Recusa vacinal: por que as pessoas têm medo das vacinas?

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A estimativa do Ministério da Saúde era vacinar cerca de 48 milhões de pessoas em todo o Brasil, porém, apenas 35,1 milhões receberam a imunização contra a gripe na campanha deste ano. Os dados revelam o desinteresse da população pela vacinação. Mas por que isso acontece?  A baixa procura tem preocupado especialistas que veem a ação como preventiva para a saúde de toda a população.

Para se ter uma ideia, em 2016, o Estado de São Paulo teve o maior número de casos registrados de caxumba, uma média de 13 registros por dia, totalizando cerca de 4.193 casos. Para o aumento no número de pessoas que contraiu a doença é devido à falta de cobertura vacinal adequada em determinadas pessoas, propiciando desta forma a circulação do vírus.

Neste Dia Nacional da Vacinação (17 de outubro), Guido Carlos Levi, autor do livro ‘Recusa de Vacinas – Causas e Consequências’, analisa o cenário das imunizações e as baixas coberturas vacinas registradas no país, em entrevista exclusiva ao Vida & Ação. A recusa vacinal foi o tema abordado pelo durante a  19ª Jornada Nacional de Imunizações, realizada em agosto de 2017 pela Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm) no Hotel Maksoud Plaza (SP).

Apesar da procura aquém do esperado nas campanhas de vacinação, causada por diversos fatores, o diretor da SBIm garante que a situação no Brasil ainda é muito melhor que em outros países, especialmente na Europa, onde há campanhas para desqualificar a importância de muitas vacinas, provocando com isso a volta de doenças que pareciam estar erradicadas.

1) A recusa vacinal foi o tema abordado pelo senhor durante a 19ª Jornada Nacional de Imunizações. O senhor poderia traçar um panorama sobre esses índices no Brasil e traçar um comparativo com outros países?            

Os grupos contrários à vacinação no Brasil são discretos se comparados aos europeus e a alguns que atuam nos Estados Unidos, felizmente. Isso, no entanto, não nos deixa tranquilos. Em tempos de redes sociais, nos quais informações equivocadas ou mal intencionadas circulam com uma velocidade impressionante, todo cuidado é pouco.

2)  A estimativa do Ministério da Saúde era vacinar cerca de 48 milhões de pessoas no Brasil, porém, apenas 35,1 milhões receberam a imunização contra a gripe. Os dados revelam o desinteresse da população pela vacinação. Por que isso acontece?

O brasileiro em geral confunde a gripe com os resfriados, então imagina que não é necessário se vacinar. A situação só muda de figura quando são noticiados casos de infecção por AH1N1, que a população imagina ser mais grave, por conta da pandemia de 2009. Não é. A letalidade e o índice de complicações são semelhantes aos das demais cepas que circulam regularmente.

3) Doenças que pareciam controladas podem voltar a assustar, caso a população relaxe e deixe de se vacinar adequadamente? Quais são elas?

Sim, há risco de retorno do sarampo, da rubéola, da rubéola congênita e, menos provável, da poliomielite, que está em vias de ser erradicada mundialmente. Devemos destacar que o surto de febre amarela silvestre que atingiu especialmente o estado de Minas Gerais no início de 2017 foi muito facilitado pela pouca procura à vacina. Apesar de a vacina estar disponível nas redes pública e particular há décadas, um relatório divulgado pelo Ministério da Saúde em março apontou que dos primeiros 533 municípios mineiros a intensificarem a vacinação este ano, apenas 25 haviam alcançado, em 2016, a meta de 95% de cobertura vacinal. Ainda pior, 253 não atingiram nem 50%.

4) Em 2016, o Estado de São Paulo teve o maior número de casos registrados de caxumba, uma média de 13 registros por dia, totalizando 4.193 casos. O senhor acha que esse aumento de casos tem a ver com a inadequada cobertura vacinal da população?

Atribuir esses episódios à queda de cobertura é precipitado. A caxumba é uma doença altamente contagiosa, que causa surtos de forma cíclica, e eventualmente afeta pessoas vacinadas, visto que a eficácia do imunizante após as duas doses recomendadas varia entre 80% a 90%. Atualmente, alguns estudos estão sendo realizados para avaliar se uma terceira dose pode ser benéfica no longo prazo.

5) Quais os tipos de vacina que mais provocam desconfiança da população? Por quê?

