Os netos de Olimpio Barboza notaram a diferença em pouco tempo. Antes passando longas horas acamado e com queixas de dores crônicas, o patriarca da família recuperou a disposição para atividades fora da cama, passeios ao ar livre e a alegria no convívio social. Houve melhora na aceitação da dieta e redução de queixas de dores crônicas.
A mudança não foi obra do acaso, mas da chegada de um suporte especializado que trouxe impacto positivo na dinâmica familiar. A presença de um cuidador também funciona como um facilitador da harmonia no lar, aliviando a carga emocional dos familiares.
“Contar com o apoio de um cuidador nos dá tranquilidade. Sabemos que ele tem uma companhia que presta os serviços com todo o cuidado e zelo”, reforça o neto, Luciano Barboza, que notou as transformações profundas na rotina do avô.
A história da família Barboza é o reflexo de uma realidade que se impõe em milhões de lares brasileiros. Com o rápido envelhecimento da população, a busca por cuidadores profissionais deixou de ser um luxo para se tornar uma necessidade de sobrevivência da dinâmica familiar. Segundo a Associação Brasileira de Gerontologia (ABG), 70% dos idosos brasileiros precisarão de algum tipo de assistência especial nos próximos anos.
O raio-x de um setor em explosão
O avanço da chamada “economia prateada” no Brasil revela números impressionantes: entre 2012 e 2022, o número de cuidadores com carteira assinada saltou de 5.263 para mais de 34 mil — um aumento de 547%, segundo o Caged. Se somarmos os cuidadores familiares e informais, o contingente já ultrapassa 6 milhões de brasileiros.
Um estudo inédito da MasterCare, realizado com mais de 2,5 mil profissionais, traçou o perfil de quem cuida no país: 90,2% são mulheres e quase 85% são as principais responsáveis pelas finanças de suas próprias famílias.
A valorização desta categoria ganha destaque neste 20 de março, Dia Nacional do Cuidador de Idosos, data que reforça a urgência de olhar para uma profissão ainda não regulamentada, mas com grande impacto econômico e social, que sustenta o bem-estar da parcela da população que mais cresce no Brasil.
O papel do cuidador de idosos profissional
Redes do setor observam aumento de 44% na procura pelo serviço
Com o avançar da idade, o surgimento de desafios de saúde, a mobilidade reduzida e o declínio cognitivo podem tornar as atividades cotidianas obstáculos complexos. Nesse cenário, o cuidador profissional surge como o suporte essencial para que o idoso preserve sua independência e, acima de tudo, sua dignidade.
De acordo com Jéssica Ramalho, cofundadora e diretora de Operações da Acuidar (rede de cuidadores de idosos), as famílias buscam hoje algo que vai além da segurança física. “O cuidador vai além da assistência pontual. Ele se torna um suporte emocional para o idoso e sua família”, explica a especialista.
Suporte emocional e prevenção de riscos
A contratação desses profissionais é motivada por diversos fatores, desde a necessidade de acompanhamento médico até o auxílio em tarefas de higiene e alimentação. No entanto, o papel do cuidador é multidimensional: ele atua como um agente social ativo, estimulando conversas, atividades recreativas e mantendo os vínculos afetivos com amigos e familiares.
Além do bem-estar emocional, a presença técnica é vital para a detecção precoce de alterações de saúde. Ao observar mudanças sutis no comportamento ou nas capacidades funcionais, o profissional permite intervenções médicas oportunas, prevenindo acidentes domésticos e complicações de quadros crônicos.
Prevenção e suporte em doenças neurodegenerativas
Para famílias que lidam com diagnósticos de Alzheimer ou Parkinson, doenças típicas do envelhecimento, o papel do profissional é ainda mais estratégico. O cuidador atua na detecção precoce de sinais de alerta e na prevenção de quedas, uma das principais causas de hospitalização na terceira idade.
O cuidador vai além da assistência pontual; ele se torna o suporte emocional do idoso e um elo vital para a harmonia do lar”, explica Jéssica Ramalho, diretora da rede Acuidar, que atende a família do Senhor Olimpio e milhares de outras no Brasil. “Um cuidador treinado sabe identificar sinais de alerta precocemente, reduzindo riscos e promovendo uma abordagem preventiva”.
