O avanço dos diagnósticos de Transtorno do Espectro Autista (TEA) tem ampliado a pressão sobre o setor de saúde suplementar no Brasil e revelado fragilidades no modelo atual de atendimento dos planos de saúde. O autismo deixou de ser uma questão secundária dentro do sistema e passou a ocupar posição central nos debates sobre assistência, regulação e sustentabilidade financeira. O cuidado com pessoas no espectro exige acompanhamento contínuo, terapias especializadas e uma estrutura capaz de responder a demandas de longo prazo.
Dados internacionais ajudam a dimensionar a questão. De acordo com números do Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos (CDC), uma em cada 31 crianças está dentro do espectro autista. Ao considerar uma projeção para a realidade brasileira, esse universo pode chegar a quase 6 milhões de pessoas, o que amplia a responsabilidade das operadoras diante de um cenário cada vez mais desafiador.
Anderson Farias, CEO da TopSaúde HUB, destaca que o tratamento do TEA costuma envolver terapias intensivas, frequentes e prolongadas, como Análise do Comportamento Aplicada (ABA), fonoaudiologia e terapia ocupacional.
Embora sejam fundamentais para o desenvolvimento dos pacientes, esses atendimentos também geram forte impacto financeiro. Em muitos casos, afirma, os custos relacionados ao autismo podem representar até 80% das despesas totais de um beneficiário, superando inclusive áreas tradicionalmente onerosas, como a Oncologia”.
Esse desequilíbrio, segundo Farias, tem alimentado o aumento dos conflitos entre famílias e operadoras. “Diante de negativas parciais, limitações contratuais ou dificuldades de acesso, muitos pais têm recorrido à Justiça para assegurar o tratamento integral. Ele observa que, em grande parte das ações, as decisões judiciais acabam favorecendo os pacientes, especialmente quando as terapias prescritas envolvem métodos amplamente reconhecidos”.
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Faltam profissionais qualificados para atender à demanda
Outro obstáculo é a carência de profissionais capacitados para atender à crescente demanda. Apesar da existência de cursos e programas de especialização voltados ao autismo, a formação ainda avança em ritmo inferior ao necessário, o que compromete a expansão da rede assistencial.
Desde então, métodos e técnicas prescritos por médicos para o tratamento do TEA passaram a ter cobertura obrigatória, sem limitação do número de sessões. Para as famílias, a medida representou um avanço histórico. Para as operadoras, porém, trouxe a necessidade de rever processos, redes de atendimento e estratégias de gestão. Diante desse contexto, insistir em uma postura apenas reativa deixou de ser uma opção. Algumas experiências mostram que é possível avançar quando há planejamento e estratégia.
Mapear e segmentar a carteira de beneficiários com TEA permite entender perfis, faixas etárias e necessidades reais, criando programas mais eficientes e previsíveis. O fortalecimento da rede assistencial, por meio de parcerias com clínicas especializadas e centros de referência, amplia o acesso e pode diluir custos. Investir na capacitação contínua de médicos e terapeutas melhora a qualidade das prescrições e reduz o uso de abordagens sem respaldo científico, beneficiando tanto o paciente quanto o sistema”, declarou o executivo.
Insistir em respostas pontuais já não é suficiente. Ações mais estruturadas são necessárias, como o mapeamento detalhado da carteira de beneficiários com TEA, a segmentação por perfil e faixa etária e o fortalecimento da rede credenciada por meio de parcerias com clínicas e centros especializados. A proposta é tornar o atendimento mais eficiente, previsível e menos sujeito a conflitos.
A qualificação constante de médicos e terapeutas também é vista como parte essencial da solução. Para Farias, prescrições mais assertivas e alinhadas com evidências científicas contribuem para melhores resultados clínicos e evitam o uso de abordagens pouco eficazes. Ele ressalta ainda a importância da integração entre os profissionais que indicam e os que executam o tratamento, evitando falhas de comunicação que comprometem o desenvolvimento do paciente.
Orientação, acolhimento e canais de suporte, segundo ele, ajudam a reduzir a sensação de desamparo vivida por muitos responsáveis após o diagnóstico e fortalecem a relação de confiança com o plano de saúde”.
Para Anderson Farias, o futuro do atendimento ao autismo na saúde suplementar dependerá da combinação entre gestão eficiente, inovação e humanização. “Operadoras que conseguirem estruturar redes qualificadas, investir em transparência e oferecer um cuidado mais coordenado terão mais condições de reduzir litígios, melhorar os desfechos clínicos e responder a uma demanda que tende a crescer nos próximos anos”, concluiu.





