O silêncio das madrugadas no Rio de Janeiro tem sido sistematicamente interrompido por um fenômeno que gera revolta em diferentes bairros: os passeios noturnos de motociclistas. Grupos de dezenas — às vezes centenas — de motocicilistas atravessam vias principais e túneis da cidade com escapamentos adulterados, produzindo um ruído ensurdecedor projetado propositalmente para ecoar.
O que para os participantes parece diversão, para quem tenta dormir se traduz em estresse, susto e prejuízos reais à saúde mental e física. Segundo especialista, a poluição sonora não é apenas um incômodo passageiro; ela desencadeia reações biológicas complexas.
Segundo Nathália Prudencio, otorrinolaringologista, sons extremamente altos ativam o sistema nervoso de forma agressiva. Quando o ronco de uma moto corta o silêncio da noite, o corpo interpreta o som como uma ameaça, ativando o eixo da glândula suprarrenal e liberando adrenalina e noradrenalina.
É a mesma resposta de luta ou fuga que temos diante de um perigo real. O coração acelera, a respiração fica curta e o corpo entra em estado de alerta máximo”, explica a especialista.
Niterói combate as motos barulhentas
Enquanto a capital ainda busca fórmulas eficazes para conter a prática, a vizinha Niterói tem se destacado no combate direto à poluição sonora sobre duas rodas, acumulando resultados expressivos em operações de fiscalização.
Desde fevereiro do ano passado, a Prefeitura de Niterói intensificou o combate às motos barulhentas. Só em janeiro de 2026, as ações integradas da NitTrans com forças de segurança como a Guarda Municipal e a Polícia Militar resultaram em quase mil abordagens.
O balanço do mês fechou com 951 abordagens, reforçando que a fiscalização permanente é a principal ferramenta para desestimular a prática. A operação mais recente, realizada nesta sexta-feira (30) no bairro, fiscalizou 126 motociclistas em apenas duas horas.
O foco das autoridades é claro: retirar de circulação veículos com escapamentos adulterados — o famoso “estalo” que potencializa o ruído do motor. As operações são itinerantes e vêm sendo realizadas em diversos bairros.
A adulteração do escapamento é infração prevista no Código de Trânsito Brasileiro e também pode ser enquadrada pela Lei Municipal 3.661/2021, que permite ao município agir diante de excesso de ruído. A penalidade inclui multa de R$ 195,23 e perda de cinco pontos na carteira.
Esse trabalho atende diretamente a uma demanda da população. Nosso objetivo é garantir ordem e tranquilidade. Niterói é uma cidade que tem qualidade de vida para os moradores e dessa forma podemos contribuir ainda mais para que continue assim. “, afirma Nelson Godá, presidente da NitTrans.
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A exposição crônica a esses ruídos pode levar a:
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Problemas cardiovasculares: Hipertensão e maior risco de infarto devido ao estresse constante do sistema circulatório.
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Danos auditivos irreversíveis: Sons acima de 85 decibéis já são prejudiciais; motocicletas com escapamento aberto podem ultrapassar os 110 decibéis.
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Saúde mental: O barulho constante é um gatilho para quadros de ansiedade, irritabilidade extrema e depressão.
O sono fragmentado e o impacto no metabolismo
O impacto mais imediato dos passeios noturnos pode ser a destruição da arquitetura do sono. Mesmo que a pessoa não acorde totalmente com a passagem das motos,, o cérebro “escaneia” o ruído e muda o sono de um estágio profundo para um mais leve e menos restaurador..
A endocrinologista Deborah Beranger alerta que essa perturbação crônica do descanso afeta diretamente o metabolismo. “A fragmentação do sono está associada à obesidade, diabetes e alteração no controle do apetite,, além de piorar a função cognitiva no dia seguinte”, destaca.
Diagnóstico precoce e proteção
Especialistas reforçam que a perda auditiva causada pelo ruído urbano é silenciosa e cumulativa. Para o corpo humano, uma noite mal dormida por causa de poluição sonora é um dia de “ressaca” biológica que compromete o desempenho profissional e a estabilidade emocional. “Muitas vezes, as pessoas só percebem o dano quando sons suaves já fazem falta no dia a dia”, diz Fábio Martinelli, otorrinolaringologista.
A recomendação para quem vive em áreas afetadas pela “moda” dos rolezinhos sobre duas rodas é buscar soluções de isolamento acústico residencial — como janelas antirruído — e, em casos extremos, o uso de protetores auriculares ou ruído branco para mascarar os picos sonoros para preservar a integridade física e mental.
Saiba como denunciar
Enquanto o Rio de Janeiro tenta encontrar o equilíbrio entre o lazer e o direito ao sossego, o modelo de fiscalização ostensiva e o debate sobre os danos à saúde tornam-se essenciais para que o sono do carioca deixe de ser refém do barulho.
Se você sofre com o barulho excessivo de motos em sua região, utilize os canais oficiais:
No Rio de Janeiro:
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Central 1746: Telefone 1746, site 1746.rio ou aplicativo 1746 Rio.
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WhatsApp 1746: (21) 3460-1746.
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Emergências (Rolezinhos em curso): 190 (Polícia Militar) ou 153 (Guarda Municipal).
Em Niterói:
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Secretaria de Ordem Pública: Telefone (21) 2621-0567.
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Ouvidoria / Colab: Aplicativo Colab Niterói ou pelo WhatsApp da Ouvidoria (21) 96992-7444.
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Disque Denúncia: (21) 2253-1177.
Com informações de Assessorias







