Se você tem alguma criança por perto, seja filho de vizinho, sobrinho, filho ou enteado, sabe bem o significado do dia 12 de outubro. No Brasil, o Dia das Crianças (12 de outubro) foi definido pelo presidente Artur Bernardes em 1924 como uma forma de promover a necessidade de se valorizar a qualidade de vida dos pequenos.
Naquele tempo, as crianças eram ignoradas. Pior: as pobres trabalhavam duro, não tinham oportunidade de estudo e ainda poderiam parar na cadeia! Veja essa pesquisa do Senado. Hoje, boa parte das casas da classe média e alta são organizadas conforme a idade dos rebentos.
Mas, como (quase) tudo nesse mundo, a data acabou sendo capturada por empresas para fomentar o consumo. O varejo é movimentado pela efeméride. Se o Papai Noel foi uma criação do jeito que o conhecemos pela Coca-Cola, o Dia das Crianças foi bombado pela Johnson e Johnson, que usou a data como uma estratégia de marketing em conjunto com a fábrica de brinquedos Estrela. A ideia começou por 1955, mas se consolidou mesmo a partir da década de 1960.
Então, se você sabe que boa parte das crianças espera algum presente ou festa devido a essa data, o que você pode dar que seja bom para todos a longo prazo? Ou seja, que não seja uma cilada para ela quando ficar adulta ou para os demais seres que habitam o ambiente onde ela vive? Leiam-se aí: família, sociedade, vizinhos, moradores do mesmo território, ou seja, município, estado, país, planeta e assim por diante.
Pode ser que isso talvez nunca tenha passado pela sua cabeça. Mas você pode estar prejudicando seu rebento ou amiguinho ao dar para ele algo que colabora para virar um problemão para ele ou para seus convivas no futuro.
Glitter na roupa e brinquedos de plástico
Um exemplo é dar coisas com glitter, por exemplo. Já pensou onde vão parar aqueles pontinhos de brilho das roupas das meninas ao serem lavadas e no auge das fuzarcas? Pois, se tem alguma dúvida quanto a isso, sugiro a leitura dessa reportagem que fiz sobre a presença de microplásticos dentro de nós para o Extra Classe.
Além disso, se você passou por algum setor de brinquedos ou foi a alguma loja especializada, deve ter percebido que tudo ou quase 99,9% é feito de plástico ou de derivado de petróleo, como EVA ou outro tipo de borracha ou até mesmo pelúcia ou outro tipo de sintético. Lembro que nossa lã de ovelha não deixa resíduos pra sempre…
Não quero ser uma ecochata, estraga prazeres, mas pense comigo: não seria uma hipocrisia e um disparate a família gastar uma fortuna e uma baita energia, os pais trabalharem alucinadamente, para que seus filhos tenham educação, saúde, roupas, casa cheia de aparatos e não se preocupar com o ar que eles respiram e o ambiente que será deixado para eles?
Preocupo-me com isso porque adoro crianças. Fui tia aos 8 anos e hoje tenho cinco sobrinhos-netos. Só dois moram mais ou menos perto. Mas me importo muito com o futuro deles. Do meu filho de 19 também, óbvio. Só que, diferente do meu tempo, em que vivíamos brincando na rua, entrando nas casas sem grades, hoje somos cercados de riscos de longo prazo que não nos damos conta.
Estamos com plástico por todos os lados, como bem citou o colunista Carlos André Moreira da Sler. Mas tem gente que já está acordando para essa realidade.
Uma amiga está questionando o uso do carro para tudo para deslocamento. Seu filho pré-adolescente disse que quer andar de ônibus. Outra disse que a filha, hoje adulta, gostava de usar o ônibus porque lia os poemas nas janelas (infelizmente esse projeto foi encerrado no governo Marchezan e as duas gestões do Melo continuaram achando que os passageiros não precisam de versos no dia a dia).
10 dicas de escolhas melhores para as crianças
Então, devido a esses fatores, sugiro algumas escolhas para essa data, especialmente para quem sabe o poder das pequenas atitudes.
1. Valorize os momentos com as crianças, saia para brincar, subir em árvore, correr, ir a ambientes naturais ou parques urbanos. Hoje, o melhor presente é a presença e estar longe do celular!
2. Se for dar um presente, procure algo menos impactante, como um jogo de montar de madeira, um quebra-cabeças de papel ou um livro de histórias ou atividades de papel. Não precisa ter adesivos, etiquetas ou stickers!
3. Procure comprar produtos ou brinquedos artesanais feitos por pessoas da sua comunidade. Você tem noção do tamanho da pegada de carbono de satisfazer pequenos desejos adquirindo coisas da China?
4. Existem hoje comerciantes, feirantes e artesãos preocupados em gerar impactos positivos na sociedade. Já pensou em adquirir algum produto de indígenas ou de feiras como o Brique da Redenção?
5. Um dos maiores problemas hoje para jovens, adolescentes e crianças de todas as idades, adultos (eu, inclusive), é o tempo que somos abduzidos pelas telas. Então, que tal dar uma sacudida nos neurônios e jogar uma Memória, um dominó ou algum jogo de tabuleiro?
6. Prefira brinquedos que não necessitem de pilhas. Já perguntou para pais e tios o significado de um cachorrinho ou boneco que não para de emitir sons irritantes? Poluição sonora para atucanar todos: quem está em casa, os vizinhos e os desavisados que resolvem visitar a família. Isso sem falar que as pilhas acabam sendo um resíduo perigoso.
7. Que tal propor um momento de brincadeiras das antigas? Tem, inclusive, um projeto sobre esse resgate no Morro da Cruz, em Porto Alegre, que valoriza a diversão nos tempos analógicos. Pular sapata, jogar aquela brincadeira do elástico (que era esticado entre duas meninas, geralmente), brincar de se esconder, meia-meia-lua um, dois, três, mamãe, eu posso ir? Bah, são tantas experiências que tive vivendo num tempo sem grades e que havia uma gurizada que se divertia até altas horas na rua…
8. Evite, sei que é difícil, dar de presente coisas descartáveis. Ande com uma garrafa de água, uma caneca. A melhor educação é o exemplo.
9. Que tal escolher alguma opção em lojas de segunda mão? Em brechós, dá para se achar muita coisa legal!
10. Por último, não menos importante, é uma dica de mãe de uma menina de cinco anos. Para ela, e eu assino embaixo, não devemos estimular a vaidade precoce, dando maquiagens e apetrechos de estímulo ao consumismo.
Tem mais alguma sugestão? Manda pra mim!
Reproduzido originalmente do site Sler





