Com as temperaturas cada vez mais elevadas, cresce o uso de ar-condicionado e ventiladores para amenizar o calor. Em muitas casas, o ar–condicionado deixou de ser luxo e passou a integrar a rotina de milhões de brasileiros. No entanto, junto com o alívio térmico, surge uma dúvida recorrente: afinal, o ar–condicionado faz mal à saúde respiratória ou essa fama é exagerada?
Outro problema comum é a alternância brusca de temperatura entre ambientes quentes e frios. O chamado choque térmico provoca inflamação nas vias respiratórias, tornando-as mais suscetíveis a irritações e infecções.
Segundo a otorrinolaringologista e especialista em alergias respiratórias Cristiane Passos Dias Levy, do Hospital Paulista, a resposta não é tão simples. “O ar–condicionado, por si só, não é o vilão. O problema está na forma como ele é utilizado e mantido”, explica.
Pessoas que viajam com frequência ou passam muitas horas em locais climatizados durante a estação mais quente do ano estão mais sujeitas a dores de garganta. Com o aumento das temperaturas e o período de férias, cresce o tempo de exposição ao ar-condicionado em hotéis, carros, aviões e ambientes de trabalho.
A variação brusca entre o calor externo e o frio dos ambientes climatizados, somada ao ar seco, está entre os principais fatores por trás das dores de garganta, rouquidão e irritação das vias aéreas, que se tornam queixas comuns no verão. Isso ocorre porque o uso prolongado do ar-condicionado resseca as mucosas da garganta e do nariz”, diz médico otorrinolaringologista André Freire Kobayashi, especialista da Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial
Quando o ar–condicionado pode piorar rinite e sinusite
De acordo com a médica, alguns fatores comuns no uso do aparelho ajudam a explicar por que muitas pessoas relatam piora de sintomas respiratórios em ambientes climatizados. “O ar–condicionado tende a reduzir a umidade do ar, deixando o ambiente mais seco. Isso pode irritar as mucosas nasais e agravar quadros de rinite e sinusite”, afirma Dra. Cristiane.
O ressecamento das vias aéreas favorece ardor nasal, sensação de nariz entupido e aumento da secreção. Outro ponto de atenção é a falta de manutenção. “Filtros sujos acumulam poeira, ácaros e outros alérgenos, que acabam sendo lançados no ar e podem desencadear crises alérgicas”, alerta. Em locais fechados e com grande circulação de pessoas, o problema se intensifica, já que o ar contaminado pode favorecer a disseminação de vírus e bactérias.
Além disso, mudanças bruscas de temperatura — como sair do calor intenso da rua para um ambiente muito frio — também sobrecarregam as vias respiratórias. “O ar frio provoca constrição dos vasos sanguíneos das mucosas, o que pode intensificar inflamações e sintomas respiratórios”, explica a especialista.
Temperatura ideal faz diferença
Um erro comum, segundo a médica, é ajustar o aparelho para temperaturas muito baixas. “Existe uma faixa considerada mais segura e confortável para a saúde respiratória, que fica entre 22 °C e 24 °C”, orienta.
Manter essa temperatura ajuda a evitar choques térmicos, reduz o ressecamento excessivo do ar e diminui a irritação das vias aéreas. “Quanto maior a diferença entre o ambiente externo e o interno, maior tende a ser o impacto no organismo”, diz.
Sinais de alerta: quando o corpo dá recado
Alguns sintomas recorrentes podem indicar que o ar–condicionado está contribuindo para o desconforto respiratório. Ardor ou irritação nasal ao ligar o aparelho, espirros frequentes, congestão nasal persistente e olhos irritados são alguns dos sinais mais comuns.
“Pessoas com asma ou histórico de alergias respiratórias podem perceber piora da respiração ou sensação de falta de ar”, acrescenta Dra. Cristiane. Dor de cabeça associada ao uso do ar–condicionado também pode estar relacionada ao ressecamento do ar.
Ao notar esses sinais, a recomendação é simples: interromper temporariamente o uso do aparelho, ventilar o ambiente e verificar as condições de limpeza e manutenção.
Uso consciente reduz riscos
Apesar dos cuidados necessários, a especialista reforça que não é preciso abrir mão do ar–condicionado. “Quando bem utilizado, com manutenção adequada e temperatura correta, ele pode ser um aliado do conforto térmico sem prejuízo à saúde”, afirma.
A limpeza regular dos filtros — a cada um a três meses, dependendo do uso — é fundamental. Também vale investir em boa ventilação e, se necessário, no uso de umidificadores para manter a umidade do ar entre 40% e 60%.
Pequenas mudanças na rotina fazem grande diferença. O problema não é o ar–condicionado em si, mas o uso inadequado e a falta de cuidados”, conclui Dra. Cristiane.
Ventilador ou ar-condicionado: qual é a melhor escolha para enfrentar o calor sem prejudicar a saúde?
