Com a aprovação do projeto de lei que proíbe a venda de alimentos ultraprocessados em cantinas escolares, no último dia 4 de fevereiro, ganhou ainda mais destaque a importância da alimentação saudável na infância. Alimentar-se de forma equilibrada influencia diretamente o aprendizado, a concentração e o bem-estar e, por isso, deve ser incentivado também no ambiente escolar.

Uma revisão global divulgada pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), em dezembro de 2025, reuniu evidências de diversos estudos científicos sobre os impactos do consumo de alimentos ultraprocessados na saúde de crianças e adolescentes.

O levantamento reforça a preocupação com o papel desses produtos no desequilíbrio nutricional e na incidência precoce de doenças, apontando associação com sobrepeso, obesidade, cáries, erosão dentária e outras formas de desnutrição, como atraso no crescimento e anemia. Também indica maior risco de desenvolvimento de diabetes tipo 2 ao longo da vida e possíveis efeitos negativos na saúde mental.

Consumo de ultraprocessados cresce no Brasil

Para a nutricionista,  medidas práticas e educativas podem ajudar a diminuir esse consumo entre crianças

Um estudo realizado por um ano, entre 2023 e 2024, por pesquisadores da USP e da Fundação Oswaldo Cruz (FioCruz), com dados de oito países, aponta que o aumento de 10% no consumo de alimentos ultraprocessados na dieta está associado a um risco 3% maior de morte precoce.

As conclusões, publicadas na revista científica American Journal of Preventive Medicine, em abril deste ano, mostram que, em países como o Brasil, os ultraprocessados chegam a representar entre 15% e 55% das calorias consumidas diariamente e podem indicar mortes atribuíveis ao consumo desses alimentos de 4% a 14%, dependendo o País.

Para a nutricionista Cynthia Howlett, coordenadora de Projetos de Educação Alimentar e embaixadora da Sanutrin, os dados reforçam a urgência de ações concretas, especialmente com as crianças. Ela ressalta que a alimentação deve ser encarada como parte do aprendizado. “A criança precisa aprender a conviver com uma alimentação coletiva, entender que nem sempre vai comer só o que gosta, e aprender a experimentar novos sabores.”

Cynthia defende medidas práticas e educativas como parte de uma estratégia abrangente: “Além de oferecer um cardápio equilibrado, as escolas devem investir em ações de conscientização, envolver os pais, oferecer palestras e atividades que ajudem a construir hábitos saudáveis.” Ela também alerta para a influência das escolhas familiares no dia a dia.

O lanche é um grande problema hoje em dia para os ultraprocessados. Por falta de tempo, muitos pais optam pelo mais prático, como biscoitos recheados, e com isso crescem os casos de obesidade, diabetes e hipertensão em idades cada vez mais precoces.”

Especialistas que participaram do estudo ainda defendem políticas públicas que limitem o acesso a esses produtos, como rotulagem adequada, restrições de venda em ambientes escolares e tributação de itens nocivos à saúde. “A alimentação é uma extensão do aprendizado e medidas assim podem ajudar, e muito”, afirma Cynthia.

É importante conscientizar também os pais

Para a diretora da Escola Pedro Apóstolo, Carolina Paschoal, os dados refletem uma realidade percebida diariamente no ambiente escolar. “Os responsáveis precisam tomar consciência de que mandar um bolo artificial ou uma bolacha recheada está, na verdade, adoecendo as crianças e não alimentando como eles imaginam.” Segundo ela, a praticidade tem influenciado diretamente a formação do paladar infantil.

A pressa tem feito com que o paladar das crianças seja moldado principalmente por gordura saturada, açúcar e sódio, os ingredientes mais presentes nos alimentos ultraprocessados. E para perceber isso, não é preciso ser especialista, basta ler o rótulo”. A diretora também ressalta os impactos no desempenho acadêmico: “Os reflexos da boa alimentação são sentidos no aprendizado. Uma alimentação diversa e rica em nutrientes manterá corpo e mente saudáveis”.

Além dos benefícios imediatos, comer de forma saudável na escola é um importante instrumento de educação. “Ao ter contato diário com refeições balanceadas e orientações adequadas, as crianças aprendem, na prática, sobre escolhas conscientes e variedade alimentar. Esse processo fortalece a autonomia e cria bases sólidas para hábitos que tendem a se manter ao longo da vida”, reforça Carolina.

O cuidado com a alimentação é um dos pilares da escola. Todos os alimentos oferecidos às crianças são preparados na própria instituição, com ingredientes naturais, frutas e verduras da estação, promovendo o consumo consciente. A sustentabilidade também orienta esse processo: as refeições são planejadas para evitar desperdícios, e os resíduos orgânicos são destinados à compostagem.

Essa abordagem reforça a visão da escola sobre o papel da alimentação na formação das crianças, como destaca a diretora. “Se alimentar de forma saudável faz parte do cuidado integral. Quando a escola oferece alimentos equilibrados e promove conversas sobre o que comemos, ela amplia o aprendizado para além do conteúdo pedagógico, contribuindo para a saúde física e emociona”, afirma.