Através do estímulo cognitivo e da organização da rotina — que inclui a administração rigorosa de medicamentos e a supervisão da higiene — é possível reduzir significativamente os níveis de estresse e ansiedade do idoso, preservando sua dignidade e autonomia pelo maior tempo possível e combatendo o isolamento social. Para as famílias, a parceria com o profissional oferece a tranquilidade de saber que o ente querido está sob supervisão qualificada, respeitando sua autonomia e preferências pessoais.
Necessidade regulamentação e qualificação profissionais
Para Marcia Vieira, fundadora do ecossistema MasterCare, a aprovação da Política Nacional de Cuidados, em dezembro de 2024, foi um marco essencial, ao reconhecer o cuidado como um direito e uma responsabilidade de todos: Estado, famílias e sociedade. No entanto, faz um alerta para a necessidade de regulamentar a profissão e aumentar a qualificação dos profissionais,
A regulamentação da profissão de cuidador continua sendo uma lacuna urgente. A qualificação desses profissionais pode salvar vidas e promover transformação econômica e social”, reforça Marcia Vieira, que é idealizadora do ConaCare, congresso sobre cuidadores, cuidados e longevidade.
Reconhecendo que o “cuidar” exige técnica, novas frentes de capacitação gratuita estão surgindo. O ecossistema MasterCare – formado pela MasterCare Brasil, Hub Longevidade e ConaCare – criou um programa de capacitação para cuidadores gratuito, 100% online e com acesso nacional, abordando temas como prevenção de quedas, nutrição, comunicação com a pessoa idosa, deglutição, higiene íntima, administração segura de medicamentos, mobilidade, primeiros socorros e monitoramento de sinais vitais.
Além disso, o programa conta com um módulo exclusivo sobre incontinência urinária, elaborado com apoio técnico da Bigfral, com orientações práticas para quem lida com essa condição, ainda cercada de tabus. Médicos especialistas nas principais doenças e causas de mortalidade que afetam os idosos também participam do treinamento, compartilhando dicas e orientações de prevenção, além de ajudar na identificação de situações de risco e na necessidade de escalonamento dos cuidados.
A iniciativa é voltada tanto a cuidadores formais quanto a familiares, profissionais da área de saúde ou pessoas que desejam atuar na área. “Cuidar de uma pessoa idosa é um ato de amor que requer técnica. Democratizar o conhecimento sobre cuidado é garantir um futuro mais digno para todos que envelhecem”, conclui Márcia Vieira.
Redes especializadas também investem em capacitação
Para Artur Hipólito, da rede Home Angels, a especialização é o caminho para evitar o esgotamento. “É urgente entender que também é essencial cuidar de quem cuida, oferecendo suporte emocional para que o profissional continue entregando excelência”, afirma. Ao escolher um cuidador, a recomendação é buscar referências sólidas e priorizar quem investe em treinamentos contínuos.
Com a crescente demanda, a formação dos cuidadores tem se tornado cada vez mais especializada e o investimento na mão de obra qualificada é uma necessidade do mercado. Empresas do setor têm investido continuamente na capacitação de seus profissionais para que possam oferecer um atendimento humanizado e personalizado.
Cada idoso tem necessidades únicas, e nossos cuidadores são treinados para se adequar à rotina de cada paciente, oferecendo um cuidado verdadeiramente personalizado”, destaca Jéssica Ramalho, da Acuidar. “O sucesso da empresa reflete a valorização do profissional cuidador, cuja atuação envolve não apenas o apoio físico, mas também o acolhimento emocional e o estímulo cognitivo“.
Segundo ela, a preparação inclui treinamentos em primeiros socorros, técnicas de estimulação cognitiva e suporte emocional, assegurando que o idoso tenha uma assistência de excelência.
