Embora sem empolgar muito a crítica especializada, o filme ‘Nuremberg’ (2025), que chega às telas brasileiras em 26 de março de 2026, se estabelece como uma obra de urgência ética e clínica. Em um cenário global fragmentado por conflitos devastadores e pela ascensão de lideranças que flertam com o extermínio, como observado nas crises humanitárias contemporâneas, o longa revisita os escombros da Segunda Guerra Mundial não apenas como registro histórico, mas como um laboratório da psique humana.
Ao focar na figura do psiquiatra do Exército americano Douglas Kelley (Rami Malek), destacado para avaliar os 22 líderes nazistas sobreviventes antes dos julgamentos de 1945-1946, a narrativa transcende a história do Tribunal de Nuremberg para investigar a “anatomia do mal”. A grande inquietação trazida pela obra reside na desconstrução da ideia de que o mal absoluto é fruto de mentes puramente psicóticas.
O duelo entre Kelley e Göring: sedução e narcisismo
O filme explora o conceito de banalidade do mal, de Hannah Arendt, através das lentes de Kelley. O cerne dramático do filme é o embate entre Kelley e o “marechal do Terceiro Reich”, Hermann Göring (em uma atuação visceral de Russell Crowe). Göring é retratado como o ápice do narcisismo perverso e do carisma manipulador.
O roteiro detalha como o psiquiatra tenta decifrar a personalidade de Göring a partir de seu contexto familiar e da busca incessante por aprovação e poder, revelando as rachaduras sob a armadura de arrogância do nazista.
A relação entre os dois evolui para uma perigosa simbiose. Kelley, em sua tentativa de compreender o objeto de estudo, aproxima-se tanto de Göring que a linha entre médico e confidente torna-se borrada, chegando a ser chamados de “amigos” em momentos de vulnerabilidade calculada pelo marechal.
Esse “mergulho no abismo” cobra seu preço na saúde mental de Kelley, evidenciando o risco psíquico de encarar o horror sem proteções ideológicas.
O choque da realidade: as imagens dos campos
Um dos momentos mais perturbadores do filme é a exibição, dentro do tribunal, das imagens reais capturadas pelas tropas aliadas na libertação dos campos de concentração. O espectador é confrontado com o horror explícito: montanhas de corpos e a desumanização levada ao limite industrial.
Essas cenas não apenas documentam o crime, mas servem para quebrar a máscara de “civilidade” que os réus tentam manter. A reação de cada nazista diante do telão é um estudo de caso à parte para a psiquiatria, revelando desde o cinismo até a total ausência de remorso. Seriam todos psicopatas assassinos?
A missão de manter o mal vivo para o julgamento
Um dos pontos de maior tensão do longa é o desafio logístico e ético imposto a Kelley: evitar que os líderes nazistas cometessem suicídio antes do veredito. Após as mortes de Adolf Hitler, Joseph Goebbels e Heinrich Himmler, que escaparam da justiça humana pelo autoextermínio, a preservação da vida de Göring e de seus pares era vital para que o tribunal de crimes de guerra pudesse cumprir seu papel pedagógico e jurídico perante o mundo.
Kelley se vê na posição paradoxal de ter que cuidar da saúde de homens que despreza, apenas para garantir que eles possam ser devidamente condenados. No entanto, Göring consegue a “última vitória” ao ingerir uma cápsula de cianeto horas antes de sua execução programada.
Em uma perspectiva mais ampla, o filme nos obriga a refletir sobre como o colapso da empatia e da ética política gera crises que ultrapassam fronteiras. Quando o equilíbrio ético e social é rompido por ideologias de ódio ou negligência com a vida em todas as suas formas — como visto nos horrores expostos em Nuremberg — o resultado é uma patologia global que ameaça a sobrevivência coletiva.
Nuremberg não é apenas um filme sobre o passado; é um espelho clínico colocado diante do presente. Uma obra essencial para compreender que a vigilância sobre a mente humana é a primeira linha de defesa contra o retorno da barbárie.
O fracasso do livro e o destino trágico de Kelley
Embora o filme traga dramas, relatos históricos indicam que o Kelley real era respeitado pelos prisioneiros, mas a proximidade com eles e o horror dos relatos deixaram marcas profundas, com Kelley. O filme não esconde o preço alto pago pelo psiquiatra.
Dr. Kelley acreditava que, ao definir psicologicamente o mal, poderia evitar que ele ressurgisse. Contudo, seu livro “22 Cells in Nuremberg”, lançado em 1947, foi um fracasso comercial e de crítica na época, sendo ignorado por um mundo que queria apenas esquecer.
A contaminação pelo horror foi profunda: Kelley mergulhou em uma depressão severa, agravada pelo álcool e pela obsessão com a mente nazista. Em um espelhamento trágico e irônico, o psiquiatra cometeu suicídio em 1958, na frente de sua família, utilizando o mesmo método de Göring: a ingestão de cianeto.
O mestre acabou consumido pelo monstro que tentou estudar, , provando que ninguém sai ileso ao encarar o abismo por tanto tempo.
Do passado ao presente: a persistência do mal
Ao avaliar o perfil dos réus, o psiquiatra chega a uma conclusão que perturba as autoridades americanas da época e ressoa com força em 2026: não há uma “anomalia biológica” que explique o nazismo. A capacidade para a crueldade sistêmica é uma latência que pode despertar em qualquer sociedade sob as condições políticas e psicológicas certas.
O alerta é claro: novos “Hitlers” não são monstros de contos de fadas, mas produtos de processos sociais e psíquicos que podem se repetir em qualquer país, sob qualquer ideologia. A conclusão de Kelley — de que o nazismo não era uma patologia isolada, mas uma possibilidade em qualquer sociedade — nunca foi tão atual.
Ao olharmos para as políticas de extermínio e o controle hegemônico exercido por potências globais em territórios como Gaza e Irã, o paralelo se torna inevitável. Lideranças que hoje autorizam ataques a civis e o cerceamento de direitos básicos operam sob a mesma lógica de desumanização do “outro” que Kelley viu nas celas de Nuremberg.
O filme serve como um alerta: a “mente doentia” não é uma exclusividade do passado; ela se manifesta sempre que o poder se coloca acima da vida, transformando a morte em estatística e a crueldade em estratégia de estado.
Lideranças que hoje autorizam ataques a civis e o cerceamento de direitos básicos operam sob a mesma lógica de desumanização do “outro” que Kelley viu nas celas de Nuremberg. O massacre de milhares de civis em Gaza, os ataques ao Irã e a retórica de controle mundial através da violência expõem uma mentalidade que o psiquiatra militar já alertava: o mal se manifesta sempre que o poder se coloca acima da dignidade humana.
Lideranças nazistas que o psiquiatra temia ver nascer em outros países ganha contornos reais quando líderes contemporâneos operam sob a mesma mecanização da morte e indiferença pelo sofrimento alheio. Donald Trump nos EUA e Benjamin Netanyahu em Israel, seriam os novos Hitlers na era da pós-verdade? E o mais importante no momento em que muito se fala sobre a possibilidade real de uma terceira guerra mundial: sobreviveremos para contar essa história?