Lancheira inteligente contribui para a saúde e o desempenho escolar das crianças

Especialista  mostra como eliminar ultraprocessados e melhorar o rendimento escolar com escolhas fáceis e acessíveis

Biscoitos recheados, bolinhos prontos e sucos de caixinha ainda dominam muitas lancheiras escolares, mas essas escolhas podem impactar diretamente a saúde, o comportamento e até o aprendizado das crianças. A boa notícia é que montar uma lancheira inteligente, nutritiva e acessível é mais simples e barato do que parece.

A lancheira escolar representa cerca de 20% a 30% da ingestão diária de nutrientes da criança. Quando bem planejada, ajuda a regular a glicemia, o apetite e a saciedade, além de influenciar atenção, memória e desempenho escolar”, explica Natália Bernardes, endocrinologista pediátrica do Hospital Sírio-Libanês.

Segundo a especialista, refeições desequilibradas favorecem picos glicêmicos, aumento da gordura corporal, inflamação e maior risco futuro de obesidade, resistência à insulina e diabetes tipo 2. “Além disso, dietas ricas em açúcar e aditivos estão associadas a irritabilidade, fadiga, dificuldade de concentração e maior número de infecções, já que alteram a microbiota intestinal”, completa.

Ao contrário do que muitos pais imaginam, uma opção nutritiva não precisa ser complexa. O segredo está no equilíbrio entre carboidratos, proteínas e fibras, priorizando alimentos in natura ou minimamente processados.

Uma combinação prática envolve metade da lancheira com frutas, legumes ou tubérculos, um quarto com fontes de proteína, como ovo, iogurte natural ou frango, e o restante com carboidratos de boa qualidade, como pães ou bolos caseiros simples. Essa proporção garante energia e saciedade ao longo do período escolar”, orienta Natália.

Trocas simples ajudam a tirar os ultraprocessados – que hoje compõem quase 25% da alimentação do brasileiro – do dia a dia, sem perder praticidade: biscoito recheado pode dar lugar a fruta com castanhas; suco de caixinha pode ser substituído por água e fruta inteira; salgadinhos industrializados podem virar pipoca caseira ou snacks de legumes e grão-de-bico assados; bolinhos prontos podem ser trocados por bolos feitos em casa.

Muitos produtos vendidos como ‘fit’ ou ‘infantis’ são, na prática, ricos em açúcar e pobres em nutrientes. Preparações caseiras costumam ser mais saudáveis e até mais econômicas”, afirma a médica.

Além disso, deixar a água como bebida principal ao longo do dia contribui para a concentração, a memória e a disposição das crianças, enquanto bebidas açucaradas favorecem picos de energia seguidos de cansaço.

Para famílias com rotina intensa, a organização é uma aliada importante. “Planejar o cardápio com antecedência, deixar frutas lavadas e porcionadas e preparar itens-base no fim de semana facilita as escolhas e reduz a dependência de produtos industrializados. A alimentação saudável precisa ser viável para a família e adaptada à rotina da casa”, reforça Natália.

Alguns sinais podem indicar que o lanche não está adequado, como fome excessiva após a escola, irritabilidade frequente, cansaço, dificuldade de concentração, ganho de peso ou redução do crescimento. Nesses casos, a orientação é procurar um profissional da saúde.

Uma lancheira equilibrada não compensa uma alimentação inadequada no restante do dia, mas faz parte de um conjunto de ações que inclui café da manhã equilibrado, almoço adequado, sono de qualidade e controle do tempo de tela. Os hábitos formados na infância tendem a se perpetuar na vida adulta”, finaliza a especialista.

Dicas práticas para uma lancheira equilibrada

Para apoiar famílias na adoção de hábitos mais saudáveis, reunimos algumas dicas práticas para o preparo de uma lancheira equilibrada, que contribui para o desenvolvimento e o bem-estar das crianças.

    1. Priorize alimentos naturais e da estação
      Frutas, legumes e preparações caseiras oferecem maior valor nutricional e menos aditivos químicos. Além de contribuírem para o crescimento saudável, ajudam no desenvolvimento cognitivo e fortalecem a imunidade das crianças. Optar por alimentos da estação também estimula o consumo consciente.
    2. Inclua combinações equilibradas na lancheira
      Uma lancheira saudável deve reunir carboidratos, proteínas e gorduras boas, garantindo energia ao longo do período escolar. Esse equilíbrio favorece a concentração, o aprendizado e o bem-estar. Pães integrais, frutas e oleaginosas são boas opções.
    3. Evite ultraprocessados no dia a dia
      Alimentos ultraprocessados costumam conter excesso de açúcar, sódio e conservantes, que podem prejudicar a saúde e o desempenho escolar. O consumo frequente pode afetar o humor e a capacidade de atenção. Substituições simples já fazem diferença na rotina.
    4. Varie cores, texturas e formatos
      Uma lancheira colorida e diversa desperta a curiosidade e o interesse das crianças pelos alimentos. “A variedade estimula o paladar e amplia o repertório alimentar desde cedo. Esse contato é importante para criar o hábito por escolhas mais saudáveis ao longo da vida”, observa Carolina.
    5. Estimule a autonomia e a participação da criança
      Envolver a criança no preparo e na escolha dos lanches fortalece a relação positiva com a alimentação. Essa participação incentiva a responsabilidade e o respeito pelos alimentos. Também contribui para a formação de hábitos mais conscientes.
    6. Use a alimentação como ferramenta de educação
      Conversar sobre a origem dos alimentos e seus benefícios transforma a refeição em um momento de aprendizado. Assim, a alimentação passa a ser compreendida como parte do cuidado integral, que envolve a união entre escola e família em prol do desenvolvimento físico e emocional das crianças.

