Varizes: projeto oferece tratamento gratuito na Uerj

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Demonstração da escleroterapia pelo método da espuma, feito pelo angiologista Edson A. Neves, da Clínica Varizes (Reprodução de Internet)

Pernas bonitas, lisinhas, sem manchas e varizes é o desejo da maioria das mulheres, certo?! Pois, para muitos, a questão vai bem além da estética e chega a prejudicar a produtividade no trabalho. Estima-se que 70% da população brasileira sofram com algum grau da doença venosa crônica (varizes), a  sexta doença que mais incapacita ao trabalho no Brasil e a 14ª doença mais comum no mundo.

“Muitas pessoas acreditam que se trata apenas de uma questão estética quando, na verdade, é uma doença crônica que piora progressivamente. Se não tratada pode causar diversas complicações, como úlceras venosas (feridas) e insuficiência venosa crônica, caracterizada pela incapacidade das veias das pernas bombearem um volume suficiente de sangue de volta ao coração”, alerta Carlos Peixoto, presidente da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular do Rio de Janeiro (SBACV-RJ).

Só no Estado do Rio de janeiro, considerando a população acima de 20 anos com sintomas de dor nas pernas, edema e varizes de grosso calibre, estima-se que um milhão de pessoas teriam indicação para o tratamento de varizes.  Hoje, a fila de espera para o atendimento pelo Sistema Único de Saúde tem 3 mil pessoas. No intuito de diminuir esse número, o serviço de Cirurgia Vascular da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), com o apoio da Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular do Rio de Janeiro, inicia o Projeto Varizes, que prevê mil tratamentos todos os anos a partir de agora.

Para ter acesso ao tratamento, a pessoa deve procurar uma Clínica da Família, que deverá encaminhá-la para a Policlínica Piquet Carneiro (Uerj), primeira unidade a oferecer este tratamento à população do município do Rio de Janeiro em grande escala.  O encaminhamento será feito pelo Sistema Nacional de Regulação (Sisreg). Não existe estimativa de quanto tempo o paciente terá que esperar para ser atendido.

No projeto, a técnica utilizada será a escleroterapia com espuma ecoguiada, em que é aplicada uma injeção com medicamento em forma de espuma, secando os vasos com má circulação do sangue.  A espuma causa uma reação inflamatória no vaso, fazendo com que ele “seque”. O procedimento é menos invasivo, não exige internação e nem repouso no pós operatório. O SUS já autorizou a implementação do serviço na rede pública em março deste ano, mas a opção de tratamento das varizes ainda é a cirurgia convencional – que requer internação, utilização do centro cirúrgico e equipe cirúrgica com anestesia, gerando um custo muito alto.

“Com o Projeto Varizes a hospitalização do tratamento de varizes vai diminuir, já que grande parte dos pacientes aguardando na fila pode se tratar sem internação”, estima Carlos Peixoto. O projeto tem como diferencial oferecer o tratamento completo para o paciente, que terá acesso ao exame Eco Doppler e também à técnica de escleroterapia, além da consulta com o especialista.

Inverno é época ideal para tratar varizes

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), cerca de 30% da população mundial têm varizes – dilatação das veias. Desse total, 70% são mulheres e 30% homens. No caso das mulheres, de 20% a 30% desenvolvem varizes durante a gestação. O sexo feminino é mais acometido por esta disfunção por razões hormonais. O tratamento correto é muito importante para que o problema não cause complicações como úlceras venosas e insuficiência venosa crônica.

As varizes são veias dilatadas, alongadas e tortuosas, que podem causar inchaço, dor, cansaço e sensação de peso nas pernas, a parte do corpo normalmente mais afetada. “O sangue que circula pelo nosso corpo volta para o coração através das veias, que possuem válvulas para ajudá-lo a fluir de baixo para cima, contra o efeito da gravidade. Quando essas válvulas não funcionam corretamente, o sangue retorna e se acumula nas veias das pernas, fazendo com que fiquem sobrecarregadas e dilatem”, explica o cirurgião vascular Carlos Peixoto.

