O debate sobre o impacto do consumo de telas na primeira infância ganhou novos contornos diante da preocupação com o desenvolvimento emocional das crianças e com a formação de valores como empatia e respeito à vida. Em um cenário marcado por episódios de violência contra animais, especialistas apontam que conteúdos educativos podem funcionar como ferramentas importantes de aprendizado desde os primeiros anos.

A morte do cão comunitário Orelha, após agressões em Santa Catarina, reacendeu a discussão sobre a necessidade de ensinar, ainda na infância, formas saudáveis de lidar com os animais, tarefa que pode ser apoiada por narrativas audiovisuais pensadas para o ritmo e a compreensão das crianças na primeira infância.

Especialistas destacam que o respeito aos animais está diretamente ligado às experiências cotidianas das crianças, especialmente às relações que estabelecem com pais, amigos e cuidadores. É nesses vínculos diários, marcados pelo cuidado, pela escuta e pela convivência, que a empatia começa a se formar e se estende naturalmente para todas as formas de vida.

O consumo excessivo de conteúdos acelerados é um dos principais desafios enfrentados pelos pais atualmente. Em contraponto, produções que priorizam o bem-estar emocional e respeitam o tempo de aprendizado infantil vêm ganhando espaço por utilizar fundamentos da psicologia e da pedagogia no desenvolvimento de suas narrativas.

Como a escola pode ajudar a prevenir a violência contra animais

Especialistas explicam como os educadores podem identificar comportamentos violentos e ensinar valores sociais desde cedo

Para Andréa Piloto, diretora da Escola Vereda, tanto familiares quanto educadores podem formar uma rede de proteção de crianças e adolescentes em relação a esse tipo de conteúdo, além de facilitarem a identificação e correção desses comportamentos quando necessário.

A escola pode observar mudanças de comportamento, falta de empatia, relatos de agressões ou brincadeiras violentas recorrentes. O objetivo não é punir, mas compreender e agir antes que situações mais graves aconteçam”, explica.

Segundo ela, educadores também podem atuar em parceria com psicólogos e equipes pedagógicas para identificar possíveis sinais de sofrimento emocional ou comportamentos de risco.

Outro processo sugerido pela especialista é utilizar o espaço escolar para desenvolver valores humanos essenciais. “Quando ensinamos o cuidado com os animais, estamos ensinando responsabilidade, empatia e limites. A educação precisa ir além do conteúdo acadêmico e trabalhar a formação emocional e ética das crianças desde pequenas”.

Segundo ela, a comoção social em torno de casos de violência pode ser transformada em aprendizado coletivo quando a escola promove projetos permanentes de convivência e respeito.

Entre as estratégias pedagógicas recomendadas estão projetos de educação ambiental e cidadania, rodas de conversa sobre empatia, atividades práticas de cuidado com animais e campanhas solidárias com abrigos. Essas ações ajudam a desenvolver habilidades socioemocionais, responsabilidade e consciência sobre o impacto de suas atitudes.

É preciso ressaltar que o comportamento agressivo em crianças e adolescentes pode ter diferentes origens, desde fatores ambientais, como negligência e exposição à violência, até questões emocionais ou psicológicas que exigem acompanhamento. Em alguns casos, a criança pode apresentar dificuldades comportamentais desde bem cedo, o que reforça a necessidade de observação atenta por parte da escola e da família, sempre com acolhimento e apoio profissional, e nunca com rotulações ou punições isoladas”, conclui Andréa.

Desenho infantil reforça respeito e cuidado com os animais

Produções de baixo estímulo ajudam crianças a desenvolver empatia e convivência ética, lição reforçada após o caso do cão Orelha

Nesse contexto se insere a animação brasileira José Totoy, voltada ao público de dois a seis anos. Diferente de desenhos marcados por estímulos intensos, a série aposta em um universo visual calmo e em histórias que acompanham o Macaco Obi e o colega Kim ao lado do personagem principal, apresentando de forma simples valores como amizade, paciência e persistência.

A proposta da série também se estende às famílias, ao convidar adultos e crianças a compartilharem momentos simples do dia a dia. Os episódios estimulam experiências como cozinhar juntos, brincar, observar o ambiente ao redor e viver situações cotidianas em família, reforçando o vínculo afetivo como parte essencial do aprendizado emocional.

O cuidado com os animais aparece de maneira recorrente nas histórias, sempre tratado como algo natural e próximo da realidade das crianças. Ao observar as interações entre os personagens, o público infantil é estimulado a reconhecer sentimentos, limites e responsabilidades, incorporando a empatia como prática diária.

Segundo a psicóloga Isa Vaal, cofundadora da empresa e criadora da série, esse resultado é fruto de um trabalho técnico cuidadoso. “O desenho é desenvolvido com o apoio de pedagogos e psicólogos para garantir que seja lúdico e traduza a mensagem para a língua das crianças”, afirma.

Ela destaca que a atenção à faixa etária é central no processo criativo. “Nosso foco são as crianças de dois a seis anos e sabemos que, nessa fase, a forma de comunicar respeito e amizade precisa ser clara, acolhedora e segura”, diz.

Para André Vaz, co-criador da série, o desenho mostra que é possível usar o tempo de tela como aliado. “José Totoy prova que é possível encantar as crianças com calma e transformar esse momento em uma oportunidade real de aprendizado”, afirma.

A discussão reforça o papel dos conteúdos infantis na formação emocional desde a primeira infância, mostrando que o entretenimento pode ser uma ferramenta potente para promover empatia, respeito e convivência ética, quando pensado de forma responsável e alinhado às necessidades das crianças.

Dicas de ouro para os pais

  • Evite a “overdose” de notícias: Se a TV está ligada o dia todo no caso, a criança sente que a violência está acontecendo repetidamente agora. Desligue ou mude de canal.
  • Seja o exemplo de calma: Se você demonstra pânico ou ódio descontrolado, a criança entende que o perigo é iminente. Demonstre indignação, mas mantenha a postura de “adulto protetor”.
  • Observe o comportamento: Nos dias seguintes, note se a criança está com dificuldade para dormir, mais apegada ou agressiva nas brincadeiras. Se sim, ela ainda está processando o trauma e precisa de mais acolhimento.
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