Com mais de 8 mil cuidadores em sua base, a Home Angels também investe na capacitação e bem-estar dos profissionais, oferecendo cursos profissionalizantes para quem quer ser cuidador de idosos ou já atua na área. Os profissionais são preparados para serviços como banho, higiene e vestimenta, preparo de refeições saudáveis, administração de medicamentos, organização do ambiente, companhia hospitalar, cuidados pós-cirúrgicos, auxílio à mobilidade reduzida, entre outros cuidados.
É esperado que a demanda por esse serviço continue a crescer, tornando essa uma área promissora para aqueles que desejam fazer a diferença na vida dos idosos e contribuir para uma sociedade mais inclusiva. Por isso, é imprescindível a especialização e conhecimento adequado para lidar corretamente com as diferentes situações que possam ocorrer”, afirma Artur Hipólito.
Ocurso de cuidadores no formato EAD com certificação da Home Angels Brasil é fornecido gratuitamente pela franqueadora para a unidade treinar e reciclar sua equipe, essa capacitação é uma preocupação com a especialização de profissionais.
É urgente entender que torna-se essencial cuidar de quem cuida. Oferecer apoio emocional, educacional e de saúde pode ajudar a aliviar o cansaço e auxiliar no bem-estar, permitindo que continuem a oferecer cuidados de qualidade aos idosos sob sua responsabilidade e se sintam bem exercendo sua profissão”, afirma o especialista.
Requisitos fundamentais para atuar na profissão
De acordo com Rafael Schinoff, CEO e fundador da Padrão Enfermagem, empresa de agenciamento de profissionais na área da saúde, apesar de ser um segmento em expansão, existem qualificações fundamentais para ingressar na carreira, além da formação educacional e a experiência prática.
Para ser um cuidador de idosos, é necessário desenvolver habilidades que vão além do conhecimento técnico, como a empatia, comunicação eficiente, respeito à diversidade, flexibilidade e resiliência que são essenciais. Já no conhecimento técnico, noções de nutrição, primeiros socorros e as doenças mais comuns na terceira idade”, explica Schinoff.
O fundador da Padrão Enfermagem comenta sobre dois pontos que são fundamentais entre as habilidades para quem deseja atuar nessa carreira. São elas:
- Empatia: Entender as necessidades emocionais e físicas dos idosos. Cada paciente traz uma história e bagagem de vida, é preciso respeitar esse legado. O cuidador quando passa a conviver com o idoso, se torna um elo entre ele e a família;
- Capacitação: As mudanças nas práticas de cuidados, passam por constantes atualizações, por isso, a busca por cursos de capacitação garantem que as habilidades estejam atualizadas e façam a diferença no mercado.
O impacto das novas tecnologias na profissão de cuidador
Segundo Rafael Schinoff. a tecnologia está revolucionando o cuidado ao idoso, com inovações como dispositivos de monitoramento remoto, aplicativos de saúde e equipamentos assistivos. Estas ferramentas não apenas melhoram a qualidade de vida, mas também auxiliam os cuidadores em suas tarefas diárias e diante das mudanças demográficas e tecnológicas, esses profissionais devem sempre estar preparados para se adaptar e evoluir.
No futuro precisarão combinar habilidades técnicas com sensibilidade emocional e adaptar-se às mudanças nas necessidades da população. É uma profissão desafiadora, mas muito gratificante, pois desempenha um papel essencial no bem-estar das pessoas que precisam de cuidados”, finaliza.
A utilização de inteligência artificial na seleção de cuidadores, que cruza perfis técnicos e psicológicos com as necessidades dos idosos, é um exemplo de como a tecnologia pode aprimorar a dimensão humana do cuidado. “A IA intensifica nossa capacidade de oferecer um atendimento empático e transformador”, observa Jéssica.
Rio de Janeiro oferece curso gratuito para cuidadores de idosos
Foram disponibilizadas 25 vagas, destinadas a trabalhadores que já atuam em Instituições de Longa Permanência para Idosos
Capacitação: iniciativas gratuitas no Rio e no mercado
Enquanto o setor privado oferece programas gratuitos focados em humanização e segurança, no Rio de Janeiro, o governo estadual lançou cursos de formação de cuidadores para integrar o idoso às redes de proteção social. Inicialmente, as vagas são voltadas exclusivamente para trabalhadores que já atuam em Instituições de Longa Permanência para Idosos (ILPIs). As aulas começaram esta semana (dia 16) e seguem até o final do ano.