O tratamento das varizes pode e deve ser feito em qualquer época do ano. O presidente da SBACV, Ivanésio Merlo, explica que no inverno as varizes e microvarizes ficam mais visíveis, por se tomar menos sol, e como após o tratamento cirúrgico é bom não se expor ao sol por algum tempo, este seria um bom momento para fazê-lo. “O tratamento com injeção ou laser fica mais fácil quando a pele não está muito bronzeada. Por outro lado, após a cirurgia das varizes, quando necessária, recomenda-se 30 dias sem expor as regiões operadas ao sol. Além disso, tratando no inverno, as pernas estarão totalmente recuperadas no verão”, diz.

O presidente da SBACV enfatiza ainda que algumas doenças circulatórias que acometem as artérias e as obstruem, dificultando a passagem de sangue, especialmente nas extremidades das mãos e dos pés, podem ser mais expressivas no inverno. Entre essas, as arterites, doença inflamatória nas artérias, são as mais evidentes. E ressalta que todo indivíduo após os 40 anos deve fazer um checkup vascular com um médico angiologista ou cirurgião vascular pelo menos uma vez por ano ou a cada dois anos, dependendo de ter ou não problemas com sua saúde vascular. “Sinais como varizes, dores e inchaço das pernas podem necessitar de exames especializados”, orienta Ivanésio Merlo.

Segundo ele, as varizes são veias dilatadas alongadas e tortuosas que não exercem mais sua função de forma tão eficiente. São mais comuns nas pernas. Entretanto, podem surgir em outros locais como região uterina, vulvar, pélvica, esôfago, reto (hemorroidas) etc. Quando não tratadas, o portador de varizes nas pernas pode desenvolver complicações como trombose venosa, tromboflebite, úlcera varicosa e sangramentos pelas varizes.

Especialista esclarece dúvidas

Além de hábitos saudáveis, procedimentos como a escleroseterapia e lasers contribuem para o tratamento de varizes e vasinhos. De acordo com Marcelo Monteiro, diretor clínico da Clínica Inovas (Barra da Tijuca, RJ), uma das queixas mais comuns é a sensação de peso e cansaço constante nas pernas, se acentuando ao longo do dia e piorando com longos períodos de inatividade.  Ele explica que pode ocorrer coceira na região onde existam as varizes, e também inchaço principalmente nos tornozelos e pés. “Nos casos mais avançados, podem ocorrer modificações na coloração e qualidade da pele, podendo levar à formação de feridas crônicas, as chamadas úlceras venosas”, ressalta o especialista, que, a seguir, esclarece as principais dúvidas em relação ao problema.

A doença venosa pode ser genética?

– O ponto central na doença venosa é a questão genética. É muito comum parentes próximos apresentarem histórico positivo para a doença. Os pacientes precisam entender que se trata de uma doença crônica e recidivante, não sendo possível sua cura, mas que deve ser mantida sob controle. Hábitos saudáveis de vida com certeza interferem na velocidade com que a doença vai progredir.

A gravidez é um fator de risco?

– O fator que mais interfere na piora da doença venosa é a gestação, ainda mais quando a paciente ‘emenda’ uma gravidez sobre a outra, dando pouco tempo para seu organismo recobrar a situação inicia. A gravidez é um momento da vida da mulher onde os hormônios estão muito elevados, para criar um ambiente propício ao desenvolvimento do bebê. Esses hormônios levam a uma acentuada retenção de líquidos (para criar o bebê e seu ambiente intra-útero), além de causar flacidez nos tecidos maternos (para permitir a acomodação do bebê).

Ressalta-se que o sistema venoso é o principal responsável por armazenar esse excesso de volume. “Agora imagine se essas veias já apresentam uma tendência genética à dilatação (formação de varizes), estão submetidas à intensa ação hormonal, e ainda têm que armazenar um grande volume líquido? Está formado o cenário ideal para a formação de varizes. Existe, ainda, um fator mecânico da compressão sobre as veias abdominais que o crescimento uterino acaba causando no decorrer da gestação. Se associarmos ainda o ganho acentuado de peso durante a gestação, com certeza só irá piorar o quadro.