Especialista explica como ventilador e ar-condicionado afetam a saúde respiratória e orienta cuidados essenciais para usar cada aparelho com segurança durante os dias mais quentes
Quando o calor aperta, a busca por alívio é imediata. Ventilador ligado a noite toda, ar-condicionado em temperatura baixa ou a combinação dos dois viram aliados quase automáticos. Embora tragam alívio imediato, essa combinação de temperatura controlada e ar seco pode provocar desconfortos nas vias respiratórias, principalmente na garganta e no nariz. O ressecamento das mucosas aumenta a sensibilidade, causando irritação, pigarro constante, tosse e até quadros infecciosos.
O ar-condicionado e o ventilador são aliados no calor, mas, se usados de forma inadequada, podem se tornar fatores de risco para problemas respiratórios”, alerta Roberta Pilla, otorrinolaringologista e membro da ABORL-CCF – Associação Brasileira de Otorrinolaringologia e Cirurgia Cérvico-Facial. “Mucosas ressecadas têm menor eficiência na filtragem de partículas e na defesa do organismo.”
Mas, do ponto de vista da saúde respiratória, será que todas essas escolhas são inofensivas? A resposta não é tão simples — e depende tanto do aparelho quanto de quem está exposto a ele. Segundo a otorrinolaringologista Anike Nascimbem, do Hospital Paulista, ventilador e ar-condicionado têm efeitos diferentes sobre o organismo e apresentam vantagens e limitações que precisam ser consideradas, especialmente por pessoas com doenças respiratórias.
Do ponto de vista respiratório, o ar-condicionado tende a ser a opção mais saudável, principalmente para pacientes com rinite e asma, porque ele promove a filtragem do ar, reduzindo a circulação de poeira, partículas e outros agentes irritantes”, explica a médica.
Ar filtrado ajuda, mas exige atenção
A capacidade de filtrar o ar faz do ar-condicionado um aliado importante para quem sofre com alergias respiratórias. No entanto, o benefício vem acompanhado de um efeito colateral conhecido: o ressecamento das mucosas.
O ar-condicionado pode ressecar o nariz, a garganta e as vias aéreas, o que favorece irritações, desconforto e até sangramentos nasais em algumas pessoas”, alerta Dra. Anike. Por isso, o uso prolongado, especialmente em temperaturas muito baixas, deve ser evitado.
Ventilador: sensação de alívio, mas sem proteção
Já o ventilador funciona de forma bem diferente. Ele não resfria nem filtra o ar — apenas o movimenta. Isso faz com que o ambiente pareça mais fresco, mas também favorece a circulação de poeira, ácaros, vírus e outros alérgenos.
Para pessoas alérgicas ou asmáticas, o ventilador pode piorar os sintomas justamente porque espalha essas partículas pelo ambiente”, explica a especialista. Por outro lado, como não resseca tanto as mucosas, ele pode ser melhor tolerado por quem não tem doenças respiratórias.
Rinite e sinusite: como evitar crises
Tanto o ventilador quanto o ar-condicionado podem contribuir para o agravamento de crises de rinite e sinusite se usados sem cuidados. A chave está no equilíbrio. “Manter o ambiente adequadamente umidificado, investir na hidratação oral e fazer a lavagem nasal com solução salina são medidas simples, mas muito eficazes”, orienta a médica. Umidificadores de ar podem ajudar, desde que sejam higienizados corretamente para não se tornarem focos de fungos e bactérias.
Limpeza faz toda a diferença
Independentemente da escolha, a manutenção dos aparelhos é fundamental para a saúde. Ventiladores acumulam poeira nas hélices e grades, enquanto filtros de ar-condicionado sujos perdem eficiência e se transformam em fontes de contaminação. “A limpeza regular dos aparelhos, dos filtros e do ambiente como um todo é indispensável. Não adianta investir em tecnologia se o ar que circula está contaminado”, reforça Dra. Anike.
Atenção redobrada para grupos mais sensíveis
Crianças, idosos e pessoas com alergias respiratórias fazem parte do grupo que mais sente os efeitos do uso inadequado desses aparelhos. Para eles, os cuidados devem ser ainda mais rigorosos. “Essas populações se beneficiam do uso de ventiladores e ar-condicionado no verão, desde que todas as recomendações sejam seguidas: higiene dos aparelhos, hidratação adequada, lavagem nasal regular e controle da umidade do ambiente”, afirma a otorrinolaringologista.
Conforto térmico com responsabilidade
No fim das contas, não existe um vilão absoluto quando o assunto é enfrentar o calor. O problema está no uso excessivo, sem manutenção e sem atenção às necessidades individuais. “Ventilador e ar-condicionado podem ser aliados da saúde e do bem-estar. O mais importante é entender como cada um funciona e adotar cuidados simples para que o alívio do calor não venha acompanhado de problemas respiratórios”, conclui Dra. Anike.
