O ambiente escolar, que deveria ser de acolhimento e segurança, tornou-se palco de violência na manhã da quarta-feira, 25 de março de 2026. O subtenente Ricardo Telles de Noronha Júnior, do Batalhão de Choque da Polícia Militar, agrediu estudantes dentro do Colégio Estadual Senor Abravanel (antigo Colégio Amaro Cavalcanti), no Largo do Machado, Zona Sul do Rio de Janeiro.
O episódio – que foi filmado e amplamente divulgado nas redes sociais, gerando uma onda de indignação em todo o Brasil – ocorreu durante uma mobilização legítima dos estudantes contra o assédio sexual e moral, pauta que reforça a urgência do combate à misoginia nas instituições de ensino, principalmente após o impacto causado pelo caso de estupro coletivo de uma jovem de 17 anos por colegas do Colégio Pedro II.
Também reacende o debate sobre a militarização do ambiente escolar e o despreparo das forças de segurança para lidar com os jovens, expondo ainda a necessidade de protocolos eficazes contra o assédio às mulheres, inclusive dentro das escolas, e a falta de controle dos órgãos governamentais para conter a violência de gênero.
Dados alarmantes e a política de proteção
O caso ocorre em um cenário de estatísticas críticas. Segundo o Dossiê Mulher 2024 (ISP-RJ), em 2023, mais de 3 mil meninas de até 17 anos foram vítimas de estupro ou importunação sexual no estado. O Registro de Violência Escolar (RVE) reforça a gravidade: meninas representam 94% das vítimas de assédio e 100% das vítimas de estupro no ambiente escolar.
Para enfrentar essa realidade, o Governo do Estado lançou, em julho de 2025, o programa Nós+Seguras. A iniciativa integra as secretarias de Mulher, Educação e Saúde para transformar as escolas em espaços de proteção. O programava buscava “romper com ações isoladas, apostando na formação de profissionais para acolher e proteger as estudantes de forma estruturada”.
No entanto, a iniciativa, divulgada amplamente na ocasião, não serviu para evitar a sequência de fatos repugnantes que o Brasil inteiro assistiu na internet. De acordo com relatos das vítimas e documentos (como uma ata enviada à Seeduc em 18 de março), as denúncias de condutas abusivas já haviam sido levadas à direção há mais de um ano, mas a inércia institucional forçou os alunos a protestarem.
Prevenção e educação: O contraponto necessário
Enquanto o episódio na escola do Largo do Machado revela o despreparo no manejo de conflitos, outras iniciativas buscam atacar a raiz do problema. No dia 30 de março, a juíza Katylene Collyer Pires de Figueiredo, do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), retornou à Escola Municipal Estácio de Sá, onde estudou, para participar de palestra do projeto Rio Lilás, que foca em educar também os meninos sobre respeito e diálogo.
O projeto “Conexão TJ x Escola” leva magistradas para rodas de conversa com alunos sobre prevenção da violência doméstica e de gênero. “Quando a violência chega ao tribunal, ela já aconteceu. Por isso, precisamos trabalhar a prevenção”, afirmou a magistrada, destacando a importância de educar meninos sobre o respeito e o diálogo, combatendo estereótipos machistas e os riscos da exposição digital.
Esse esforço educativo também foi visto em São Paulo, onde 180 estudantes da EMEF Antenor Nascentes realizaram a “Passeata pelas Mulheres” no Jardim Ubirajara. Diferente do desfecho violento no Rio, a ação paulista foi apoiada pela equipe escolar e pela GCM, focando na panfletagem e conscientização da comunidade contra o feminicídio.
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Entenda o episódio
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A mobilização estudantil, organizada pelo grêmio da escola com apoio da Associação Municipal dos Estudantes Secundaristas (Ames Rio), visava formalizar um abaixo-assinado formalizando o pedido de afastamento de um professor de Física, acusado de assédio sexual e moral contra pelo menos duas alunas.