Como podem ser classificadas as varizes?

– Costumamos escutar a denominação ‘microvasos’ para aqueles pequenos vasinhos avermelhados ou arroxeados, com seu calibre até 1mm. O termo ‘varizes’ geralmente determina vasos de aspecto tortuoso, capazes de causarem abaulamentos na pele e serem palpáveis, causando um ‘relevo’ alterado na pele. Mas as vezes percebemos varizes de calibre intermediário, não tão grandes para causar abaulamento na pele, mas de importância ímpar no tratamento das chamadas ‘varizes combinadas’, aqueles vasinhos verdinhos que as vezes encontramos nutrindo os vasinhos vermelhos”, ressalta o especialista.

Todos os tipos de vasos podem ser tratados?

– Sim e é muito comum uma mesma paciente ter diferentes tipos de vasos, e, portanto, receber diferentes tipos de tratamentos. O tipo de tratamento vai depender, entre outros, do calibre do vaso a ser tratado. Os microvasos respondem muito bem ao tradicional tratamento por escleroterapia, onde uma substância é injetada no interior deste vaso, levando ao seu fechamento e absorção pelo organismo. Quando isso não acontece, devemos avaliar se esses vasinhos não estão sendo alimentados por uma veia nutridora, mais profunda e de maior calibre.

Como tratar os microvasos?

– Essas veias geralmente respondem muito bem ao tratamento através do uso do laser transdérmico NdYag 1064, capaz de tratar vasos de até 3mm e a até 5mm de profundidade na pele. Na clínica utilizamos um dispositivo de realidade aumentada para identificar estes vasos sob a pele. Se eventualmente os vasos forem mais calibrosos, costumamos indicar o tratamento por microcirurgia, realizado sob anestesia local e sedação leve, com alta para caso no mesmo dia da cirurgia, utilizando meias elásticas já ao sair do hospital.

E quando o problema é nas veias safenas?

 

– Nos casos mais complexos, onde há o acometimento das veias safenas, o tratamento consiste na utilização de um laser a nível hospitalar, procedimento realizado também sob anestesia local, onde uma fibra ótica capaz de transmitir o raio laser é introduzida na safena através de uma punção guiada por ultrassom, sendo possível sua cauterização sem a necessidade de cortes na região da virilha, permitindo uma recuperação muito mais precoce.

O que fazer para não se submeter a cirurgia?

Atualmente, a grande maioria das pacientes, mulheres entre 30 e 60 anos, que não quer se submeter a procedimentos cirúrgicos e não quer se afastar de sua rotina diária, são tratadas através da combinação do uso do laser transdérmico e da escleroterapia, permitindo uma redução em cerca de 75% nas nossas indicações de cirurgia.

O tratamento é doloroso?

– Todos os procedimentos realizados na Clínica Inovas acontecem sobre resfriamento ativo da pele, utilizando um aparelho capaz de expelir ar a até -5ºC, o que causa uma analgesia na pele, tornando o procedimento bastante tolerável. Para as pacientes mais sensíveis, podemos fazer uso de anti-inflamatório sublingual antes das sessões, mas isso raramente é necessário. Mas vale lembrar que isso sempre será respeitado, afinal, dor é subjetivo, difícil de comparar.

É possível tratar as duas pernas de uma só vez?

 

– O uso do resfriamento ativo da pele permite o tratamento extenso, até das duas pernas, em uma única sessão, por tornar o procedimento bastante tolerável .Vale ainda ressaltar que a grande maioria dessas pacientes já passaram por procedimentos dermatológicos como uso de Botox ou preenchedores faciais, além do uso de laser para depilação ou tratamento de manchas, o que permite um padrão de comparação bastante confiável.

Mesmo tratadas, as varizes podem reaparecer?

– A doença é crônica e recidivante, e, portanto, não tem cura. O tratamento adequado leva a uma duração maior do período “sem vasos”. Mas da mesma forma que cuidamos dos nossos dentes, devemos programar uma visita regular ao angiologista, assim que começarem novamente a aparecerem os vasinhos. Para diminuir essa velocidade do aparecimento dos vasos, a recomendação é aquele que concerne à adoção e continuidade de hábitos de vida mais saudáveis.