Qualificar profissionais para lidar com o desafio do envelhecimento da população é o objetivo do primeiro curso de cuidadores de idosos, promovido pela Escola de Formação Técnica em Saúde Enfermeira Izabel dos Santos (Etis). A instituição ligada à Secretaria de Estado de Saúde (SES-RJ) abriu uma turma com 25 vagas. A formação inclui técnicas de cuidado e temas relacionados à vida social e aos direitos da pessoa idosa.
O curso trata de questões como processos de adoecimento, nutrição, inclusive em seu aspecto afetivo, direitos, sexualidade, acessibilidade e racismo estrutural. A proposta é desenvolver um olhar atento e individualizado para cada idoso, construindo caminhos que promovam cuidado, dignidade e autonomia.
A secretária de Estado de Saúde, Claudia Mello, que também é médica geriatra, ressalta que esta é uma das iniciativas que estão sendo implementadas para que a rede esteja cada vez mais preparada para lidar com o envelhecimento da população, oferecendo cuidado integral. Segundo ela, o Governo do Estado vai publicar em breve o Plano Estadual da Pessoa Idosa, como antecipou ao VIDA E AÇÃO em 2025.
O envelhecimento é uma realidade cada vez mais presente e precisamos preparar o sistema de saúde para responder a essa demanda. Como geriatra, fico especialmente feliz com iniciativas como essa, que se conectam com as políticas públicas de cuidado e com a política nacional de atenção à pessoa na terceira idade. O nosso compromisso é sempre respeitar a integralidade da pessoa humana e promover mais autonomia no cotidiano”, afirma a secretária.
Envelhecimento em números
- O envelhecimento populacional deixou de ser uma previsão distante para se tornar uma realidade cada vez mais presente no “país do futuro”. O Brasil ultrapassou a marca de 37,6 milhões de pessoas com 60 anos ou mais. Somos 55 milhões de brasileiros entre 50 e 100 anos.
- Em 45 anos o país deverá ter 75,3 milhões de pessoas com mais de 60 anos, o que representará 37,8% da população. De acordo com dados do Censo Demográfico 2022, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), 22,2 milhões de brasileiros já possuem 65 anos ou mais, um aumento de 57,4% em 12 anos.
- Entre 2016 e 2019, o número de cuidadores familiares cresceu 40%, chegando a 5,1 milhões (PNAD-C 2019). E, entre 2019 e 2023, houve um aumento de 15% no número de cuidadores remunerados, chegando a 840 mil profissionais, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), feita pelo IBGE.Já os dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) apontam que, entre 2012 e 2022, o número de profissionais na área saltou de 5.263 para 34.051, representando um impressionante aumento de 547% em apenas uma década.
- O número de cuidadores de pessoas idosas no Brasil ainda é subdimensionado, mesmo assim, estes dados revelam um contingente de mais de 6 milhões de brasileiros dedicados ao cuidado — familiares e formais, com impacto direto na saúde, segurança e bem-estar das pessoas idosas.
- Em um estudo inédito – Perfil dos Cuidadores Formais no Brasil, realizado pela MasterCare, com 2.568 cuidadores, em todo o país, identificou-se que 90,2% são mulheres; 29,2% possuem de 36 a 45 anos e 14,2% de 46 a 65 anos; 84,9% são responsáveis — integral ou parcialmente — pelas finanças da família.
Viver mais é uma conquista da sociedade; agora, o desafio é garantir que estes anos sejam vividos com saúde e dignidade. A mudança na estrutura etária exige novos olhares sobre o cuidado, a convivência e as políticas voltadas à terceira geração.
Com isso, profissões que oferecem assistência durante a fase do envelhecimento, têm se tornado cada vez mais essenciais, como é o caso de cuidadores. Neste cenário, o Dia Nacional do Cuidador de Idosos, um momento que traz muitas reflexões sobre o presente e o futuro desta profissão tão importante numa envelhece que envelhece cada vez mais.
Com Assessorias