7 cuidados para prevenir crises de rinite nos dias de calor
Médica diz que as altas temperaturas favorecem a concentração de alérgenos que inflamam a mucosa nasal; outro cuidado é com o choque térmico ao sair de um ambiente com ar–condicionado
Você sabia que o calor intenso pode contribuir para as crises de rinite? Um dos motivos é que as temperaturas elevadas, somadas à alta umidade, aumentam a concentração de ácaros e fungos, principais causadores da rinite alérgica. Por outro lado, o tempo quente e seco favorece o ressecamento das mucosas nasais e facilita a entrada de alérgenos, como a poeira. Outro gatilho é ir de um ambiente com ar–condicionado para outro externo com calor extremo, pois o choque térmico sobrecarrega as defesas nasais.
Raquel Rodrigues, médica otorrinolaringologista do Hospital de Olhos de Pernambuco (HOPE), explica que “a rinite é uma inflamação da membrana da mucosa do nariz que provoca sintomas como coriza, obstrução nasal, espirros frequentes e coceira no nariz, olhos ou garganta. Nos períodos de calor, as mais comuns são a rinite alérgica e a vasomotora, que pode ser desencadeada por cheiros fortes, fumaça, mudanças de temperatura ou estresse”.
A médica explica mais sobre esses dois tipos de rinite:
- Alérgica: pode ocorrer em épocas específicas ou durante o ano todo. Ocorre uma inflamação crônica da mucosa nasal provocada pela reação exagerada do sistema imunológico a alérgenos inalados.
- Vasomotora: é uma rinite crônica não alérgica e não infecciosa, que não envolve o sistema imunológico. A inflamação dos vasos sanguíneos da mucosa nasal ocorre em resposta a estímulos irritantes que causam uma reação física.
Nos dois casos, o tratamento geralmente envolve o uso de corticóides ou de anti-histamínicos, além de lavagem nasal diária com soro fisiológico. Já os descongestionantes nasais só devem ser utilizados sob orientação médica e por tempo limitado, em razão do risco de dependência, ressecamento ou de outras complicações decorrentes do uso prolongado. Outra medida importante é afastar os gatilhos que desencadeiam a rinite”, afirma a Dra. Raquel Rodrigues.
A rinite também pode ser viral, como parte de um resfriado, ou bacteriana, que exige o uso de antibiótico, sendo que nos dois casos o paciente geralmente fica curado em até dez dias. Já as rinites alérgica e vasomotora são crônicas e os cuidados preventivos devem ser adotados constantemente.
É importante sempre consultar um otorrinolaringologista a fim de obter o diagnóstico preciso, além de tratar corretamente para evitar que a inflamação evolua para uma sinusite, otite ou outro tipo de complicação”, destaca a médica.
7 cuidados recomendados pela especialista
– limpe regularmente os filtros do ar–condicionado e as hélices dos ventiladores para evitar o acúmulo de poeira, ácaros e fungos;
– durante o uso do ar–condicionado ou em dias de secura no ar, utilize umidificadores ou uma vasilha com água para manter a umidade ideal;
– mantenha a casa limpa e arejada para evitar a acumulação de alérgenos;
– beba bastante água para hidratar o organismo;
– evite o consumo de bebidas geladas, pois podem irritar a garganta e agravar as crises;
– em dias quentes e muito poluídos, utilize máscara facial nos ambientes externos;
– faça a lavagem nasal regularmente para remover impurezas e hidratar a mucosa.
Cuidados simples que fazem diferença
Especialistas da ABORL-CCF recomendam medidas práticas para minimizar os efeitos do ar seco e preservar a saúde do nariz e da garganta:
- Hidratação constante: beber água regularmente mantém as mucosas úmidas e reduz desconfortos.
- Umidificação do ambiente: usar umidificadores ou recipientes com água ajuda a preservar a integridade das vias respiratórias.
- Evitar mudanças bruscas de temperatura: proteger-se ao sair de locais climatizados para o calor intenso e evitar exposição prolongada ao frio.
- Limpeza de aparelhos: filtros sujos de ar-condicionado e ventiladores acumulam poeira e alérgenos, favorecendo irritações.
- Higiene nasal: lavar as narinas com soro fisiológico mantém o nariz úmido e elimina partículas irritantes.
O cuidado com o ar que respiramos é tão importante quanto a alimentação e a hidratação. Pequenas atitudes diárias permitem aproveitar o conforto do ar-condicionado e do ventilador sem comprometer a saúde das vias respiratórias”, reforça Dra. Roberta.
É importante ficar atento a sinais de alerta, como tosse persistente, dor de garganta intensa, rouquidão prolongada ou secreção nasal amarelada ou esverdeada. Nesses casos, a orientação médica é indispensável.
Neste verão, atenção e prevenção são fundamentais. Ajustar a temperatura do ar-condicionado, manter a hidratação, adotar hábitos de higiene nasal e cuidar da limpeza do ambiente são medidas simples que podem fazer grande diferença.
Com Assessorias





