A chegada do outono nesta sexta-feira (20/03) coincide com um cenário epidemiológico atípico. O novo Boletim InfoGripe da Fiocruz, referente à Semana Epidemiológica 10 (8 a 14 de março), alerta para o aumento da circulação da influenza A em diversas regiões do país. O fenômeno chama a atenção por ocorrer antes da sazonalidade convencional, já que o vírus costuma intensificar sua atividade justamente durante o outono e o inverno.
Atualmente, o avanço da influenza A – o vírus causador da gripe – é o principal motor do aumento de casos de Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em estados como Mato Grosso, Rio de Janeiro, Espírito Santo e em quase todo o Nordeste e Norte. No agregado nacional, a tendência de longo prazo para SRAG permanece em ascensão.
Ao comparar com o acumulado de 2025, observa-se que a influenza A está se antecipando. No ano passado, picos expressivos da gripe foram registrados com maior intensidade a partir da Semana Epidemiológica 12, consolidando-se em maio e junho, quando o vírus chegou a responder por mais de 70% dos óbitos por SRAG.
Em 2026, a pressão sobre o sistema de saúde começou mais cedo. Embora o Sars-CoV-2 ainda lidere a mortalidade (37,3% dos óbitos positivos no acumulado recente), a influenza A já é responsável por 28,6% das mortes, superando o impacto letal do rinovírus (21,8%), apesar deste último causar mais internações em números absolutos.
Campanha de vacinação contra a influenza é antecipada
Como resposta a esse avanço precoce, o Ministério da Saúde confirmou o início da campanha de vacinação contra a influenza para o dia 28 de março. A campanha vai até 30 de maio nas regiões Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Sudeste, com o Dia D marcado para o primeiro dia da ação.
O foco inicial serão os grupos prioritários, visando frear o aumento de casos graves antes que o inverno se estabeleça. O objetivo do Ministério da Saúde é ampliar a cobertura vacinal para reduzir a transmissão das chamadas “doenças imunopreveníveis”, que podem ser evitadas com as vacinas disponíveis gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
A principal forma de prevenção contra os casos graves e óbitos é a vacina. Já temos a vacina contra o VSR para as gestantes e no dia 28 começa a vacinação contra a influenza A para os grupos prioritários”, afirma a pesquisadora Tatiana Portella, da Fiocruz.
Raio-X da SRAG no Brasil: 20 mil casos notificados em 2026
O monitoramento epidemiológico nacional revela que o Brasil já atingiu a marca de 20.311 casos de SRAG no acumulado deste ano. Desse total, cerca de 37% (7.523 casos) tiveram confirmação laboratorial para algum vírus respiratório.
Um dado relevante para a gestão de saúde é que 14% dos pacientes ainda aguardam o resultado dos exames, o que pode elevar os índices de positividade nas próximas semanas. O cenário é de crescimento generalizado: com exceção do Piauí, todos os estados brasileiros sinalizam aumento nos casos de SRAG na tendência de longo prazo (últimas seis semanas).
Mapeamento regional: 20 estados e 18 capitais em nível de risco
A atualização do InfoGripe coloca a maior parte do território nacional em zonas de atenção. Atualmente, 20 estados apresentam nível de atividade de SRAG classificado como alerta, risco ou alto risco. As capitais acompanham essa tendência, com 18 cidades em situação crítica. Confira a lista das capitais com sinal de crescimento:
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Norte: Boa Vista, Macapá, Manaus, Porto Velho e Rio Branco.
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Nordeste: Aracaju, Fortaleza, João Pessoa, Maceió, Natal, Recife, Salvador e São Luís.
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Centro-Oeste: Brasília, Campo Grande, Cuiabá e Goiânia.
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Sudeste: Belo Horizonte e Rio de Janeiro.
O perfil dos vírus por faixa etária
A análise detalhada mostra que o país enfrenta “epidemias paralelas” dependendo da idade do paciente:
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Crianças de até 2 anos: O principal vilão é o Vírus Sincicial Respiratório (VSR), que segue avançando em estados do Norte, Centro-Oeste e partes do Nordeste (Paraíba e Sergipe).
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Crianças e adolescentes (2 a 14 anos): O rinovírus continua sendo a causa predominante das internações, muitas vezes associado ao ambiente escolar.
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Jovens, adultos e idosos: A influenza A assumiu o protagonismo, sendo a principal responsável pelo aumento de SRAG nestes grupos.
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Idosos: A Covid-19 ainda apresenta impacto significativo, embora sua incidência esteja mais concentrada, no momento, em estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Balanço de prevalência e letalidade
Os dados das últimas quatro semanas mostram uma mudança na dinâmica da mortalidade. Pela primeira vez no ano, a influenza A atingiu o mesmo patamar da Covid-19 em relação aos óbitos, com ambos os vírus respondendo por 30,8% das mortes confirmadas por causas virais.
Tabela: Prevalência de vírus nas últimas 4 semanas (SE 7 a SE 10)
| Vírus Respiratório | Participação nos Casos Positivos | Participação nos Óbitos |
| Rinovírus | 45,4% | 27,5% |
| Influenza A | 25,4% | 30,8% |
| VSR | 13,4% | 5,5% |
| Covid-19 | 11,3% | 30,8% |
| Influenza B | 1,3% | 2,7% |
Comparativo 2026: a escalada dos vírus respiratórios
O ano de 2026 tem mostrado uma dinâmica acelerada de transmissões. Enquanto os boletins de fevereiro destacavam o rinovírus como o principal vilão (impulsionado pelo carnaval e volta às aulas), o relatório atual mostra a influenza A ganhando terreno rapidamente entre jovens, adultos e idosos.
Até o momento, em 2026, já foram notificados 20.311 casos de SRAG, um salto significativo em relação aos cerca de 14 mil registrados até o início de março. Desses, 37% tiveram confirmação laboratorial para vírus respiratórios. O perfil de prevalência acumulada no ano revela uma disputa entre os patógenos:
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Rinovírus: 41,9% (predominante em crianças)
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Influenza A: 21,8% (em franca subida)
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Sars-CoV-2 (Covid-19): 14,7%
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VSR: 13,4%
Saúde Única e a urgência da vacinação
A antecipação da circulação viral reforça a importância do conceito de Saúde Única (One Health) adotado pelo portal Vida e Ação. As mudanças nos padrões climáticos e a interação humana em ambientes urbanos influenciam diretamente o comportamento desses vírus. A integração entre vigilância ambiental e sanitária é o que permite identificar que a temporada de gripe “furou a fila” do calendário habitual.