O que fazer para prevenir a volta das varizes?

– A atividade física regular, dedicada, ou seja, com o uso de calçados e roupas adequadas. A alimentação mais saudável, com menos sódio, com menos açúcares e gorduras, levando a uma menor retenção de volume. Essas medidas geralmente levam a um melhor controle do peso, o que acaba por contribuir para um melhor funcionamento do sistema venoso. Evitar o cigarro, já que sabemos de vários efeitos nocivos do seu consumo. Fazer um uso moderado de bebidas alcoólicas. Enfim, seguir todas as orientações que conhecemos tão bem, porém, relutamos tanto para colocar em prática.

Novo método promete menos dor

Segundo o angiologista Ricardo Brizzi, um dos métodos mais recentes é a Clacs (Cryolaser e Cryo escleroterapia), uma nova técnica para o tratamento das varizes com menos dor e com resultado imediato. “A Clacs utiliza o laser, a escleroterapia e jato de ar gelado, reduzindo o uso das agulhas e secando os vasinhos muito mais rápido. Na maioria dos casos, com três sessões, já temos um ótimo resultado. O método é potencializado com o Veinviewer que amplia a realidade detectando as veias nutridoras aumentando a eficiência do tratamento”.

De acordo com o especialista, Veinviewer é capaz de projetar sobre a pele do paciente a imagem das suas veias.  O equipamento emite raios infravermelhos que captam a temperatura corporal, como as veias são mais quentes que os tecidos ao redor,  elas aparecem em destaque na projeção. O tratamento não é invasivo, quem utiliza não sente nenhum tipo de desconforto.

“O equipamento permite detectar mais facilmente problemas vasculares. Em um espaço onde se encontram múltiplas varizes, é possível identificar qual a veia alimentadora dessas varizes e aplicar o tratamento onde é a raiz do problema. O aparelho serve para auxiliar as aplicações com laser. No caso das cirurgias, auxilia na marcação prévia das veias. Trata-se de uma tecnologia inovadora, que amplia a percepção de estruturas de forma muito superior a que os médicos conseguem apenas com o olho humano, mesmo utilizando lentes ou luzes especiais”, explica.

Como evitar as varizes na gestação

As alterações circulatórias que surgem em decorrência do ganho de peso provocam as temidas varizes. “Com o aumento progressivo do volume do útero no decorrer da gestação, ocorre uma compressão das veias ilíacas, que levam o sangue de volta para o coração”, explica Priscila Nahas, médica há 28 anos, pós-graduada em cirurgia vascular pela Escola Paulista de Medicina e membro efetivo da Sociedade da Brasileira de Cirurgia Vascular e da Associação Brasileira de Flebologia e Linfologia.

A médica acrescenta que, além da circulação prejudicada por conta da compressão do útero gravídico, o sobrepeso causado pela gestação e o fator genético (em casos específicos) aumentam consideravelmente as chances do aparecimento de varizes. “Nesses casos, orienta-se que a paciente faça o tratamento com elasto-compressão, ou seja, a meia elástica com compressão graduada”, complementa.

Segundo a especialista, as meias de compressão devem ser, sempre que possível, usadas como forma de prevenção. Existem alguns paradigmas em relação à aparência das meias elásticas, mas já existem, modelos que têm a aparência das meias-calças convencionais. “A mulher procura, não só o tratamento, como também a estética. Por isso foram desenvolvidas técnicas para que a meia, além de ter um aspecto bonito e elegante, tenha a compressão necessária. Por isso, hoje temos meias esteticamente bonitas, aceitáveis socialmente e que dão esse suporte mecânico e funcional para a paciente”, explica Priscila, que recomenda as meias de gestante da linha Audace, da Sigvaris.

Fonte: SBAVC, Marcelo Monteiro, Priscila Nahas, Ricardo Brizzi e Edson Neves