é de:
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Próstata (30,5%)
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Cólon e reto (10,3%)
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Pulmão (7,3%)
Entre as mulheres, os destaques são:
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Mama (30%)
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Cólon e reto (10,5%)
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Colo do útero (7,4%)
A preocupação é acentuada nas regiões Norte e Nordeste, onde o câncer de colo do útero e de estômago (em homens) ainda apresentam números elevados. Já nas regiões Sul e Sudeste, predominam os tumores associados ao estilo de vida e tabagismo, como pulmão e cavidade oral.
De “combate” a “controle”: uma mudança de paradigma
A incidência crescente de câncer de cólon e reto é um dos maiores alertas atuais. Segundo Gil, o aumento está diretamente ligado à exposição precoce a fatores de risco, como a obesidade, o sedentarismo e o consumo de alimentos ultraprocessados.
A publicação destaca ainda cânceres com grande potencial de prevenção e detecção precoce, como o do colo do útero e o colorretal, que seguem entre os mais incidentes no País.
O diretor-geral do Inca, Roberto Gil, propõe uma revisão no vocabulário da saúde pública. Para o especialista, o termo “combate” deve dar lugar a “controle do câncer”, tratando-o como uma doença crônica que exige políticas amplas e contínuas.
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Políticas públicas e o programa Agora Tem Especialistas
Os dados divulgados mostram a dimensão do desafio que o país tem pela frente. Para enfrentar o que especialistas chamam de “tsunami de casos”, o governo federal aposta no programa programa Agora Tem Especialistas, lançado em 2025. A iniciativa coloca a oncologia no centro das políticas públicas de saúde, fortalecendo a prevenção, ampliando o diagnóstico precoce e garantindo tratamento no tempo oportuno pelo SUS, além de combater a visão “hospitalocêntrica” do passado.
Quando lançamos o Agora Tem Especialistas, fizemos questão de criar um eixo específico para o câncer, porque ele já é uma prioridade absoluta do SUS. O desafio que assumimos é estruturar a maior rede pública de prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer do mundo. O programa não se resume à expansão de serviços, mas à qualificação do cuidado, com coordenação nacional e o papel estratégico do INCA. Cada vitória de um paciente é uma vitória coletiva nossa contra o câncer”, afirmou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha,
Avanços na prevenção, no diagnóstico e no tratamento em todo o país
O Ministério da Saúde ampliou o acesso à mamografia no SUS, permitindo que mulheres de 40 a 49 anos, mesmo sem sinais ou sintomas, possam realizar o exame na rede pública. Antes, a oferta era recomendada para mulheres entre 50 e 69 anos. A idade limite também foi ampliada de 69 para 74 anos. A medida fortalece a detecção precoce e aumenta as chances de cura.
Somente com mamografias bilaterais de rastreamento, o SUS realizou cerca de 3 milhões de exames em 2025. Dados da Pesquisa Vigitel/MS 2025 mostram que 92% das mulheres afirmam ter realizado mamografia na faixa etária entre 50 e 69 anos, resultado associado à ampliação do acesso ao exame no SUS.
Além disso, em 2025, 33 carretas de atenção à saúde da mulher, focadas na prevenção do câncer de mama e do colo do útero, percorreram municípios de todo o país, promovendo a equidade no acesso. As unidades móveis do programa Agora Tem Especialistas ofertam consultas e exames como mamografia, ultrassonografia pélvica e transvaginal, além de biópsias para o diagnóstico precoce dessas doenças.
A saúde da mulher precisa ser prioridade absoluta no SUS. Começamos pelo câncer de mama porque é o tipo de câncer que mais mata mulheres no nosso país e porque elas são a maioria das pessoas que utilizam o SUS. O enfrentamento do câncer do colo do útero passa pela ampliação da vacinação contra o HPV, pelo diagnóstico e pelo acesso ao tratamento no tempo adequado”, destacou o ministro Padilha.
Teste molecular e vacina contra o HPV
Para ampliar o diagnóstico precoce do câncer do colo do útero no SUS, o programa implementou o teste molecular DNA-HPV, tecnologia nacional que integra o novo rastreamento organizado da doença na rede pública. Inicialmente ofertado em 12 estados, o exame identifica a presença do vírus antes do surgimento de lesões, inclusive em mulheres assintomáticas, ampliando as chances de cura e reduzindo o tempo de espera por atendimento especializado.
A vacinação contra o HPV também é fundamental para a prevenção de diferentes tipos de câncer e está disponível no SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos, além de imunossuprimidos, vítimas de violência sexual, usuários de PrEP e crianças com papilomatose respiratória recorrente.
Dados preliminares de 2025 apontam que a cobertura vacinal no país alcançou 85% entre meninas e 73% entre meninos nessa faixa etária. Oito estados já alcançaram coberturas superiores a 90%, meta acordada junto à OMS para ser atingida até 2030, no âmbito da Iniciativa de Eliminação do Câncer do Colo do Útero.
Mais tratamento, mais acesso
Outro avanço importante foi a incorporação de um medicamento inédito para o tratamento do câncer de mama do tipo HER2 positivo. A terapia pode reduzir em até 50% a mortalidade e contou com investimento de R$ 159,3 milhões, com custo cerca de 50% menor que o praticado no mercado, garantindo o atendimento integral da demanda pelo SUS.
Na quimioterapia, o sistema público alcançou um recorde histórico em 2025, com a realização de quase 7 milhões de procedimentos até novembro, ampliando o acesso ao tratamento oncológico em todo o território nacional. O dado representa um crescimento de aproximadamente 80% em relação a todo o ano de 2022, quando foram realizados 3,9 milhões de procedimentos.
Em 2025, entraram em funcionamento 24 novos aceleradores lineares, incluindo o primeiro equipamento no estado do Amapá. Cada aparelho tem capacidade para atender pelo menos 600 pacientes por ano. Para 2026, está prevista a aquisição de mais 131 equipamentos, com o objetivo de garantir o tratamento do câncer no tempo oportuno.
Com a criação de uma nova portaria de radioterapia em 2025, o Ministério da Saúde inovou a forma de financiamento dos serviços: quanto mais pacientes atendidos, mais recursos são repassados. Além disso, para garantir o tratamento do câncer longe de casa, o Ministério da Saúde criou um auxílio exclusivo para custear transporte, alimentação e hospedagem de pacientes que precisam realizar radioterapia.
Viva Mais Brasil
Combater o câncer também é promover saúde. No início deste ano, o Governo Federal lançou a Estratégia Viva Mais Brasil, com investimento de R$ 340 milhões, estruturada em dez compromissos voltados ao fortalecimento da promoção da saúde no país.
A iniciativa reúne ações diretamente relacionadas à prevenção do câncer, como o estímulo à atividade física, à alimentação saudável, à redução do tabagismo e do consumo de álcool, à ampliação da vacinação e ao enfrentamento das doenças crônicas. A Academia da Saúde é um dos destaques da estratégia e receberá mais R$ 40 milhões ainda em 2026.
Alexandre Padilha reforça que a prevenção é a arma mais eficaz, citando a redução do câncer de colo do útero através da vacinação contra o HPV. “O desafio é estruturar a maior rede pública de prevenção e tratamento do mundo”, afirmou o ministro em nota oficial no Portal do Ministério da Saúde.
Com informações do Ministério da Saúde e Agência Brasil




