Cada vez mais se fala sobre o Transtorno do Espectro do Autismo (TEA) e o aumento no número de diagnósticos ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, a estimativa mais recente do CDC (Centers for Disease Control and Prevention), divulgada em abril de 2025, aponta que 1 em cada 31 crianças de 8 anos está dentro do espectro.
É a maior prevalência registrada pelo CDC, superando a taxa anterior de 1 em cada 36 crianças, que corresponde a mais de 3% da população estudada. O crescimento é ainda mais expressivo em comparação com os anos 2000, quando a prevalência era de 1 para cada 150, e na década de 2010, quando passou para 1 em cada 69.
No Brasil, é crescente o debate em torno do TEA.  No Brasil, dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgados em maio de 2025, informam que 2,4 milhões de pessoas foram avaliadas como pertencentes ao TEA, o que representa 1,2% da população com 2 anos ou mais.
A maior concentração está entre crianças de 5 a 9 anos (2,6% ou 1 em cada 38), seguidos de 0 a 4 anos (2,1%), o que reforça o avanço no diagnóstico precoce, resultado de maior conscientização e busca de informações por parte de pais e responsáveis.

Estamos, de fato, diante de um aumento real de casos?

Esse cenário levanta dúvidas frequentes: estamos, de fato, diante de um aumento real de casos? Ou há outros fatores envolvidos? Segundo a pediatra Anna Dominguez Bohn, duas principais hipóteses ajudam a explicar esse fenômeno.
O aumento dos diagnósticos está muito relacionado ao avanço da ciência, com melhores ferramentas e maior compreensão do desenvolvimento infantil. Além disso, fatores ambientais e do estilo de vida moderno ainda estão sendo estudados e podem ter influência, embora não estejam totalmente esclarecidos”, afirma.
Para o neuropediatra Tarcísio Brito, esse aumento alimenta a impressão de que o transtorno estaria se tornando mais comum, mas é preciso analisar esse quadro com cautela, pois trata-se de um aumento na prevalência (número total de casos existentes), e não na incidência (número de novos casos).
Observa-se que, embora hoje os diagnósticos de transtorno do espectro do autismo sejam mais frequentes do que no passado, os dados sugerem que isso pode estar mais relacionado com mudanças importantes tanto no conhecimento sobre o TEA quanto na estrutura de saúde e educação do Brasil do que a um fenômeno de hiperdiagnóstico.

Mais informação, diagnósticos mais precisos

É cada vez mais comum ouvir falar sobre o aumento de diagnósticos de TEA, tanto entre adultos quanto entre crianças. De acordo com dados da Answer ThePublic, o termo “autismo” e “autismo e TDAH” são pesquisados cerca de 6.600 vezes por mês, o que revela uma crescente busca por informações e suporte sobre essa condição.

Décadas atrás, no entanto, o TEA era pouco compreendido, o que levava a diagnósticos errados ou à ausência deles. Receber um diagnóstico de autismo pode ser um momento desafiador para muitas famílias, mas é apenas o ponto de partida de um percurso que pode ser transformador com o apoio adequado.

Quando descobri o autismo do meu filho, senti um abismo imenso e percebi o quanto eu estava despreparada. Debater a questão era algo muito difícil tanto para as escolas, quanto para as famílias e para a sociedade em geral. Tudo é muito complexo, pouco aprofundado, sem contar o emocional. A mãe nunca espera esse tipo de diagnóstico”, pontua a empresária Ingrid Monte, mãe de um menino de 9 anos, diagnosticado com TEA com apenas 2. 

Um espectro, múltiplas formas

O Dia Mundial de Conscientização sobre o Autismo, celebrado em 2 de abril, reforça a importância de ampliar o debate sobre diagnóstico, acesso e cuidado. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) não é identificado por exames laboratoriais ou de imagem. O diagnóstico é clínico e baseado em critérios internacionais que avaliam o comportamento e o desenvolvimento da criança.
Não existe um exame único que confirme o autismo. O diagnóstico exige uma avaliação criteriosa, feita ao longo do tempo e em diferentes contextos, observando padrões de comportamento e interação social”, explica a médica.
 O TEA é caracterizado por grande diversidade de manifestações. Hoje, o diagnóstico considera principalmente dois grandes grupos de sinais: dificuldades na comunicação social e padrões de comportamento repetitivos ou interesses restritos.
Cada criança dentro do espectro é única. Algumas podem ter linguagem altamente desenvolvida, mas apresentar dificuldades na interação social ou na compreensão de sinais não verbais”, destaca a Dra. Anna.
Essa variabilidade torna o diagnóstico um desafio, especialmente nos casos mais leves, que podem passar despercebidos ou, ao contrário, receberem um avaliação equivocada.

