O Ministério da Saúde informou nesta sexta-feira (30) que o vírus Nipah não representa uma ameaça para o território brasileiro. A avaliação, que corrobora o posicionamento da Organização Mundial da Saúde (OMS), tranquiliza a população após o registro de casos na província de Bengala Ocidental, na Índia. Segundo o governo, o potencial de o patógeno causar uma nova pandemia é considerado baixo.
O monitoramento técnico aponta que o surto em solo indiano está sob controle. O último diagnóstico confirmado ocorreu em 13 de janeiro e, desde então, quase 200 pessoas que tiveram contato com os pacientes foram testadas, todas com resultados negativos. “Não há qualquer indicação de risco para a população brasileira”, reforçou o ministério em nota oficial.
Por que o risco no Brasil é considerado baixo
A principal barreira contra a disseminação do Nipah nas Américas é de ordem biológica. O vírus é uma zoonose que depende de um reservatório natural específico: morcegos frugívoros do gênero Pteropus.
Como esses animais não habitam o continente americano, a transmissão sustentada se torna quase impossível. De acordo com o infectologista Benedito Fonseca, da USP de Ribeirão Preto, os vírus zoonóticos possuem uma relação íntima com seus hospedeiros originais. Sem a presença desses morcegos e sem uma transmissão aérea eficiente a longas distâncias, o vírus encontra dificuldades para se espalhar globalmente.
Sintomas agressivos e impacto no organismo
Apesar do baixo risco pandêmico, a gravidade clínica do Nipah exige vigilância. A infectologista Jessica Ramos, do Hospital Sírio-Libanês, explica que o vírus atua de forma rápida, provocando a inflamação dos vasos sanguíneos. Essa condição afeta severamente os pulmões e o cérebro.
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Fase inicial: Após 4 a 14 dias de incubação, o paciente apresenta febre alta, dor de cabeça e mal-estar.
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Fase crítica: O quadro pode evoluir para pneumonia grave e encefalite (inflamação cerebral), resultando em confusão mental, convulsões e coma.
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Sequelas: Mesmo em sobreviventes — a letalidade pode chegar a 70% —, muitos carregam danos neurológicos prolongados.
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Vigilância permanente e prevenção
O Brasil mantém protocolos rígidos de resposta a agentes altamente patogênicos por meio de instituições de referência, como a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e o Instituto Evandro Chagas. O país também atua em parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas) para monitorar qualquer alteração no cenário internacional.
No momento, as estratégias de controle em áreas de risco focam em:
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Higiene alimentar: Evitar o consumo de frutas ou seivas que possam ter tido contato com secreções de morcegos.
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Segurança hospitalar: Controle rigoroso em ambientes de saúde para evitar a transmissão entre humanos em contatos próximos.
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Redução de contato animal: Evitar a proximidade com reservatórios naturais e animais domésticos (como porcos) em regiões endêmicas.
Entendendo o transbordamento zoonótico (Spillover)
O “transbordamento” é o momento em que um patógeno, que antes circulava apenas em animais, consegue superar barreiras biológicas e infectar um ser humano. No caso do vírus Nipah, esse processo ilustra perfeitamente por que não podemos olhar para a saúde humana de forma isolada.
Como o processo ocorre?
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O reservatório natural: O vírus vive em equilíbrio com os morcegos frugívoros. Eles não adoecem, mas carregam o vírus na saliva e excrementos.
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O desequilíbrio ambiental: Quando o ser humano invade o habitat desses animais (desmatamento) ou quando mudanças climáticas alteram o período de frutificação das árvores, os morcegos buscam alimento mais perto de áreas urbanas ou fazendas.
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A ponte: O contato ocorre. Pode ser direto (um porco que come uma fruta mordida por um morcego e depois infecta um humano) ou indireto (um humano que bebe a seiva da tamareira contaminada).
Com informações do Ministério da Saúde






