Geração tarja preta: quando a adolescência é controlada a pílulas

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Na tentativa de transformar os filhos em crianças ditas “normais” ou dentro de padrões pré-estabelecidos, muitos pais estão recorrendo a medicamentos controlados, de tarja preta, que afetam o sistema nervoso central e  causam sérios efeitos colaterais. Dados do Ministério da Saúde indicam que o Brasil é o segundo mercado mundial no consumo do metilfenidato, utilizado no tratamento do Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH). O aumento de consumo em pouco mais de dez anos foi de 775%.

Para Marcela Ouro Preto, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ), o uso da medicação pode estar envolvido com a ideia muito sedutora de se resolver com uma pílula um problema. Mas não é isso que os psicanalistas observam ao acompanhar seus pacientes em uso de medicamentos psiquiátricos, ainda que em alguns casos estes medicamentos possam ser muito benéficos.  Segundo Marcela, muitas vezes são usados medicamentos em casos que poderiam ser resolvidos com psicoterapia. “Os medicamentos têm efeitos colaterais, alguns conhecidos e outros não. Usá-los implica sempre em algum risco, embora em algumas situações sejam fundamentais”, adverte.

A medicalização da infância e adolescência será colocada em debate durante o I Encontro Inter-Regional de Psicanálise de Crianças e Adolescentes e Comunidade e Cultura – Fepal, que acontece no Rio de Janeiro, de 30 de novembro a 2 de dezembro, com o tema “A vulnerabilidade da criança e do adolescente no ambiente sociocultural da América Latina”.  Promovido pela Federação Psicanalítica da América Latina (Fepal) e pela Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ), o encontro contará com apresentações de psicanalistas argentinos, brasileiros, mexicanos e uruguaios.

“Atualmente lidamos com uma necessidade grande de se encontrar diagnósticos para determinados comportamentos das crianças e adolescentes. Muitas vezes são definidos diagnósticos precocemente e esses diagnósticos algumas vezes são equivocados. Mas, o estigma criado por conta de um diagnóstico pode perdurar ao longo de toda a vida”, analisa Marcela, que vai coordenar a mesa.

A especialista critica a pressão da indústria farmacêutica por uma precoce medicalização desses pacientes. “Uma vez definidos diagnósticos incorre-se no risco de buscar uma medicação que possa tratar tal patologia. A indústria farmacêutica tem grande interesse em que se possa usar medicamentos para tratar qualquer patologia, pois isso representa grandes lucros financeiros. No caso particular da infância, o uso de medicamentos pode implicar em um risco maior do que em adultos, pois o cérebro da criança ainda está em formação, assim como a mente e toda a estrutura emocional da criança.

Mentira também é colocada em debate

A partir da apresentação de trabalhos psicanalíticos clínicos e teóricos, o objetivo é trazer para discussão as vicissitudes técnicas no campo analítico com crianças e adolescentes,  a questão da medicalização na infância e na adolescência, as formas “disfarçadas” de violência e humilhação à criança, o desamparo psíquico, e discussão de casos clínicos.

Segundo a psicanalista Ana Sabrosa, diretora do Conselho Científico da SBPRJ, através do tema proposto para este Encontro Inter-Regional – FEPAL, pretende-se abrir um espaço de reflexão para questões que tangenciam a vulnerabilidade das crianças e adolescentes na América Latina. “A indiferença diante da morte, a fragilidade dos laços humanos, o sentimento de insegurança, a precariedade encontrada na educação e na saúde, são alguns pontos cruciais que precisamos enfrentar em nosso meio. O estado de carência e miséria social levam à exclusão e à marginalidade dos adolescentes, e mesmo das crianças, implicando numa perda de horizonte e de futuro”, comenta.

A mesa de abertura do encontro, no dia 30, terá participação de Roosevelt Cassorla, psicanalista da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo e professor colaborador do Departamento de Psicologia Médica e Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp. Ele recebeu recentemente o Prêmio Sigourney Award, o maior prêmio internacional de psicanálise – o equivalente ao Prêmio Nobel de outras áreas. O tema da sua palestra “A mentira na sociedade atual e no campo analítico”. Ele também fará palestra sobre questões relativas à psicanalise com crianças e adolescentes e será um dos comentadores de caso clínico.

Também na mesa de abertura, estará Marcelo Viñar, psicanalista da Associação Psicanalítica do Uruguai, ex-professor do Departamento de Educação Médica da Faculdade de Medicina UDELAR e coordenador de grupos de investigação sobre adolescência e marginalidade, com o tema “Na fronteira do psíquico e do social, esboços para pensar a construção e a destruição da humanidade do ser humano”.

No segundo dia do encontro (1), estão programadas quatro mesas com palestras e debates sobre racismo, sofrimento psíquico em crianças e adolescentes, vulnerabilidade e viabilidade na cultura, desamparo e vulnerabilidades psíquicas, infância e aspectos perversos do desenvolvimento psíquico, medicalização da infância, possibilidades e aspectos técnicos da psicanálise com crianças e adolescentes.

No terceiro e último dia do encontro, serão apresentados relatos de experiências de empreendedorismo social e inovação na Comunidade Cantagalo-Pavão-Pavãozinho (RJ) e de trabalho com professores e diretores de escolas municipais no RJ, além de discussão de caso clínico, com comentários de Alejandro Beltrán Guerrero, Marcelo Vinãr e Roosevelt Cassorla.

O encontro é voltado para estudantes e profissionais de Psicanálise, Psicologia e Medicina. A programação completa está a seguir. Outras informações e inscrições: www.sbprj.org.br, pelos telefones 21 2537.1115 e 2537.1333 ou pelo email tesourariasbprj@sbprj.org.br