Sem sombra de dúvidas as vacinas contra o HPV e a tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola). Com relação à primeira, há dois fatores: o principal foi o caso das meninas de Bertioga, litoral de São Paulo, que tiveram paralisia nas pernas após receberem a vacina. Elas se recuperaram plenamente e passaram por diversos exames médicos, que constataram que não houve qualquer prejuízo neurológico e que se tratou de um quadro de ansiedade pós-imunização — comum entre adolescentes.

O resultado da investigação, no entanto, não alcançou a mesma repercussão. O segundo motivo é a crença de que a vacina, por prevenir uma enfermidade sexualmente transmissível, anteciparia a vida sexual ou motivaria comportamento de risco. Por mais que a ideia não fizesse sentido, um estudo com cerca de 200 mil meninas conduzido durante cinco anos nos Estados Unidos enterrou de vez a tese.

Já no que diz respeito à tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), o problema é fruto de um trabalho publicado em 1998 na The Lancet — uma das mais importantes publicações científicas do mundo —, que associou a vacina a casos de autismo. Os resultados não só foram desmentidos por pesquisas posteriores como se descobriu que o autor, o britânico Andrew Wakefield, recebeu pagamento de escritórios de advocacia envolvidos com processos contra a indústria farmacêutica. Ele foi condenado criminalmente, perdeu a licença médica e teve o artigo retirado dos arquivos da publicação.

6) Os efeitos adversos causados pelas vacinas são o principal fator para as baixas coberturas?  

Antes de tudo, é importante esclarecer que o Brasil não tem baixas coberturas, com exceção da vacina HPV e do ocorrido em algumas campanhas. O que ocorrem são bolsões de pessoas não vacinadas, ou seja, homogeneidade aquém do ideal.

Respondendo a pergunta, no caso da vacina contra o HPV podemos dizer que o principal são os eventos adversos erroneamente atribuídos a ela. Nas demais, é o pensamento de que não é necessário se vacinar, já que a doença não está presente no dia a dia.

7) No caso da vacina do HPV entre meninas e meninos, a resistência é maior porque também envolve um julgamento moral sobre prevenir crianças de doenças sexualmente transmissíveis? Como vencer este preconceito?

Sim, veja no item cinco. A única forma de lutar contra o preconceito é oferecer muita informação sobre a vacina e parar de tratar o sexo como um tabu. É algo natural.

 

8) Vemos muitos boatos e informações erradas sendo disseminadas a respeito das vacinas. O que a SBim tem feito para contornar isso e informar a população?

A SBIm tem realizado diversas atividades, desde encontros com jornalistas e blogueiros a campanhas de conscientização, como a “Quem é sênior, vacina” (familia.sbim.org.br/quemeseniorvacina/) e a “Onda contra câncer” (ondacontracancer.com.br/). A iniciativa mais contundente é o Família SBIm (família.sbim.org.br). Trata-se de uma espécie de  enciclopédia virtual sobre o tema, que apresenta as vacinas, doenças que previnem — incluindo sintomas e transmissão —, mitos, perguntas e respostas, depoimentos de pessoas que tiveram enfermidades imunopreveníveis, dados sobre segurança, entre outras questões.

9) Na sua opinião, o que é necessário para ampliar a cobertura vacinal em todo o país? Como as clínicas de vacinação enfrentam o problema?

Como dito anteriormente, as coberturas vacinais brasileiras são excelentes. O nosso problema são os bolsões de não vacinados, especialmente adolescentes e adultos. Algumas ações, como ir aos colégios, são bastante eficazes, mas a palavra de ordem é educação. No momento em que todos entenderem que vacinação não é apenas “coisa de criança”, o panorama será ainda melhor. Sobre as clínicas, muitas têm sites e redes sociais com conteúdo de qualidade, mas o alcance é baixo em termos populacionais.

10) As pessoas têm dúvidas se as vacinas oferecidas na rede pública são eficazes. E na privada muitos consideram as vacinas muito caras. Como resolver esse dilema?

A rede privada possui algumas vacinas menos reatogênicas e mais abrangentes, mas todas as vacinas oferecidas pelo Programa Nacional de Imunizações (PNI) têm perfis de eficácia e segurança excelentes. Inclusive, vacinas que hoje estão apenas na clínica talvez sejam incorporadas ao SUS no futuro. Resolver esse dilema, que na verdade não é um dilema, mais uma vez passa pela educação.

O livro ‘Recusa de Vacinas – Causas e Consequências’ está disponível para download gratuito em www.sbim.org.br/publicacoes/livros