Diagnóstico precoce faz diferença

Um estudo publicado em 2025 no Journal of the American Academy of Child and Adolescent Psychiatry demonstrou que a aplicação sistemática de triagem para autismo em consultas pediátricas pode antecipar o diagnóstico em meses decisivos para o desenvolvimento infantil.
A pesquisa, que acompanhou cerca de 5 mil crianças, mostrou que aquelas submetidas a rastreio padronizado foram encaminhadas para avaliação mais cedo, em média aos 20 meses, contra 24 meses no grupo sem triagem sistemática.
Essa diferença de poucos meses é extremamente relevante. Estamos falando de um período de intensa plasticidade cerebral, em que intervenções precoces podem mudar significativamente o desenvolvimento da criança”, afirma a pediatra.
Além disso, o rastreamento precoce permitiu identificar crianças com sinais mais sutis, que provavelmente demorariam mais para receber diagnóstico. Apesar das discussões sobre aumento de casos, especialistas reforçam que o diagnóstico não deve ser visto como um rótulo, mas como uma ferramenta.
O diagnóstico não é o fim, e sim um ponto de partida. Ele permite entender as necessidades e potencialidades de cada criança, direcionando intervenções mais adequadas e promovendo melhor qualidade de vida”, conclui a pediatra.

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Terapias multidisciplinares: uma abordagem integrada

Autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento que muda a maneira como uma pessoa percebe e interage com o mundo ao seu redor. Suas principais características incluem dificuldades na comunicação, interação social e padrões de comportamento restritos e repetitivos. Como o espectro é amplo e impacta diversas áreas, cada pessoa apresenta características do transtorno de maneira única, o que torna o acompanhamento personalizado e multidisciplinar essencial.

Para o neuropediatra Tarcizio Brito, quanto mais cedo a criança iniciar a abordagem com terapias dirigidas, maiores são as chances de ela desenvolver habilidades de comunicação, interação social e comportamento adaptativo, ganhando cada vez mais autonomia. “Esse é o principal benefício de uma intervenção precoce com um trabalho multidisciplinar”, afirma.

A intervenção multidisciplinar, que envolve diferentes áreas da saúde, como Psicologia baseada na Análise do Comportamento Aplicada (ABA), Fonoaudiologia e Terapia Ocupacional, é essencial para melhorar a qualidade de vida e a autonomia das crianças com TEA. Essa abordagem permite um tratamento integrado que potencializa as habilidades e o bem-estar da criança, além de beneficiar toda a família.

Quando essas terapias são integradas e adaptadas às necessidades individuais, os progressos são impressionantes. Não apenas transformam a vida da criança, mas também proporcionam alívio e esperança para as famílias”, afirma a orientadora e terapeuta ocupacional da Genial Care, Alessandra Peres.

Práticas baseadas na ABA  são altamente eficazes  e  recomendadas pela Organização Mundial da Saúde para pessoas com desenvolvimento atípico. Essa técnica modifica comportamentos e desenvolve habilidades por meio de reforços positivos e estratégias individualizadas.

Fonoaudiologia, por sua vez, foca no desenvolvimento da comunicação e da linguagem, enquanto a Terapia Ocupacional trabalha habilidades motoras e de percepção corporal, impactando diretamente as atividades diárias da criança.

O que é o Transtorno do Espectro Autista?

Para as famílias, o diagnóstico pode gerar muitas emoções, como insegurança e ansiedade, especialmente sobre o futuro da criança. De acordo com um estudo da Genial Care em parceria com a Tismoo.me, 79% dos cuidadores de crianças com autismo expressam grande preocupação com o que está por vir após o diagnóstico.

As apreensões podem ser relacionadas tanto ao futuro dessa criança, principalmente em relação à independência e autonomia, quanto, de modo mais imediato, quais terapias realizar, visto a quantidade de informação que hoje existe a disposição. É relevante, assim sendo, que a família tenha profissionais de confiança que trabalhem com práticas baseadas em evidências para melhor suporte e direcionamento nesse momento inicial”, destaca Alice Tufolo, conselheira clínica da Genial Care, rede de cuidado de saúde atípica especializada em crianças autistas e suas famílias

Para Alessandra, investir em soluções personalizadas é essencial para garantir uma intervenção mais eficaz e menos desgastante. Segundo ela, a intervenção no  TEA tem avançado no Brasil e no mundo, mas ainda há muitos desafios a serem superados.

A integração de terapias e o uso de tecnologias que apoiam terapeutas e cuidadores podem transformar o cenário, promovendo o desenvolvimento das crianças e melhorando sua qualidade de vida. A busca pelo tratamento certo, respaldado por profissionais qualificados e uma abordagem individualizada, é fundamental para garantir o sucesso na jornada de cada criança com TEA”, finaliza.

Com Assessorias
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