A entrada dos representantes da Ames Rio, Marissol Lopes (presidente) e Theo Oliveira (secretário-geral), teria sido autorizada pela Secretaria Estadual de Educação (Seeduc). No entanto, a direção da unidade alegou “invasão” e acionou o programa Segurança Presente, escalando um conflito que deveria ter sido resolvido no campo pedagógico.
As imagens que circularam nas redes sociais mostram o subtenente Ricardo Telles de Noronha Júnior, do Batalhão de Choque, desferindo dois tapas no rosto de Marissol Lopes, chegando a rasgar sua vestimenta, e um soco em Theo Oliveira, que caiu ao chão. Um terceiro estudante, João Herbella, diretor do DCE da UFRJ, foi detido enquanto filmava a ação.
Denúncia de transfobia contra liderança estudantil
Além da violência física, Marissol, que é uma mulher transexual, denunciou ter sofrido transfobia por parte da direção da escola e durante o registro na 9ª DP (Catete), onde teria sido tratada pelo seu “nome morto”, ferindo direitos fundamentais de identidade.
Além da pauta contra a misoginia e o assédio, os alunos da Amaro Cavalcanti denunciam problemas estruturais, como a falta de climatização e a precarização da merenda, elementos que também impactam a saúde e o bem-estar dos estudantes.
- Infraestrutura: Falta de ventilação adequada e ausência de ar-condicionado nas salas de aula.
- Alimentação: Queixas sobre a má qualidade e a falta de regularidade da merenda escolar.
- Recursos Humanos: Falta de professores e inspetores na rede estadual.
Afastamento de PM e investigação sobre omissão da diretoria
No dia seguinte (26 de março), os alunos realizaram uma assembleia e uma nova passeata até a prefeitura e a sede da Seeduc, unindo a pauta contra o assédio ao repúdio à violência policial sofrida pelos colegas. Após a repercussão do caso, as autoridades tomaram as seguintes providências:
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Polícia Militar: O subtenente foi identificado e afastado preventivamente das funções operacionais. A Corregedoria-Geral instaurou um inquérito para apurar o abuso de autoridade e a violência física.
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Educação: A Seeduc publicou no Diário Oficial o afastamento do professor de física e a abertura de um Processo Administrativo Disciplinar (PAD).
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Investigação de omissão: Uma sindicância foi aberta para apurar por que a direção da escola e a Coordenadoria Regional de Educação (CRE) não agiram diante dos relatos de assédio feitos anteriormente pelas alunas.
O papel da escola na proteção à mulher
O contraste entre a repressão policial e os programas governamentais de proteção evidencia um divisor de águas: a escola como espaço de silenciamento ou como espaço de voz. O episódio revela que a luta contra a misoginia exige mais do que punição; exige uma reforma estrutural na forma como as instituições acolhem denúncias e educam para a igualdade.
A memória dos atos após o estupro no Pedro II e a atual mobilização no Colégio Amaro Cavalcanti mostram que a luta contra a misoginia exige que as políticas públicas, como o Nós+Seguras, saiam do papel e alcancem efetivamente o cotidiano das salas de aula.
Curiosidade: colégio já foi alvo de outra arbitrariedade
Não é a primeira vez que o centenário Colégio Estadual Amaro Cavalcanti é palco de arbitrariedade e falta de respeito. A centenária escola teve seu nome alterado para Colégio Estadual Senor Abravanel em outubro de 2024, por decisão da Secretaria Estadual de Educação. A mudança homenageia Silvio Santos (Senor Abravanel), que estudou e se formou em contabilidade na instituição. O apresentador faleceu aos 93 anos em agosto do mesmo ano.

Nota editorial: Este conteúdo reflete as informações consolidadas até abril de 2026. O portal seguirá acompanhando o desfecho do Processo Administrativo Disciplinar e as investigações sobre a conduta policial.