Palavra de Especialista

Lancheiras saudáveis: pequenos hábitos que constroem grandes futuros

Por Sara Rodrigues dos Santos Bianco*

Metade das crianças e adolescentes brasileiros pode estar com sobrepeso ou obesidade até 2035, é o que aponta o Atlas Mundial da Obesidade de 2024. Esta projeção tem embasamento no fato que em 2025, dados nacionais do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (SISVAN) mostram que 33% das pessoas de 0 a 19 anos no Brasil apresentam excesso de peso. A infância é um período decisivo para a formação de hábitos alimentares, e a lancheira escolar tornou-se um espaço diário de aprendizado.

Entre a praticidade dos ultraprocessados e a necessidade de qualidade nutricional que as crianças precisam nesta fase, famílias e escolas enfrentam um dilema que afeta crescimento, imunidade e desempenho escolar. Priorizar alimentos in natura ou minimamente processados como, frutas, legumes, ovos, queijos brancos, iogurtes naturais e preparações caseiras simples, reduz o açúcar, sódio e aditivos, garantindo um bom aporte de nutrientes. É preciso frisar que transformar a lancheira em uma ferramenta de saúde e educação é possível sem complicar a rotina dos pais.

Quanto menor o processamento, maior o valor nutricional e menor a presença de substâncias que alteram paladar e apetite. Frutas e vegetais frescos, os chamados alimento in natura, fornecem fibras que modulam a glicemia, estimulam saciedade e favorecem a atenção em sala. Preparações simples com farinhas integrais e proteínas como ovos e queijos naturais, aqueles alimentos minimamente processados, contribuem para manter energia constante ao longo do dia.

Os ultraprocessados são alimentos industrializados que passam por múltiplas etapas de processamento e utilizam ingredientes que não existem na cozinha doméstica, como aditivos, aromatizantes, corantes, estabilizantes e realçadores de sabor. São formulados para para estimular o paladar e favorecer o consumo excessivo e consequentemente relacionado ao aumento de peso entre crianças e adolescentes.

As trocas podem ser práticas como, por exemplo: bolo caseiro no lugar de biscoito recheado, castanhas no lugar de salgadinhos, água em vez de bebidas açucaradas, as  quais irão reduzir picos glicêmicos e melhorar o comportamento infantil. O letramento alimentar, ou seja, a capacidade de compreender, interpretar e tomar decisões conscientes sobre a própria alimentação, também tem papel essencial. Uma lancheira colorida e com alimentos reconhecíveis amplia o repertório sensorial, estimula curiosidade e reduz a dependência de produtos ultrapalatáveis.

Para as famílias, o planejamento facilita: separar um momento da semana para pré-preparo, porcionar frutas, congelar preparações e montar uma lista básica (fruta + proteína + carboidrato de qualidade + água). Já as escolas podem reforçar esse processo ao incentivar itens da estação, orientar sobre escolhas equilibradas e limitar o envio e a venda de guloseimas.

Itens naturais também costumam ser financeiramente vantajosos, já que costumam apresentar boa saciedade e preço acessível quando comparados a snacks prontos. A constância é fundamental: escolhas equilibradas feitas ao longo da semana têm impacto real. Para crianças seletivas, envolvê-las na montagem da lancheira, escolhendo a fruta, montando o sanduíche ou organizando os potes, por exemplo, aumenta a aceitação e cria vínculo com o alimento, tornando o processo mais leve e participativo.

Lancheiras saudáveis não são modismo ou tendência passageira, mas estratégia de promoção da saúde das nossas crianças e adolescentes, da aprendizagem e de uma relação positiva com o alimento. Ao priorizar alimentos in natura e preparações com ingredientes caseiros, ensinamos sabor real, autonomia, autocuidado e respeito ao próprio corpo que são valores que acompanham a criança ao longo da vida. A mudança começa com pequenas decisões cotidianas. Pense em qual substituição simples você pode fazer hoje para tornar a lancheira de amanhã mais nutritiva, agradável e acolhedora?

*Sara Rodrigues dos Santos Bianco é graduada em Nutrição, com especialização em Gastronomia, Nutrição aplicada a Estética e Nutrição no Exercício Físico. Professora do curso de Bacharelado de Nutrição na Uninter.

Shares:

Posts Relacionados

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *