Sobrevida em pacientes de câncer infantojuvenil chega a 75%

Aos cinco anos Ismael teve um tumor diagnosticado e passou a usar roupa de super-herói para fazer o tratamento (Foto: Divulgação)

Aos cinco anos Ismael teve um tumor diagnosticado e passou a usar roupa de super-herói para fazer o tratamento (Foto: Divulgação)

Aos cinco anos, Ismael foi diagnosticado com um tipo raro de tumor no cérebro, que já afetava a sua visão. Ele precisava passar por 29 sessões de radioterapia ininterruptas. Como qualquer menino, Ismael é inquieto e não conseguia se concentrar.  A equipe do Centro de Oncologia Quinta D’Or, em São Cristóvão, Zona Norte do Rio de Janeiro, apostou numa solução lúdica para envolver o menino no tratamento e evitar o uso de sedativos. Profissionais customizaram a máscara termoplástica do pequeno paciente, para garantir que a cabeça e o pescoço sejam mantidos na posição correta para o tratamento. De um dia para o outro, Ismael se transformou em seu super-herói favorito: o Homem-Aranha.

E talvez sejam justamente fortalecidos pelos superpoderes misteriosos dos superheróis que os pequenos têm mais chances de se curar de câncer que os adultos: a sobrevida estimada no Brasil por câncer na faixa etária de zero a 19 anos é de 64%. Em outros países mais desenvolvidos, a chance de cura chega a 80%. Os dados fazem parte de uma pesquisa divulgada nesta quinta-feira (24) pelo Instituto Nacional do Câncer (Inca) e Ministério da Saúde, no Rio de Janeiro, para lembrar o Dia Nacional de Combate ao Câncer Infantil (23 de novembro) e o Dia Nacional de Combate ao Câncer (27 de novembro).

Segundo o Inca, o câncer é a doença que mais mata crianças e adolescentes no Brasil e a segunda causa de óbito neste grupo etário, superada somente pelos acidentes e mortes violentas. O chamado câncer infanto-juvenil inclui, na verdade, vários tipos de câncer. As leucemias representam o maior percentual de incidência (26%), seguida dos linfomas (14%) e tumores do sistema nervoso central-SNC (13%).  Entre 2009 e 2013, a doença levou à morte 12%  dos pacientes na faixa de 1 a 14 anos e 8% de 1 a 19 anos. Houve 2.724 mortes por câncer infanto-juvenil no Brasil em 2014 e para este ano de 2017, o Inca estima a ocorrência de 12.600 novos casos na faixa etária de zero a 19 anos.

câncer

A importância do diagnóstico precoce

Sima Ferman, chefe do Serviço de Oncologia Pediátrica do Inca, afirma que, para aumentar as chances de cura, o diagnóstico deve ser precoce e o tratamento, realizado em centros especializados, com oncologistas pediátricos treinados e toda a equipe multiprofissional especializada na atenção a criança com câncer.

“Os sintomas persistentes sempre merecem atenção, aqueles que continuam mesmo com as medidas médicas iniciais. Quando a criança não está bem, é importante que o pediatra a acompanhe até a resolução do caso. O câncer infanto-juvenil é uma doença potencialmente curável, mas é necessário que o diagnóstico seja rápido, bem como o início do tratamento”, acrescenta Sima.

O estudo apontou que a sobrevida de pacientes infantojuvenis varia de acordo com a região do país. Os índices são mais elevados nas regiões Sul (75%) e Sudeste (70%) do que no Centro-oeste (65%), Nordeste (60%) e Norte (50%).  As informações disponíveis atualmente permitem pela primeira vez estimar a sobrevida para o câncer infantojuvenil.  O índice é calculado com base nas informações de incidência e mortalidade. O panorama nacional completo sobre a doença no Brasil será lançada pelo Inca em 2017 e trará a inclusão inédita das informações sobre morbidade hospitalar, bem como da faixa etária de 20 a 29 anos (adultos jovens).

Uma legião de mini-heróis e heroínas

Quem produziu a máscara usada por Ismael durante o tratamento no Quinta D’ Or foram o técnico em radioterapia, Nelson Alves Junior, e a física Gabriela Flores, ambos do Centro de Oncologia Quinta D’Or. “Pesquisamos vários tipos de tintas e canetas que poderiam ser usadas durante o tratamento e que não causasse nenhuma alergia”, contou Nelson. Com tudo pronto, faltava apenas a roupa – doada pela chefe de enfermagem Ana Firmino. Foi o técnico em radioterapia Moisés Gonçalves que fez com que Ismael embarcasse na brincadeira, transformando a máquina de radioterapia em um esconderijo do pequeno super-herói. Lá, a criança ficava imóvel esperando as orientações de Moisés para “combater os inimigos”.

A história de superação de Ismael acabou influenciado outras crianças com câncer que já chegam à unidade pedindo suas máscaras personalizadas. A equipe médica começou, então, uma nova pesquisa para ajudar outros heróis e heroínas.  Segundo especialistas, o tratamento humanizado ao paciente de câncer também colabora para a sua eficácia. “Alguns dos tratamentos disponíveis contra o câncer infantil exigem paciência, tanto do paciente quanto da equipe médica. Na radioterapia, por exemplo, é imprescindível ficar imóvel por alguns minutos, pois qualquer movimento pode alterar a área que será tratada. Para um adulto, isso raramente pode ser um problema. Já para uma criança, sim”, comenta Sérgio Perlamagna, onco-hematologista infantil da Central Clinic, clínica do Grupo Oncologia D’Or em São Paulo.

Diagnóstico precoce e acesso ao tratamento

Segundo Sima Ferman, os tumores dos cânceres infantojuvenis crescem mais rapidamente do que os dos adultos e tornam-se invasivos, porém, respondem melhor ao tratamento. “É importante que pais e familiares saibam identificar os sinais e sintomas da doença, que são muito parecidos com os de doenças comuns da infância. Muitos pacientes ainda chegam para tratamento com a doença avançada. É importante que as crianças com suspeita de câncer tenham um atendimento e encaminhamento o mais rápido possível”, reforça.

As diferenças entre os cânceres infantis e de adultos consistem principalmente nos aspectos morfológicos do tipo do tumor, comportamento clínico da doença e localizações primárias. Nas crianças e nos adolescentes, a neoplasia geralmente afeta as células do sistema sanguíneo e os tecidos de sustentação. Nos adultos, as células epiteliais, que recobrem órgãos, são as mais atingidas. Enquanto o câncer no adulto apresenta mutações, geralmente, em decorrência de fatores ambientais, como cigarro e exposição ao sol, por exemplo, o câncer pediátrico ainda não possui estudos conclusivos sobre a influência desses aspectos.

 

Os principais sinais e sintomas

– Palidez, manchas roxas e dor na perna;

– Caroços e inchaços, especialmente indolores e sem febre ou outros sinais de infecção;

– Perda de peso inexplicada ou febre, tosse persistente ou falta de ar, e sudorese noturna;

– Alterações oculares: pupila branca (reflexo do olho do gato), estrabismo de início recente, perda visual, hematomas ou inchaço ao redor dos olhos;

– Barriga grande;

– Dor de cabeça, náuseas, vômitos, visão turva, problemas de equilíbrio, alterações da personalidade e do comportamento, convulsões, sonolência;

– Dor em membro ou dor óssea, inchaço sem trauma ou sinais de infecção.

Fontes: Inca, Ministério da Saúde e Quinta D´Or (com a colaboração de Eliza Neves)